vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

Covardes ou heróis?

Às vezes, heróis; às vezes, covardes. No meio da luta entre um e outro, o que podemos fazer de bom com tudo isso?


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Qual é o seu limite diante da dor? Quanto da dor alheia que te machuca não vem do teu medo de visitá-la na própria carne? Tua emoção diante do sofrimento alheio é, de fato, pelo sofrimento alheio, ou pelo pavor de sofrer?

Teus olhos se afogam em tristeza pelo outro ou por você?

Então, todo gesto de amor também é covarde e egoísta?

Não importa, na verdade. Não, não importa mesmo. O que importa é o que você faz com isso. Porque estamos todos aqui, nessas paragens, sujeitos a quedas de aviões, problemas nos rins, cegueira (psicológica e física!), raiva, amor desesperado, alergia, alegria... Tanta coisa pode nos acontecer em meio aos arranjos e combinações da matemática dos dias!

Quando vemos o outro como vítima de algum tropeço do destino, o susto nos paralisa. Se é o medo ou a coragem que nos move, tanto faz. O que importa é fazermos algo disso — afinal, não conseguimos mesmo ficar parados diante do amor ou do pavor. A dor do outro pode ser um espelho para a nossa dor, ou nos comover genuinamente pelo outro. E ponto. Complicado ser simples, não é?

Ao voltarmos para casa, que tenhamos a capacidade de parar para ouvir aquela voz da verdade que ecoa misturada com as batidas dos nossos corações. A voz sem hipocrisia, sem mentiras. Ela pode sussurrar: "Sim, você também tem medo, mas sua briga com ele vira força. Você abraça o inimigo e ele se veste de entendimento, de noção da fragilidade, da real dimensão do poderoso fio da navalha que é estar por aqui!".

Aceite sua vulnerabilidade, sua necessidade de autopreservação e a pacífica convivência que tudo isso tem com o amor pelo outro. Aproveite a ficha que caiu, saia pelo mundo e faça algo bom. Da maneira que puder. Até onde alcançar. O gesto pode ser pequeno, não faz mal. Basta que ele nasça.

A epifania vem na hora: somos todos um pouco covardes e um pouco heróis. Então, quando o outro estiver apavorado, sejamos heróis. Vamos chorar depois, sem dúvida. A diferença dos gestos pode parecer imperceptível, mas não é.

Entender que estamos aqui no mesmo barco e que a tempestade vem, sim, é um banho de realidade necessário. Às vezes, no meio dela, somos os heróis ou os covardes. Viver é sempre uma incógnita e não tem receita.


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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