vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

Diga em voz alta!

Abrir o coração é um risco imenso. Se expor, falar o que vai na gaveta mais secreta da sua alma para o ser humano do outro lado do muro? Vale o esforço? Vale. Não pelo outro. Por você.


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Falar o que vai no coração não é sempre fácil. Ficamos parados diante de um muro que o outro ergue, ou que nós mesmos construímos. Pode ser pelos tropeços que demos, pelos silêncios do lado de lá na hora de ecoar o amor. Ah, pode ser tanta coisa... mas, enfim, lá estão os muros, pichados assim: "daqui você não passa".

Quantas vezes escalei, passei para o outro lado, enfrentei dragões, granadas e disparos com metralhadoras da resistência... Perdi a conta. Peguei um megafone e disse "eu te amo!", apenas para fazer o caminho de volta arrasada, porque o outro calou, desconversou, gelou. E o mundo escureceu.

Decidi me vingar e erguer um muro também. Bonito que só. Branquíssimo. Altura? Céu. Mas... eu estava me vingando de quem? De mim! Insano.

A verdade é que o "eu te amo" mora na gente, afônico, atacado da garganta, tomando antibiótico. Mas está ali, com febre de sair. E por mais que a gente se recuse a assumir a paternidade desse amor, ele existe e ocupa seu espaço. Tenta se manifestar num gesto que o exima de gritar. Ele perdeu a voz. E a vez.

E agora, José?

Depois de tanto silêncio, até o ponto de desaprender a falar, a gente recomeça do zero e aprende que não importa o não que more do outro lado. Não importa o silêncio, danem-se os dragões, monstros do Lago Ness e marcianos invasores prontos para assassinar o primeiro que gritar "EU TE AMO!".

É preciso dar colo para esse cara mudo de tristeza, nem que seja para ele emudecer novamente depois de mais uma cara na parede. Não faz mal. Importa o que vai em você. Importa, quando você escala o muro de volta, o fato de você ter arriscado, tentado. Mas... hummm... dar a cara a bater?

Sim, senhor!

É verdade, porém, que a vida ensina a escolher cada vez melhor e a gente também passa a avaliar com mais sabedoria no coração se tal pessoa vale todo esse esforço. Quando, enfim, eu concluo que vale, grito até perceber que me ouviram.

Hoje ando com uma marreta na alma. Marreta do bem. E derrubo esses muros todos: os meus, os alheios... e são tantos! Arrebento tudo, largo a marreta e solto a voz.

"EU TE AMO!"

Vou quebrar a cara? Alguma dúvida disso? Vou construir muitos muros ainda? Infinitos. Mas estou aprendendo que às vezes o silêncio só vale ouro para quem cala. E eu não quero mais calar.

Não tenha medo de dizer "EU TE AMO".


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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