vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

Onde perdemos a noção?

Na rodoviária, num sábado como tantos outros. Era só uma senhora querendo fazer uma ligação. E isso mostrou onde o mundo foi parar.


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Sábado, 10:20. Rodoviária do Jabaquara. Uma senhora totalmente perdida me pergunta:

— Você sabe onde encontro um orelhão?

— Não tenho ideia, não venho aqui há uns 20 anos — disse, meio sem graça.

Ela olhou para os arredores e já ia agradecendo e saindo, quando perguntei:

— A senhora vai fazer uma ligação local?

— Sim — ela respondeu, sem entender o porquê da pergunta.

Estendi o celular para ela, dizendo que ela podia fazer a ligação. Sua expressão foi de espanto total e pelo que pude perceber, ela não estava muito familiarizada com essas coisas modernas. Tive que discar o número.

Ela fez a ligação, se aproximou para devolver o celular, abriu uma bolsinha de moedas toda trabalhada em bordado oriental (sim, ela era japonesa!) e queria pagar.

Foram apenas alguns segundos e eu tenho um pacote com muitos minutos que uso pouco. Expliquei, mas ela continuava com a bolsinha aberta, incrédula.

Enfim, depois de muita insistência, ela aceitou a gentileza e quando eu ia me virando para ir embora, me chamou:

— Moça, nem sei como agradecer, você foi muito gentil!

Cobriu a pequena distância que nos separava e me deu um beijo gostoso, estalado, abrindo um sorriso interminável.

Fui embora triste. Que mundo o nosso, onde um gesto tão pequeno é considerado enorme. Às vezes acho que estamos mesmo perdidos!


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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