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Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

Cobrança sem boleto

Conhece Dona Prioridade? Ela não sorriu para você desta vez? Pois é... prioridades são seres fosforescentes e se o outro não estica a mão com um punhado delas para você, já era. E você tem consciência disso na hora. É o amor te mostrando a língua e avisando que já tem compromisso.


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O que se pode cobrar? Uma dívida. Pontualidade no trabalho. Lições de casa. Mas... amor e seus derivados? Não! A vida é feita de milhares de pecinhas sacanas conhecidas como prioridades e elas podem ser vistas a olho nu. Nada de binóculos ou lentes de aumento.

Tais seres poderosos não são extraterrestres e se apresentam bem na sua frente, desfilam sua impáfia e dão um tapa na sua cara sem luva de pelica mesmo. Na frente da torcida do Flamengo. E você que se dane.

Porque quando você não é prioridade para alguém, não há desculpa por torpedo, e-mail, ou transmissão de pensamento que dê jeito. É a amiga precisando de ajuda, o trabalho, um resfriado, a unha encravada, o elevador enguiçado... ah, meu Deus, mas tenho aquele compromisso e não tem jeito.

Sabe aquele amigo do primo do sobrinho da minha vizinha em décimo-quinto grau? Então, o cachorro dele morreu e eu não vou poder te ver hoje. É a tal prioridade pisando no seu calo e gargalhando. Você não é o escolhido da vez. E isso vai se repetindo feito música engasgada, filme zicado. Hoje, amanhã, depois. Ao mesmo tempo, é tão fácil se fazer presente hoje em dia, mesmo não estando ali!

Sua ficha vai caindo. Seu amor próprio também. Você olha pro chão e vê tudo lá, estatelado. Sua dedicação, seu sempre ali, seus gestos, bilhetes, torpedos, e-mails que eram mais outdoors avisando que o amor estava ali, estacionado na sua rua e Dona Prioridade também, deitada no seu sofá. O outro era, para você, a prioridade.

Assim, feito versos alexandrinos, tudo se encaixava com rima e métrica, porque você fazia por onde: saía correndo do trabalho para comprar champagne, desmarcava compromissos, tomava banho alucinando de pressa. Tudo para estar ali. Disponível. Na hora certa. Perfume, carinho, abraços com cara de lar, silêncios eloquentes, mãos, boca, sexo. Você estava 200% ali. E nem por isso deixava transparecer qualquer sacrifício que tivesse feito praquele circo todo acontecer. Ah, o que Dona Prioridade não faz!

O lance é o seguinte: amor você dá ou não dá. Sente ou não sente. E isso se mostra no ato, ali, na disposição, no "sevirol", no "tô chegando, peraê, só um minutinho", mesmo que seja às duas da madrugada, cansado, se arrastando. Afinal, tudo passa quando o coração chama. E o outro identifica isso na hora, porque nossas amiguinhas endiabradas, as tais prioridades, andam vestidas com roupas fosforescentes. Elas são tão óbvias, que negá-las é fazer um papel ridículo.

São tantas as pessoas traumatizadas, sem rumo, cegas, num castelo cheio de crocodilos ao redor. Será que você não faz parte da gangue? Vai encarar? Elas não te dão prioridade, porque a prioridade delas foi morar em outro lugar. E você ficou olhando o caminhão de mudança virar a esquina e sumir.

Muitas não querem saber de beijos lentos e mágicos, de danças sem música, de olhares de lua e sol, de tesão além do tesão, de sussurros coloridos e de flutuar com os pés no chão. De toques de cetim, cheiros, dedos nos cabelos e colo de algodão-doce.

Você quebrou a cara, os discos e o coração. Jogou fora o poema, o porta-retrato e o perfume. E agora? Pega o binóculo, olha, olha, olha e onde está Dona Prioridade? Nem sinal dela. Aí, você decide trancar a porta, apagar a luz, desligar o celular. Mas lembre-se de não virar um daqueles caras no castelo, com o monte de crocodilos ao redor.

Queira prioridade. Seja prioridade. Dê prioridade. Ame a ideia de ainda poder sentir e dizer o que sente, a humildade de fechar os olhos e se jogar nesse abismo do amor.

Porque em algum lugar, o planeta de alguém vai dar um encontrão no seu e o timing será perfeito. A prioridade do outro vai olhar para a sua e dizer: eu fico aqui!


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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