vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

sobre o tempo de cada um

Como o seu tempo chega e parte? O que acontece dentro de você em um segundo?


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A gente se acostuma a olhar pela janela e sentir o vento passar, mas não o tempo. De repente, puf, foi. Tudo o que passou, levamos num vagão de trem que se chama memória, mas sem fazer tanto peso, porque ninguém merece. E ninguém aguenta. Se dá desespero? Muito. E tesão, então? Também, ainda bem.

Mas é isso e não tem receita pronta, porque a aventura não é bolo prático e rápido feito em programas de culinária. Ela é pimenta fora da medida, sal grosso faltando, porrada sobrando, vinagre demais e hidratante de menos.

É atraso para a reunião de manhã e pedra no rim de madrugada. É fila para o show dos Rolling Stones lá no Morumbi e facada no peito na Rua Augusta. É o choro na calçada pelo amor perdido e a gargalhada no banheiro imundo do boteco pelo amor nascido. É o telemarketing vendendo sei lá o quê de manhã e o banco cobrando a dívida à tarde. É buscar explicação e encontrar abismos onde só ecoa o vazio.

Nessa brincadeira — às vezes de mau gosto, às vezes alucinante —, vai-se uma vida, um legado. O que fica? Uma herança de exemplos, um nome no Serasa, cartas secretas, o perfume, a caixinha de música, a chave e o caleidoscópio. O jeito de abotoar a camisa, o tique nervoso, os cachos dos cabelos e o sorriso roxo de vontade de chorar. Aquele momento em que a gente se lembra e sorri, porque é tudo o que a gente consegue fazer, já que não dá para explicar. Assinaturas nossas, digitais de vida que ninguém faz igual.

O que fica de nós é o que tivermos feito. E não adianta ensaiar o ser. Ele vem rabisco e vai obra acabada (às vezes, mal-acabada!). Já que não sabemos quanto dura a janela entre o vir a ser e o ter sido, o jeito é eu ir dormir menina de corpo e acordar muitos anos depois, mas ainda menina de alma. Se for para levar a sério esta matemática dos anos, figuras muito intensas têm no RG um ano de nascimento, mas no coração, podem ter vivido milênios. Boa viagem para todos nós.

Em 12 de março de 2016


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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