vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

O mistério da escrita do avô de Júlia

Júlia queria descobrir a magia que seu avô usava para escrever. Ficou maravilhada...


635841957604688445-623502608_power-of-words-by-antonio-litterio-creative-commons-attribution-share-alike-3-0.jpg Imagem: O poder das palavras - Antonio Litterio

O relógio mostrava 17h20. Ele saiu atrasado, pegou sua bengala e esqueceu a luz do escritório acesa. Saltitante, a menina foi desligá-la e olhou sobre a escrivaninha. Uma montanha de papéis. Ele escrevia de tudo: poesias, contos, histórias de amor, de dor; de alienígenas e monstros do mar; histórias sem pé nem cabeça também. As palavras davam-se as mãos numa harmonia mágica. Ela adorava ler aqueles textos e achava tudo muito misterioso. Como ele conseguia juntar tudo com tanta delicadeza, com tanta beleza? Quando crescesse, Júlia seria uma escritora, tinha certeza! Pediria que ele ensinasse tudo.

Desde que se entendia por gente, ela devorava os textos do avô. Quando ainda não sabia ler, ele lia para ela dormir e ela ficava mais acordada a cada dia. Queria mais e mais. As palavras iam formando figuras diante dos seus olhinhos de estrelas que não queriam saber de dormir. E um novo mundo nascia a cada noite, ali, para ela e seu avô.

Com ele ausente, ela decidiu fazer uma viagem secreta ao seu mundo – uma viagem há muito planejada –, para descobrir como ele escrevia com aquela caneta tinteiro – ele não gostava de computadores – ou datilografava numa Remington antiga. Nunca comprou tinta para a caneta ou fita para a máquina, nem revelava o segredo. A menina abriu gavetas, armários, vasculhou tudo e nada encontrou.

Sentou-se na cadeira do avô, alta demais para que suas pernas encostassem no chão. Cansada e preocupada que ele voltasse e a surpreendesse xeretando, estava quase desistindo. Como ele fazia aquilo? Seus dedos ficavam até sujos de tinta! Incrível! Diante dos seus olhinhos de mar, uma folha escrita até a metade. A letra dele, linda, era inconfundível. Curiosa, começou a ler:

"O verdadeiro sábio das palavras, o legítimo mago da escrita, para assim sê-lo, não usa tinta. Usa uma substância que não aparece no vidro do tinteiro, nem na máquina. Lá, ela fica dormente, invisível, como se para fazê-la aparecer, fosse preciso pronunciar, mesmo que só no pensamento, uma senha secreta. Ela se deixa vislumbrar somente quando chega ao papel, num beijo, num abraço, com a missão cumprida. É com a ALMA que o mago escreve, com a ALMA!"

Júlia colocou o papel no lugar e foi para o seu quarto, maravilhada. Sentada diante de sua escrivaninha de estudos, pegou uma caneta qualquer, tirou a carga, apoiou sobre um papel em branco e começou a escrever.


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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