vitor dirami

A beleza vai além do que podemos olhar.

Victor Dirami

Marilyn Monroe por Bert Stern

No ano em que se completa 50 anos da morte da maior diva da história do cinema, relembramos com um novo olhar a histórica sessão de fotos feita por Bert Stern pouco antes da morte de Marilyn Monroe.


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É julho de 1962, já é noite na cidade de Los Angeles e na suíte 261 do charmoso hotel Bel Air, o fotógrafo Bert Stern espera impaciente a chegada de Marilyn Monroe. São sete horas da noite quando ela chega, ela só estava incrivelmente quatro horas atrasada, mas isso não importa, aquela altura todos já haviam se acostumado a esperar Marilyn Monroe.

O fotógrafo nova iorquino Bert Stern já era bastante requisitado naquela época no pequeno mundo do cinema de Hollywood. Ele já se sentia devidamente capaz de fotografar uma estrela da magnitude de Marilyn e propôs à revista Vogue uma sessão de fotos com a atriz, a Vogue ainda nunca tinha feito nenhum trabalho com Marilyn.

Após o fatídico episódio da demissão de Marilyn da 20th Century Fox pouco tempo antes, por causa do naufrágio da produção de Something's Got to Give, para muitos ela estava destruída. Marilyn havia sido decretada como louca e incapaz. Surpreendentemente, mesmo com a vida em frangalhos, ela não demorou a reagir, naquele curto espaço de tempo ela posou para vários fotógrafos e revistas, Bert Stern foi o último deles. Essa era a sua maneira de mostrar que ainda estava viva, que ainda tinha força, que Marilyn Monroe não estava morta.

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A ideia de Bert era ousada, ele a quer nua, mas sabe que desde as fotos do célebre calendário feitas por Tom Kelley no fim dos anos 40, ninguém mais a convenceu a tirar a roupa. E ele não vê a necessidade delas, quer Marilyn em estado puro. Por isso, pede à Vogue várias echarpes e bijuterias, para ele a presença delas faz a das roupas menos necessária. Quando Marilyn vê as echarpes estiradas em cima da cama, ela rapidamente percebe as intenções de Bert, mas não parece se incomodar.

Marilyn diz a Bert sobre sua cicatriz no abdome, ela havia retirado a vesícula biliar a pouco mais de um mês. Ele acha engraçado porque acabara de fotografar Elizabeth Taylor em Roma (durante as gravações de Cleópatra), e ela também tinha uma cicatriz no pescoço, ele diz à Marilyn que é possível apagar a cicatriz retocando a foto, mas prefere não fazer isso. Nem com ela, nem com Liz Taylor, porque segundo ele quanto menos se retoca uma fotografia, mais ela conserva a sua força.

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A última sessão de fotos (no original em inglês the last sitting), não é apenas célebre por ser a última de Marilyn Monroe, mas por apresentá-la em diversos ângulos, faces, cores e estilos. Bert Stern soube como nenhum outro captá-la de todas as maneiras. Podemos ver uma Marilyn madura e esplendorosa, de 36 anos, belíssima, mas já marcada pelos sinais da idade. Em outro ângulo, ali esta Norma Jeane - o verdadeiro eu, a garota por detrás de Marilyn. Aquela que deveria morrer para que a outra nascesse.

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Se em algumas fotos Marilyn espanta pela jovialidade, beleza e frescor, já em outras ela aparenta o cansaço e a exaustão que vivia. É quando fica nítido que aquela estrela do cinema, que já era um mito, a loira mais amada do mundo, estava envelhecendo diante de nós mesmos.

Marilyn relaxa, bebe champanhe (uma de suas exigências foram três garrafas de Don Pérignon safra 1953), e se entrega à luz dos flashes, a câmera, as echarpes e as bijuterias. Desfila glamour e faz caras e bocas. Engraçada, cômica, sensual, erótica. Seus cabelos quase brancos de tão descoloridos cintilam à luz dos flashes. Marilyn Monroe está despida e entregue à câmera de Bert. Ela nunca pareceu tão natural antes. Marilyn fotografa até a exaustão, quando sai do hotel Bel Air já são sete da manhã. Bert Stern soube que a Vogue adorou o resultado do trabalho e quer mais fotos, eles querem usá-las em oito páginas e precisam de mais fotos, e querem mais fotos em preto e branco.

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Bert soube magistralmente dosar a nudez de Marilyn e valorizá-la. Em nenhuma foto sequer há qualquer resquício de vulgaridade, pelo contrário, Marilyn nunca pareceu tão charmosa nas fotos. Sua nudez é linda, pura, sensual e bela.

Agora a Vogue a quer luxuosamente vestida. Vestidos de grife, casacos de pele, luvas, penteados elaborados, jóias... A Vogue era a suprema referência de moda e não brincava em serviço, Bert era o fotógrafo perfeito para fazer essas fotos de Marilyn.

Ela se saiu tão bem quanto o esperado, ao todo foram três dias e três noites de trabalho, num total de mais de 2.000 mil fotografias. O cerimonial da moda exigia vários maquiadores e cabeleireiros para vesti-la, penteá-la e lhe servir champanhe. Marilyn bebe e se entrega novamente de corpo e alma para a câmera de Bert Stern. O resultado das fotografias de moda é maravilhoso.

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Vestida num elegante vestido preto, de mangas compridas e costas nuas, ela parece emocionada. Tudo exala emoção em Marilyn nesta sessão, ela destila um verdadeiro leque de sentimentos e sensações. Vestida dos pés à cabeça com um luxuoso casaco de pele, parece uma boneca - linda e jovem. Já com casaco longo, estilo trench coat e de chapéu, ela parece sexy e fatal, mas um pouco amedrontante com a atmosfera dark criada por Bert. Ele não para de fotografá-la um só minuto. Marilyn é ansiosa e impulsiva, muda de aspecto e humor a cada segundo, suas expressões se alternam constantemente, e é quase impossível fechar o obturador. Bert agora a fotografa em close, deitada em meio a purpurina e segurando colares. Marilyn não posa para as fotos, Bert as capta no mesmo instante da sua expressão, nada é programado, tudo é absolutamente natural.

Ironicamente, a Vogue a vestiu idêntica a Holly Golightly, personagem inesquecível de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo. A ironia é que a personagem do romance de Truman Capote, amigo de Marilyn, foi assumidamente inspirada nela. O sonho de Truman era que Marilyn interpretasse Holly no cinema. Marilyn amou o personagem e quis muito interpretá-la, mas os executivos da Paramount preferiram Audrey Hepburn, e o filme foi realizado um ano antes da morte de Marilyn.

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O fim está próximo, Bert Stern agora a fotografa nua. Embriagada, Marilyn se deita na cama envolta em lençóis e travisseiros. A sessão flui e Bert capta cada instante da estrela. Marilyn ri, fala, gesticula... Parece sonâmbula. Nunca ninguém a fotografou dessa forma, e não haverá uma próxima vez. Ele quer fotografá-la deitada, de perfil. Ele sobe na cama, ela dorme e ele faz a foto. Acabou, ela está dormindo. O fim chega e o de Marilyn também. Os flashes se apagam, se apaga uma estrela. Dali a pouco menos de um mês, antes mesmo das fotos serem publicadas na Vogue, Marilyn Monroe morre. Em nenhuma daqueles fotos há o diagnóstico cruel que a persegue até hoje - louca, doentia, depressiva. O diagnóstico que o doutor Greenson lhe deu. Na sua última sessão de fotos, seu futuro esta escrito - enigmático, como todo o resto da sua vida.

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