vitor dirami

A beleza vai além do que podemos olhar.

Victor Dirami

Sunset Boulevard: A Hollywood Story

No drama noir Sunset Boulevard, dirigido por Billy Wilder, em 1950, Gloria Swanson interpreta Norma Desmond. Uma velha, amargurada e megalomaníaca estrela do cinema mudo que alimenta sonhos mirabolantes de um retorno triunfal ao cinema. Mas, até onde vai a ficção em Sunset Boulevard? E norma Desmond seria tão irreal assim? Desvende agora, um pouco mais, sobre esta obra-prima fascinante de Hollywood.


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Considerado um dos maiores clássicos da história do cinema hollywoodiano, Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses - na tradução original), é um filme antológico, impossível de se esquecer. Filão do gênero film noir, caracterizado pela fotografia em preto-e-branco, cenários noturnos e interiores sombrios, flashbacks, personagens ambíguos e protagonistas corruptos, violentos ou loucos. Sunset Boulevard reúne os melhores elementos do gênero, aclamado pela crítica, de sucesso incontestável, é a grande obra-prima do diretor Billy Wilder.

Sunset Boulevard conta a história do duvidoso roteirista Joe Gillis (interpretado por William Holden), que para fugir dos cobradores que estavam em seu encalço, se refugia numa gigantesca e assombrosa mansão que ele pensava estar abandonada, mas na verdade pertencia a Norma Desmond (Gloria Swanson), uma atriz decadente que no passado fora uma estrela do cinema mudo. Quando Norma toma conhecimento que Joe é roteirista, ela o contrata para para trabalhar no roteiro de Salomé, que ela própria havia escrito. O texto é horroroso, mas ela paga bem e ele decide ficar, sem saber da tremenda cilada em que havia se metido.

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Norma Desmond é uma das personagens mais emblemáticas da história do cinema. Gloria Swanson está simplesmente magnífica. Norma vive sozinha, em companhia de um nefasto mordomo (interpretado pelo genial Erich Von Stroheim), em sua mansão do Sunset Boulevard (uma rua elegante que corta Beverlly Hils e dá nome ao título do filme). Assim como outras mansões de artistas antigos que ficavam naquela mesma rua, a excentricidade de Norma dá o tom daquele lugar. Sombrio, com uma decoração de gosto duvidoso, repleto de fotografias e quadros da própria artista, grandioso porém decadente. É como se fosse uma prisão em que ela vive sempre acorrentada ao passado, sem poder enxergar o presente. Norma foi uma diva do cinema mudo, e viu sua carreira declinar. Ela se ressente dos filmes falados (chamados "talkies") e os culpa. Megalomaníaca e ensandecida, ela alimenta os sonhos de um retorno triunfante as telas do cinema, dirigida pelo diretor Cecil B. DeMille, (interpretando ele mesmo no filme).

Norma vê em Joe uma forma de concretizar seus planos e o atrai para sua grande loucura. Aos poucos, ela desenvolve uma relação amorosa e possessiva com ele. Norma tem um perfil psicológico bastante peculiar, seu estilo imperativo e do tipo que acredita cegamente na própria mentira é quase patético, se não caricato. Mas, se torna extremamente convincente e amedrontante na interpretação impecável de Gloria Swanson. Norma Desmond ainda se crê uma estrela e por isso se aprisionou no seu próprio mundo, para não enxergar o presente e o que ela é de fato: não mais a grande estrela do passado. O filme é cheio de referências a outros grandes astros do cinema mudo como Rodolfo Valentino, Douglas Fairbanks e Greta Garbo. Ao mesmo tempo em que a personagem de Swanson critica os filmes falados, parece tecer uma crítica às estrelas da época. Em todo o filme, essa insinuação à Hollywood está presente. Ainda mais, quando se fala de estrelas do cinema, estúdios e o questionável star-system norte-americano.

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No desenrolar do filme, Norma caminha cada vez mais para a loucura total, crente que sua volta triunfal está cada vez mais próxima. Joe já não a suporta mais e quer deixá-la, ele descortina sua farsa e ela surta completamente. Em seguida, quando Joe estava para deixar a mansão, ela atira nele, matando-o a beira da piscina. Na mais famosa cena do filme, a casa de Norma é invadida por repórteres e jornalistas (a própria colunista de fofocas Hedda Hopper faz uma participação especial); e ela, já totalmente ensandecida e vestida a caráter como Salomé, vendo todas aquelas câmeras de filmagem, acredita estar nas gravações do seu grande filme, terminando por embarcar na fantasia orquestrada por seu fiel mordomo. A expressão facial de Swanson neste momento é inesquecível, assim como todas as suas durante o filme.

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Se Sunset Boulevard é um filme de ficção, em muitos pontos aquela história até pode parecer verdadeira. Assim como a louca Norma Desmond do filme de Billy Wilder, vários atores que foram verdadeiros ídolos do cinema mudo, simplesmente desapareceram das telas com o advento do cinema falado, a maioria pelo mesmo motivo: não se adequaram aos novos tempos. O papel de Norma Desmond foi oferecido e recusado por várias outras atrizes, incluindo Pola Negri, Mae West e Mary Pickford. Grandes divas do cinema mudo. Sendo assim, a história de uma outrora estrela de cinema louca e decadente parece bem pertinente. De fato, é uma personagem desafiadora, ainda mais para uma atriz já consagrada, como era a própria Swanson, que também fora uma ídola do cinema mudo. Mas, que soube tirar proveito e acabou por arrebatar a todos, só engrandecendo a lenda que já era.

No mundo extraordinário que já foi Hollywood, habitado por coiotes, chefões abusivos, atores drogados, enlouquecidos e sempre à beira de um ataque de nervos; dominado por estúdios mais semelhantes à industrias. Numa época em que se construíam estrelas da noite para o dia e punha-se abaixo mais rapidamente ainda. Este era o star-system hollywoodiano que foi exportado para o mundo. Neste caso, Norma Desmond é tão real quanto possamos imaginar. Até onde um astro pode suportar a decadência, a rejeição do público e a falta de trabalho? E então a questão vai ficando cada vez maior...
Prefiro terminar com uma das falas de Norma Desmond ao diretor Cecil B. DeMille em Sunset Boulevard.
- "Alright Mr. DeMille, I'm ready for my close up"


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