vitor dirami

A beleza vai além do que podemos olhar.

Victor Dirami

L'enfer d'Henri-Georges Clouzot

Conheça a história da obra-prima inacabada de Henri-Georges Clouzot, o filme mais lindo do mundo que nunca foi feito, e todo o inferno das gravações contado no documentário L'enfer d'Henri-Georges Clouzot. Voilà!


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Romy Schneider em L'enfer (1964) filmagem de arquivo.

Henri-Georges Clouzot é considerado um dos maiores cineastas do cinema francês e um dos grandes de todos os tempos. Era tido como "o Hitchcock francês", e o único que podia fazer frente ao mestre inglês do suspense. Hitchcock o considerava um sério rival, dizem até que um dos motivos que o levou a filmar o clássico Psicose (Psycho, 1960); era superar o outro clássico do seu rival: As Diabólicas (Les Diaboliques, 1955); um dos maiores êxitos da filmografia de Clouzot. Além de As Diabólicas, outros dois dos seus maiores sucessos foram O Corvo (Le Corbeau, 1943) e A Verdade (La Verité, 1960).

Clouzot era dos mestres do cinema francês, consagrado e respeitado em todo mundo. Contudo, os tempos estavam mudando freneticamente na França e no mundo inteiro. Desde o fim dos anos 50, o cinema foi invadido pela febre da Nouvelle Vague, e com ela vinham os jovens cineastas revolucionários que estavam mudando o cinema da França - Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Eric Hommer, a maioria críticos que trabalhavam na revista Cahiers du Cinéma, nome pelo qual o grupo também foi apelidado. Aquela turma e o cinema que eles faziam era o oposto de Clouzot e da sua obra. E claro, uma das suas atividades preferidas era criticá-lo e ao cinema que ele fazia. Como sempre, o clássico tema de Édipo - o do filho que quer matar seu próprio pai.

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Romy Schneider em L'enfer (1964) filmagem de arquivo.

Em 1964, Clouzot estava trabalhando em um novo roteiro. Seu último filme havia sido A Verdade, uma unanimidade de crítica e público. Foi o filme que elevou a sex-symbol francesa Brigitte Bardot a um outro nível entre as atrizes da época. Agora, ele trabalhava naquela que seria sua obra-prima: L'enfer (também chamado de Inferno), um filme que seria revolucionário, ousado, grandioso e definitivo.

A trama de L'enfer é essencialmente simples, mas torna-se caótica sob a ótica de Clouzot. Trata-se da história de Marcel (Serge Reggiani) e Odette (Romy Schneider), um casal recém casado, proprietários de um hotel à beira de uma represa. À princípio, tudo é aparentemente normal, o casal é feliz e se ama, porém, com o tempo as coisas começam a se deteriorar. Marcel sente-se incomodado com a beleza de Odette, que chama a atenção de todos. Ele é tomado pelo ciúme, e passa a achar que ela o trai com Martineau (Jean-Claude Breacq), Julien (Mario David) e Marylou (Dany Carrel). Dois homens e uma mulher que estão sempre no hotel rodeando Odette. O ciúme doentio de Marcel torna-se uma obsessão que o leva à loucura. É esse mesmo ciúme e a loucura que Clouzot queria explorar, da forma mais intensa e realista o possível. E talvez, tenha sido exatamente isso que levou a produção à ruína.

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Romy Schneider em L'enfer (1964) filmagem de arquivo.

Era exatamente a ótica visionária de Clouzot que fazia de L'enfer um filme tão especial, essa era sua grande pretensão. O diretor queria mostrar visualmente como o ciúme, a loucura e a obsessão iam tomando conta de Marcel. Clouzot idealizara uma estética, para isso, usou das artes visuais contemporâneas que eram feitas na época, da Op Art e da Pop Art. Filmava bocas, línguas, olhos, cabelos, cigarros e fumaça e a água como num jogo de espelhos. Distorcia imagens, misturava cores e sombras, utilizava o brilho e a maquiagem como veículo de comunicação visual. Criou caleidoscópios de imagens coloridas e em preto-e-branco, num trabalho praticamente Bizantino, fascinante. O nome L'enfer fazia alusão à obra Inferno de Dante Alighieri e os nomes dos personagens principais (Marcel e Odette) eram uma referência aos personagens do romance de Marcel Proust Em Busca do Tempo Perdido (À la Recherche du Temps Perdue).

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Romy Schneider em L'enfer (1964) filmagem de arquivo.

A Columbia Pictures ficou encantada com o projeto e deu à Clouzot carta branca, era uma produção caríssima e ele trabalhou com orçamento ilimitado, a companhia disponibilizou milhões de dólares ao produtor do filme, que também era o próprio Clouzot. Com muito dinheiro e ambição, ele podia tornar realidade suas ideias megalomaníacas, de certa forma, Clouzot enlouqueceu, acabou engolido pelo próprio ego e se perdeu em meio ao seu sonho. Suas pretensões eram grandes demais. Contratou artistas plásticos de vanguarda da época para criar uma estética própria que ele imaginara, extremamente experimental. Clouzot trabalhava com três equipes inteiras de filmagem, cada uma com seus próprios diretores de fotografia, câmeras, assistentes, iluminadores, entre outros profissionais, somando mais de 150 pessoas. Todos altamente renomados e qualificados. Não é preciso dizer que tudo isso era caro demais.

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Romy Schneider em L'enfer (1964) filmagem de arquivo.

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Romy Schneider em L'enfer (1964) filmagem de arquivo.

Depois de meses de experimentação nos estúdios em Paris, as filmagens com os atores começaram, no Hotel Garabit, à beira de uma represa e perto de duas gigantescas pontes, que serviriam de cenário para o filme. Na região de Auvergne, no centro da França.

Clouzot não era um homem normal, pelo contrário, era muito esquisito. Perfeccionista ao extremo, metódico, detalhista, cheio de manias, era quase louco. Escrevia e reescrevia os roteiros várias vezes, desenhava cada tomada de cena, gostava de rodar as cenas várias vezes seguidas até alcançar aquilo que ele queria, acabava exaurindo os atores e técnicos, que não era incomum, acabavam por odiá-lo. Filmar com Clouzot era o próprio inferno.

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Romy Schneider em L'enfer (1964) filmagem de arquivo.

Nas filmagens de L'enfer nada disso foi diferente, apenas adicionado a inúmeros outros problemas aparentemente ocasionais, mas que reunidos, parecem até obra de outro mundo. Clouzot literalmente perturbava a equipe. O diretor sofria de insônia, não conseguia dormir a noite e também não queria que ninguém dormisse, acabava acordando os outros no meio da madrugada para discutir uma nova ideia qualquer que tinha tido. Em uma cena, o marido obsessivo, personagem do protagonista Serge Reggiani, fica louco de ciúme da esposa e quer pegá-la em flagrante. Para isso, Reggiani tinha que atravessar correndo uma ponte rodoviária imensa para chegar ao outro lado da represa e pegar Odette em flagrante. Acontece que Clouzot filmava uma mesma tomada até vinte vezes seguidas, sendo assim, o pobre Reggiani deve ter corrido uma maratona completa. A frágil Romy Schneider era vista berrando aos quatro ventos que não suportava mais e que achava Clouzot um louco. A tensão era tanta que Reggiani não aguentou mais, um belo dia pegou suas malas e foi embora. Chegaram a chamar Jean-Louis Trintignant para substituí-lo, o que acabou não acontecendo.

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Romy Schneider em L'enfer (1964) filmagem de arquivo.

Somado a tudo isso, as filmagens começaram a se arrastar demais, sem poder. Por algum motivo, a empresa Electricité de France, dona da barragem que criara a represa, iria esvaziá-la numa data determinada. Portanto, as filmagens tinham um prazo final. Contudo, quanto mais se chegava perto desse prazo final, Clouzot ficava mais exigente, queria repetir mais as cenas e atrasava mais as filmagens. Entretanto, muitas vezes ele não sabia o que queria fazer e punha a equipe inteira à espera das suas decisões. Para piorar, todos sofreram os efeitos do calor recorde na região durante o mês de junho. O golpe fatal veio quando Clouzot sofreu um ataque cardíaco e teve que ser hospitalizado às pressas em Saint-Flour, paralisando toda a produção. Três semanas depois, o filme foi abandonado.

O enfarte não foi fatal para Clouzot, ele ainda faria seu derradeiro filme A Prisioneira (La Prissonière, 1968). Mas, o enfarte foi fatal para L'enfer. Clouzot viria a falecer em 1977, aos 69 anos de idade.

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Romy Schneider em L'enfer (1964) filmagem de arquivo.

Sem qualquer sombra de dúvida, se L'enfer tivesse sido completado, seria um dos filmes mais lindos e impactantes da história do cinema, que como Clouzot pretendia, deixaria Godard e sua trupe de queixo caído. As imagens sobreviventes do filme não deixam dúvida da beleza e qualidade do material que estava sendo produzido. Um filme que contava com os recursos visuais e tecnológicos mais avançados da época, um elenco digníssimo, cenários deslumbrantes e a direção magistral de Clouzot. Romy Schneider, então no auge dos seus 26 anos, já mostrava o imenso talento que tinha e que faria dela uma das maiores atrizes do cinema francês, em L'enfer sua beleza é tão esplêndida que até emociona.

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Romy Schneider em L'enfer (1964) filmagem de arquivo.

Em 2009, os cineastas Serge Bromberg e Ruxandra Medrea estrearam um documentário de 94 minutos com material selecionado de 15 horas de película - de 185 rolos de filmes escondidos em velhas latas, de cenas encontradas sob o nome L'enfer d'Henri-Georges Clouzot, que também incluíam aproximadamente 30 horas de trilha sonora. Bromberg havia ficado preso por duas horas em um elevador com a segunda esposa e viúva de Clouzot, Inèz Clouzot. Depois de descobrir a identidade da mulher e da existência dos arquivo de filmagem, Bromberg a convenceu a usar o material para fazer o filme dele. O documentário inclui entrevistas com nove atores do elenco e profissionais das equipes de filmagem, incluindo Catherine Allégret, filha de Simone Signoret (protagonista de As Diabólicas), e assistente de produção de Costa Gravas, na época o primeiro-assistente de Clouzot em L'enfer. Bromberg convidou os atores Bérénice Bejo e Jacques Gamblin para gravar algumas cenas narrando os diálogos escritos por Clouzot para o filme. Um documentário fascinante que teve por missão principal trazer à tona o filme mais lindo que o mundo nunca viu. Ganhador do César de Melhor Filme Documentário.

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L'enfer d'Henri-Georges Clouzot (2009)


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