vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

Ele, ela e a boneca

Qual é a idade do amor?


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Caminhavam muito lentamente pela calçada esburacada, como se o Tempo tivesse parado numa esquina para tomar um café e conversar com seus amigos, a Inconstância e a Verdade. Cabelos total e impecavelmente brancos, mãos tão entrelaçadas quanto raízes centenárias.

Deviam ter cerca de 90 anos. O mundo dela orbitava em outra galáxia e uma boneca balançava em sua mão esquerda. A direita, totalmente ocupada pela mão dele, movia-se quase sem liberdade, já que com certeza, solta, ela se perderia pelo mundo.

Fixei o olhar naquelas mãos e na boneca. O recado veio afiado e intenso. Não fosse por aquela mão, o que seria dela, que provavelmente desaprendera tudo o que é preciso decorar por aqui para sobreviver? Imaginei aquele senhor alimentando, penteando, conversando com ela. Imaginei, também, sua sensação de impotência, pois provavelmente, muitas vezes ela nem o reconhecia.

Minha mente foi parar na cozinha deles, que imaginei amarela, com azulejos antigos, um filtro de barro, uma planta sobre a mesa, um pano de prato com a barra rendada bordada por ela há muito tempo e o silêncio dos bairros mais residenciais. Logo vi a boneca em seu colo e ele com uma colher na mão. Viajei para mais longe ainda, vendo os anos em que eles se amavam intensamente e ela estava sã.

Voltei para o hoje meio embriagada dessa noção de tudo que me caiu na cabeça feito piano de cauda. Olhei para ele desta vez. Compenetrado, o cenho franzido de tanta tensão, totalmente concentrado nela. Esgotado, como se suas preocupações tivessem mil anos. Eram tantos os buracos, os perigos na rua! Ela dependia visceralmente daquela mão colada na sua e nem sabia disso. Ele não podia se descuidar por um segundo sequer, porque ela, com olhar distante, estava ali, mas de maneira meio transparente.

Sim, a vida é veloz e ela nos prova o que realmente permanece. Voltei para as mãos entrelaçadas e vi que o amor tem muitos tons. Vi que ele ganha rugas quando passa pelas provas de fogo que o tempo sempre traz. Sorri ao compreender que muitas vezes, ele não se pronuncia tão obviamente quanto esperamos. Mesmo assim, podemos sentir seu perfume. Em tal condição, independe de qualquer verbalização, bastando-se em seu estado sólido de verdade absoluta.

O amor, ele, ela e a boneca, caminhando pela rua num dia como outro qualquer. O colorido daquela cena tão incrível no meio do mundo que buzinava, vendia, comprava, era espantoso, meio surreal. Ele, ela, a boneca e o amor.


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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