vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

Escolher uma coisa é desescolher outra

Você encontrou o amor da sua vida numa batida de carros? Ah, e escolheu ir por aquele caminho porque o Waze avisou que estava mais livre? Assim são as escolhas e desescolhas de viver!


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Vinha pela rua e decidi pegar um caminho no lugar do outro. A ficha caiu. Parei para pensar. Olhei para aquele oceano de contornos de pessoas na rua — cada uma delas com sonhos, saudades, dores, planos — e me perguntei quantas chegariam em casa; quantas teriam alguma ideia brilhante e fugiriam para o Japão; quantas encontrariam uma surpresa ao chegar.

Tudo são escolhas, o tempo todo. E as consequências delas nascidas. Com cada grão de areia, bilhete de amor, carta de demissão e prestação para pagar.

Tanta gente perde o horário do voo e o avião cai. Tanta gente não ia viajar, decide ir e o avião... sim, também cai.

Cada escolha desemboca num outro universo de possibilidades... e fazemos isso todos os dias: onde almoçar, que roupa usar, que caminho escolher para o trabalho.

Você pode virar a esquina e encontrar o amor da sua vida ou ser atropelado por um caminhão.

Chame do que quiser: livre-arbítrio, destino... ah, estava escrito... não importa. O que interessa é que as opções desfilam diante dos nossos olhos o tempo todo.

São tantos os fios invisíveis que se emaranham, vão, voltam, mudam de rumo. Ah, acho que vou até a padaria! Puf, tropeço num pé, olho para cima, me apaixono e nunca mais serei a mesma: um amor para a vida toda, filhos, netos. Ou desisto de ir à padaria, a chuva está forte, e sigo a vida sem um amor, mas com um canil, uma conta na Suíça, insônia e uma unha encravada.

Mas escolher uma coisa é, inevitavelmente, desescolher outra. Trilhamos um caminho por vez e se quisermos retomar alguma escolha anterior, ela já não será mais a mesma. O tempo passa, amarela as paredes, entope pias, muda endereços, floresce orquídeas, quebra empresas, faz alguém ganhar na Sena, mudar de opinião, de corte de cabelo, de sexo. Faz nascer e morrer.

O hoje é uma pluma numa noite de ventania. Leve e ágil. Frágil. A gente vive de migalhas do ontem e fica cego para o banquete de agora.

A solução para a vida é viver. Viver mata, sim senhor, mas também faz brotar. O mais importante: a responsabilidade pelas escolhas é sempre nossa. E não há como errar. É seguir escolhendo. E desescolhendo sem saber.

Amém!


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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