vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

Ter ou não ter, eis a questão

Em tempos ameaçadores, o que preenche sua alma de alegria? É real?


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Recentemente, compartilhei um texto antigo sobre de quão pouco precisamos de fato para (sobre)viver.

Nestes sombrios e pesados tempos de coronavírus, gente enclausurada alimentando-se de salgadinhos com cheiro de chulé, minicenouras, Coca-Cola Zero, muita neurose, pipoca caramelizada, desamparo e álcool gel 70%, percebi uma urgência lenta rasgando as entranhas do meu ser e mostrando a cara na superfície das minhas águas de tristeza, com cara de Monstro do Lago Ness: o consumismo.

Explico:

Há séculos, minha velh’alma anseia por começar uma coleção de minifaróis marítimos. Ontem, um artesão dos confins do mundo que vende seu maravilhoso trabalho por meio de uma plataforma comunitária, informou que meu produto favorito estava com preço reduzido e frete grátis. Meus olhos brilharam, minh’alma gritou: “Quero a-go-ra!”.

Não estou julgando ninguém, nem a mim mesma, pobre criatura maltratada pelos desejos materiais, mesmo que em tempos caóticos. A pulga agarrada atrás da orelha do meu pensar é simplesmente esta: por que estes desejos, aparentemente, nos enganam, acendendo um neon do tipo “vou resolver todos os seus problemas”? O quão fracos somos? O quanto, realmente, não custaria nada satisfazer aquele caprichinho bobo? O quanto, em tempos de ameaça real às nossas vidas, tal produto acalmaria nossos dragões interiores? Fica no ar, junto com o vírus, a pergunta que não quis calar.

LKG


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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