vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

eu quero

Ter ou não ter, eis a questão! Quando perdemos a noção da diferença entre o ter e o ser?


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Nude Series VIII – Georgia O'Keeffe

Hoje ganhei um presente de mim: não tive vontade de presente nenhum – pelo menos não desses compráveis por aí, que vêm numa caixa, com laço, papel de seda e um cartãozinho. Desses que a gente parcela em zilhões de vezes sem juros (mentira!), pra depois chegar à conclusão de que não era tudo isso, assim; pra depois perceber que faltava algo mágico, algo que só apareceu ao longe, quando ainda não era nosso.

Passei diante de vitrines muitas e vi "possuíres" que me agradariam – e olha que sou chata pra essas coisas! Eu estava a um passo, era só parar e entrar. Ouvi, porém, uma voz mansa, gostosa, daquelas aveludadas, sabe? Daquelas de quem tem muita coisa resolvida na alma, de quem já ultrapassou as noites insones e pensou em sumir da estratosfera.

Ela, a voz, me disse:

— Não quero, não preciso, não almejo nada disso. Os presentes que quero da vida são muitos, mas outros. Ofereça-me viagens do coração, abraços, amores, beijos e músicas. Amigos, conversas psicodélicas, gargalhadas até perder o fôlego. Chuva, roupa pra lavar, horário no oftalmologista, um apelido delicioso. Quero paz aos domingos pela manhã e tesão em plena segunda-bunda. E tudo o que eu desejo, não se esqueça, não tem preço. Mas pode estar logo ali, de graça – de graça só pra mim, porque eu fiz por merecer. Meu presente é o presente e eu o quero agora, já que só ele existe.

Cheguei em casa de mãos vazias e coração pleno.

Era a minha voz interior.


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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