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Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

Caindo na real

Natal é tempo de tudo o que é mais lindo, mas também é preciso abrir os olhos para o real.


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Porque todo mundo desiste um dia, entrega os pontos, fica puto, levanta a bandeira da rendição. Todo mundo larga tudo e sai correndo pela vida, perguntando aos quatro ventos se escolheu a profissão certa, a mulher ideal, o melhor carro, a cor de roupa adequada... Afinal, quem não é mordido pelo mosquito do "e se..."?

Mas as escolhas já foram feitas, desembocaram em outras e assim sucessivamente, num emaranhado absurdo que esperamos, no fim, faça algum sentido. Você fez a melhor escolha que podia. Por mais que só se veja por aí fotos de comida, gente feliz, comemorando, com otimismo e fé inabalável, a banda não toca assim... não, senhor. Ninguém publica foto chorando de tristeza. Mas chora. Ponto. E fazer de conta que tudo é lindo não funciona.

Ou você acha que o Papai Noel que está ali com seu filho no colo — que, por sinal, está apavorado de medo do pobre pseudo-velhinho — está feliz em passar um calorão com aquela fantasia que o mundo insiste em reproduzir, mesmo em países com um calor absurdo como o nosso? Ele tem contas a pagar, um resultado de exame para retirar na segunda-feira que pode atestar uma doença grave. Um par de botas furado e vontade de ir ao banheiro.

Ele pode até amar o que faz, claro, já que nossas crianças, elas sim, precisam da fantasia que as acalentará lá na frente, quando forem adultos. Fantasia para onde elas voltarão de tempos em tempos quando a vida apertar seus calos mais velhos. Mas o bom velhinho não vive 100% do tempo nas nuvens, papeando com a rena Rudolph.

É preciso acordar para a vida, que o sonho tempera e adoça, mas o dia a dia não brinca, não. No fim, vale, então, misturar sonho com realidade e ver se o tempero fica bom. Tem que ficar, de alguma maneira, em alguns momentos. O resto a gente vai levando e de vez em quando sai correndo das obrigações e dos pesos, porque a gente merece.

Ali na frente sempre tem algo bom, mas sempre tem tempestade também. E ter "fé" (no que você quiser!), acho, é saber olhar para tudo de uma maneira realista. Rir disso de vez em quando, se possível, mas enxergar o que está diante do nariz. Nem todas as histórias têm final feliz, mas nem todas são trágicas.

Vamos aproveitar as festas de fim de ano e sair correndo mesmo. Porque 2016 vem aí e precisamos de sangue-frio para encarar o dragão. E a grande sacada para sobreviver, para mim, é justamente o fio da navalha. Felicidade deve ser um pouco isso. Ir e voltar. Rir e chorar.

Espero, de todo o coração, que os papais noéis larguem as fantasias e saiam correndo por aí, pedindo sossego e prosperidade para... Papai Noel...


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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