vitor dirami

A beleza vai além do que podemos olhar.

Victor Dirami

Cinco clássicos do cinema brasileiro

Ao longo das décadas, o cinema brasileiro se desenvolveu oprimido pelas estéticas estrangeiras, vítima de revezes e longas baixas, contudo, soube se recuperar inúmeras vezes e crescer ainda mais. Conheça agora estas cinco obras-primas do cinema nacional.


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Central do Brasil (1998)

Sempre influenciado pelas tendências cinematográficas do exterior, ora da Europa ou dos Estados Unidos. O cinema feito no Brasil sempre buscou uma identidade própria, mas principalmente, almejar o reconhecimento internacional. O que aconteceu com poucas, mas louvadas produções nacionais. Enfrentando as dificuldades da produção nacional, o cinema brasileiro conseguiu crescer muito, expandindo fronteiras, adquirindo respeito, exportando atores, mas se mantendo distante de uma produção industrial como a de Hollywood, por exemplo. Sem deixar de ser um dos maiores produtores cinematográficos da América Latina.

Acompanhe agora estas cinco louvadas produções selecionadas, algumas pouco conhecidas, outras reconhecidas internacionalmente, mas todas ao longo dos anos adquiriram o status de clássicos, e foram devidamente reconhecidas como obras-primas do cinema nacional. Poucas delas estão disponíveis em DVD, mas para quem não se incomoda com downloads, todas são facilmente encontradas na internet. Apreciem!

1º - Central do Brasil (1998)

Talvez, um dos maiores êxitos da história do cinema nacional, o road movie do diretor Walter Salles conta a história de Dora (Fernanda Montenegro), uma mulher que trabalha na estação de trem Central do Brasil, escrevendo cartas para pessoas analfabetas. Certo dia, uma de suas clientes, Ana (Soia Lira), aparece com o filho Josué (Vinícius de Oliveira), pedindo que escrevesse uma carta para o seu marido dizendo que Josué quer visitá-lo um dia. Saindo da estação, Ana morre atropelada por um ônibus e Josué, de apenas 9 anos e sem ter para onde ir, se vê forçado a morar na estação. Com pena do garoto, Dora decide ajudá-lo e levá-lo até seu pai, que mora no sertão nordestino.

Central do Brasil é um retrato sentimental do interior do país, que ao narrar as desventuras de Dora e o menino na busca emocionante pelo pai, acaba contando a história de milhões de brasileiros que estão indo e vindo pelo país a todo momento. Imigrantes que buscam uma melhor qualidade de vida, ou outros que estão indo apenas rever seus parentes. Poucos filmes conseguiram retratar com tanta beleza e emoção o interior do país, e o realismo da vida de milhares de pessoas aparentemente comuns. É um filme que fala intensamente sobre solidariedade e generosidade, no caso, a de Dora, mas não peca em não abordar a pobreza e as dificuldades do povo nordestino, e os perigos enfrentados pelos viajantes do interior do Brasil. A fotografia, direção de arte e trilha sonora são primorosas. Ao longo do filme, é impossível não se envolver afetivamente com os personagens de Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira, tão bem construídos e interpretados.

Na época de seu lançamento, fazia anos que um filme brasileiro não alcançava tanto reconhecimento internacional. Central do Brasil foi indicado na categoria de Melhor Filme em mais de dez premiações estrangeiras, incluindo o Oscar, tendo vencido o BAFTA, o Globo de Ouro e o Urso de Ouro do Festival de Berlim de Melhor Filme Estrangeiro. A consagrada Fernanda Montenegro, celebrada como uma das melhores atrizes brasileiras, tornou-se a primeira atriz latino-americana a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz, perdendo para Gwyneth Paltrow por Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love). Ela também foi vencedora do BAFTA de Melhor Atriz e do Globo de Ouro de Melhor Atriz Estrangeira.

2º- O Pagador de Promessas (1962)

Única produção brasileira até hoje a vencer a Palma de Ouro do Festival de Cannes, O Pagador de Promessas conquistou a atenção mundial ao contar a saga de Zé do Burro (Leonardo Villar), dono de um pequeno pedaço de terra na Bahia, nordeste do Brasil. Seu melhor amigo é um burro. Quando este adoece, Zé faz uma promessa à uma mãe de santo do candomblé: se seu burro se recuperar, promete dividir sua terra igualmente entre os mais pobres e carregar uma cruz desde sua terra até a Igreja de Santa Bárbara em Salvador, capital do estado, onde a oferecerá ao padre local. Assim que seu burro se recupera, Zé dá início à sua jornada. O filme se inicia com Zé, seguido fielmente pela esposa Rosa (Glória Menezes), chegando à catedral de madrugada. O padre Olavo (dionísio Azevedo) recusa a cruz de Zé após ouvir dele a razão pela qual a carregou e as circunstâncias "pagãs" em que a promessa foi feita. Todos em Salvador tentam se aproveitar do inocente e ingênuo Zé. Os praticantes de candomblé querem usá-lo como líder contra a discriminação que sofrem da Igreja Católica, os jornais sensacionalistas transformam sua promessa de dar a terra aos pobres em grito pela reforma agrária. A polícia é chamada para prevenir a entrada de Zé na igreja, pondo fim à sua dramática via crucis.

O Pagador de Promessas é um filme essencialmente triste, dramático, emocionante, mas cheio de simbolismo e com forte crítica social. Através da ingenuidade do personagem Zé do Burro, o grande diretor Anselmo Duarte aborda o preconceito e perseguição da Igreja Católica às religiões afro-brasileiras e a manipulação da mídia sensacionalista. Tudo isso, tendo justamente a Bahia como cenário principal, um dos estados mais multi-culturais do Brasil. Em que as tradições regionalistas e a forte influência das religiões, se confluem, criando uma pluralidade cultural aparentemente pacífica.

O Pagador de Promessas foi um dos primeiros filmes brasileiros a despertar visibilidade estrangeira, tendo sido indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A fotografia impecável e as atuações intensas do elenco, especialmente a do protagonista Leonardo Villar, fizeram do filme um clássico, mas que demorou muito tempo para ter o devido reconhecimento. Um triste e verdadeiro retrato da crueldade, ignorância, pobreza e sofrimento à que é submetido o povo sertanejo. Essencialmente brasileiro.

3º - Noite Vazia (1964)

A obra-prima do talentoso diretor Walter Hugo Khouri narra a noite de Luisinho (Mário Benvenutti) e Nelson (Gabrielle Tinti), dois amigos que contratam os serviços da dupla de prostitutas Mara (Norma Bengell) e Regina (Odete Lara). O que seria uma noite de prazer acaba se transformado em um embate entre os quatro, revelando pouco a pouco suas angústia e ressentimentos e aflorando seus sentimentos mais íntimos e profundos.

Noite Vazia é nitidamente influenciado pelo neo-realismo italiano, Walter Hugo Khouri foi buscar nas obras de Federico Fellini e Ingmar Bergman, a inspiração para criar essa ode à modernidade. Ao contrário da maioria das produções brasileiras dos anos 60, o filme passa longe da crítica social, concentrando-se - com muito sucesso - nas emoções humanas, na vida urbana das metrópoles e no existencialismo. A fotografia deslumbrante consegue recriar na cidade de São Paulo, a atmosfera noturna, sombria e gélida, que lembra a industrializada Nova York.

O filme aborda um leque de emoções e sentimentos, principalmente a solidão, a futilidade e a angústia perpetrada nos personagens masculinos, que saem na noite paulistana em busca de qualquer divertimento rápido que possa preencher o imenso vazio interior dos dois. Ao encontrar as belíssimas prostitutas Mara e Regina, o que pareceria ser uma noite de prazer, se transforma em uma sucessão de desilusões, num jogo em que os personagens explanam seus maiores remorsos, tristezas, frustrações e verdades, admitindo o fracasso de suas vidas.

Tudo em Noite Vazia é extremamente bonito, refinado e elegante. A direção de Walter Hugo Khouri é muito competente, a trilha sonora do Zimbo Trio é ótima e a direção de arte simplesmente magnífica. Nem o ritmo um tanto quanto arrastado demais consegue atrapalhar a contemplação desta obra belíssima. O grande destaque é mesmo para as interpretações esmeradas do quarteto de atores, principalmente a dupla feminina Odete Lara e Norma Bengell. Deslumbrantes e no auge da beleza, elas dão vida à prostitutas sem nenhum arrependimento ou culpa pela profissão que exercem, mas enquanto a fria e realista Regina só pensa em ganhar dinheiro, a doce Mara é romântica, numa clara referência do diretor à cortesã Cabiria, do clássico de Fellini Noites de Cabíria (Le Notti di Cabiria, 1958).

Abordando a vida solitária e vazia nas grandes cidades, Walther Hugo Khouri conseguiu prever como seria no futuro, a vida nas grandes metrópoles, e qual o estilo de vida o Brasil, que naquela já imitava os países desenvolvidos, adotaria no futuro. Noite Vazia foi nomeado à Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1965.

4º - Os Cafajestes (1962)

Um dos primeiros filmes nacionais a chamar atenção no exterior para o novo cinema que estava sendo feito no Brasil da época, este longa-metragem de Ruy Guerra narra as tramoias de Vavá (Daniel Filho) um jovem rico, muito mimado, que ao ver seu pai indo à falência, organiza um plano para reverter a situação. Ele consegue um cúmplice, Jandir (Jece Valadão) para armar um flagrante do tio rico com sua amante Leda (Norma Bengell). O objetivo era tirar fotos e tentar ganhar dinheiro através de uma chantagem.

Um dos maiores sucessos do cinema nacional da década de 60, o filme é famoso por mostrar o primeiro nu frontal do cinema brasileiro - de Norma Bengell, e por ter sido o único blockbuster do Cinema Novo. Esta obra goddardiana inspirada na Nouvelle Vague francesa causou polêmica e frenesi na época de seu lançamento. Os Cafajestes foi censurado e tirado arbitrariamente depois de apenas dez dias de exibição, porém o furor foi tão grande que o filme "se pagou" em apenas quatro dias, tendo tido um público estimado em dois milhões de pagantes.

Ousado para a época, Os Cafajestes é cheio de transgressões morais e de valores, um filme que hoje é aclamado como um verdadeiro clássico do cinema nacional, mas que na época, chocou o público pela audácia de uma história centrada nas peripécias de dois mau-caráteres. O público não estava preparado para a ousadia do filme.
Apesar da precariedade de recursos, o longa conta com belos planos e enquadramentos, a trilha-sonora de Luiz Bonfá - invejável, a direção eficiente do moçambicano Ruy Guerra e interpretações brilhantes do trio de protagonistas.
A atriz Norma Bengell foi catapultada ao estrelato pelo filme, tornando-se uma das grandes musas do cinema nacional e feito carreira no exterior. Os Cafajestes chamou a atenção até do diretor do Festival de Berlim, Alfred Bauer, que ficou impressionado com a excelente fotografia de Tony Rabatoni. Indicado ao Urso de Ouro do Festival de Berlim de 1962.

5º - Limite (1931)

Um filme quase mitológico. Considerado por alguns como a obra-prima do cinema brasileiro, Limite é uma experiência de 120 minutos de filme silencioso. O filme começa mostrando três naufrágos - um homem (Edgar Brasil) e duas mulheres (Iolanda Bernardes e Olga Bueno), à deriva em um pequeno barco no meio do oceano, eles desistiram de remar e não sabemos quem são ou seus nomes. Por meio de flashblacks ao longo da trama, descobrimos quem eles são, o que os fez ir parar ali, e o triste fim que os aguarda. Dirigido por Mário Peixoto e filmado em 1930, Limite foi apresentado pela primeira vez em 17 de maio de 1931, no Cinema Capitólio, localizado na Cinelândia, na cidade do Rio de Janeiro. As filmagens foram feitas no município de Mangaratiba, estado do Rio de Janeiro, na Fazenda Santa Justina, pertencente a Victor de Souza Breves, primo de Mário Peixoto. O filme suscitou muita polêmica nas suas primeiras exibições e inclusive houve quebra quebra durante a sua estreia. Acabou se tornando um mito, já que por muitos anos não foi exibido novamente. Recuperado nos anos 70, o filme tornou-se reconhecido internacionalmente e aclamado no exterior.

A ideia de assistir a um filme mudo pode assustar alguns, mas é verdade que a contemplação de Limite é um grande exercício artístico, dada a tamanha complexidade do filme. Limite lembra muito o expressionismo alemão, mas sua idealização e narrativa é totalmente inovadora, arrojada, incompreensível e muito caótica. O ritmo lento, e a narrativa não-linear são muito cansativos, mas como já disse, assisti-lo é um exercício simplesmente artístico. A carga altamente dramática e pesada do filme o faz muito difícil de ser entendido, posto que a proposta de Limite está diretamente ligada às ideias quixotescas de Mário Peixoto, um homem que só fez um filme - o próprio Limite, deixou outro incompleto e nunca mais conseguiu filmar nada em sua vida.

Limite, em sua ótica abstrata e extremamente experimental, é um filme que tenta extirpar as emoções e sentimentos humanos. Para isso, ele está a todo momento da exibição testando os próprios limites do espectador, levando-o ao desespero e ao mal-estar, na busca de decifrar os enigmas de um filme absolutamente poético e lírico. A história é deixada de lado perante a verdadeira catarse que o filme proporciona a quem o assiste. Não existe interpretação. Resta apenas o transe provocado pela narração elíptica, o desenrolar desconexo das imagens - sempre recorrendo à natureza e a experiência sensorial de uma trilha sonora emotiva, toda recheada de obras instrumentais clássicas.

Provavelmente, o maior destaque de Limite seja a fotografia inspiradora de Edgar Brasil, os planos e enquadramentos belíssimos, cheios de poesia e emoção e os movimentos de câmera excepcionais, totalmente diferentes para a época. Limite é esteticamente irretocável, e isso só acentua a sua maior característica: arte.
O clássico cult ficou anos escondido do grande público, o que o tornou praticamente uma lenda, mas não o impediu de ganhar fama e reputação no exterior. Em maio de 2007, uma nova versão restaurada foi apresentada no Festival de Cannes, como um dos filmes selecionados pela World Cinema Foundation para preservação.


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