vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

Juro que vi o amor nu, bem no meio da rua

Quando o amor decide aparecer nu na rua, despretensiosa e sinceramente.


012945_Ampliada.png (Ilustração: Abraço costurado com fios de nuvens, de Dani Purper)

Juro dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. Eu vi, Meritíssimo. Esta não é uma obra de ficção. Foi hoje pela manhã, quando eu passeava com o cachorro. Frio, mas sol, por volta das 10h. Artur de Azevedo, antes de cruzar a Joaquim Antunes.

No meio da quadra, uma cena comum, mas que tirou meu fôlego. Obviamente, eu não fotografaria um momento daqueles, tão íntimo, embora escancarado. Um casal na calçada. Um abraço sentido, daqueles que a gente não se esquece quando vê. Despedida? Alguma decisão a ser tomada? Um drama ou amor daqueles, avassaladores? Dava para ver as palavras não ditas dançando entre eles, bem ali. No silêncio, eles entendiam tudo e o mundo presenciava.

Ele com um gorro de lã marrom, os cachos castanhos aparecendo na altura da nuca. Alto, magro, braços longos mesmo (ou será que eu o vi assim pela intensidade do abraço?). Um cara comum. Não sei se estava triste ou emocionado. Olhos fechados, braços ao redor dela, uma moça pequenina, morena, com os cabelos picotados e tingidos em diferentes tons de vermelho. Ela usava um cachecol felpudo, verde, botas pretas. Testa contra testa, ele e ela, assim.

Nada de mais. Só que deu para perceber que o mundo tinha parado naquele instante, que eles guardariam nas gavetas da mente. Era algo sério, não uma simples despedida tipo "te vejo à noite".

Como uma bisbilhoteira, demorei-me ali, jogando a culpa no cachorro. Fiquei admirando discretamente a cena, encantada. Eles não disseram uma palavra sequer. Deixaram-se ficar ali, assim, e dane-se a rua, dane-se a moça passeando com o cachorro. Dane-se o mundo.

Era isso. Em tempos digitalmente superficiais, quando a gente já não acredita em mais ninguém e perdeu a fé no sentir alheio, tal cena é mesmo de impressionar.

Com um puxão na coleira, o cachorro estava meio que dizendo "deixa de ser xereta e vambora!". Seguimos nosso curso, mas eu já tinha desenhado toda uma história na mente. Uma história que desembocava ali, naquele abraço. Chegando em casa, sentada na minha amada Varandota Maria, fiz questão de terminar a narrativa mentalmente com um final feliz.

Pronto, Vossa Excelência! E é tudo verdade!


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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