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Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

O desvendador de almas do metrô

Ele anda pelo metrô lendo as almas dos passageiros e entregando-lhes poemas, mas ao observá-lo, revelou-se algo além do óbvio.


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Ele desliza pelas estações com sua malinha aberta, cheia de papéis coloridos e um pouco amassados. Mão no queixo, olhar de observador detalhista, que vê as pessoas por dentro. Sorri quando sente que leu o coração de alguém, virou suas entranhas pelo avesso e as transformou em poesia.

No vaivem, as almas que por ali passam permitem-se pensar sobre tudo. É um momento entre uma coisa e outra: o tapa e o beijo, a casa e o trabalho, a paz e a guerra, o ainda por dizer e o já dito, sem volta.

Num vagão cheio, estão sozinhas, podem abrir os portões de seus próprios eus. Pensam na conta atrasada, no tapa na cara, na declaração de amor, no perfume, no vinho, no beijo. No lixo que esqueceram de colocar na rua, na chave da cozinha que ficou do lado de fora, no excesso de falta.

Fones de ouvido, celulares a postos. Mensagens, mídias sociais, caras e bocas. Uma lágrima aqui, um bocejo ali, uma risada contida na outra ponta. E ele lá, observando por alguns instantes — porque é tudo o que ele tem — cada passageiro e esticando a mão com um papel colorido para entregar um poema. São inúmeros, um diferente do outro, e ele os entrega depois daqueles instantes de minuciosa observação, só quando tem certeza de que o poema é o certo. Conclui que aquela pessoa precisa daquele texto e oferece.

Caras feias? Muitas. A gente logo pensa: ele está querendo vender alguma coisa. Sim, quer vender seu livrinho, impresso caseiramente com imenso sacrifício — vê-se! —, para sobreviver e passar adiante alguns recados.

É cuidadoso ao estender aquele primeiro presente. Quer ler a alma de quem por ali passa e pintá-la de poesia. Entregar uma mensagem mais doce, escancarada e rimada de amor. Amor de todos os tipos. Um alento no deserto de dor entre as estações.

Hoje eu era uma das pessoas no vagão. Exatamente como as outras: óculos de sol, fones de ouvido, o olhar flutuando pela janela em busca de paisagens que trouxessem solução para algumas coisas, sorrindo ao lembrar de outras.

Ele estendeu seu papelzinho bem estudado na minha direção. Tirei os óculos, sorri, agradeci, li. Meus olhos ficaram rasos d'água pelo seu cuidadoso gesto. Comprei seu livro e espero que ele me encontre mais vezes pelas linhas tantas do metrô e da vida. Que me salve de mim, de alguns dos meus pensamentos. Que perscrute no meu olhar o que vai na minha alma. Que entregue pedacinhos de cura em pedacinhos de papel.

Anjo-poeta do metrô, que vê amores passageiros todo santo dia, obrigada!


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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