vitor dirami

A beleza vai além do que podemos olhar.

Victor Dirami

Para sempre Romy Schneider

Ela foi considerada uma das mulheres mais belas do mundo, e teve uma vida repleta de sucessos e desilusões. Apesar de todas as intempéries, tornou-se uma das principais atrizes do cinema europeu. Conheça agora a inesquecível trajetória de Romy Schneider.


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Romy fotografada por Jean-Pierre Bonnotte, 1968.

A bela Romy Schneider, nasceu Rosemarie Magdalena Albach, no dia 23 de setembro de 1938, em Viena, pouco tempo depois da anexação da Áustria pela Alemanha nazista; nasceu em uma família de atores, que incluía sua avó paterna, seu pai e sua mãe. A carreira de Romy no cinema começou nos anos 50, especificamente em 1953, com uma aparição no filme alemão Quando Voltam a Florescer os Lilases (Wenn Der Weiße Flieder Wieder Blüht). Mas, o sucesso só viria mesmo com a produção da trilogia de filmes sobre a Imperatriz Elisabeth 'Sissi' da Áustria, interpretada por ela nos filmes Sissi (1955), Sissi, a Imperatriz (1956) e Sissi e Seu Destino (1957), do realizador austríaco Ernst Marischka.

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Romy fotografada por Sam Lévin, 1959/1960.

A personagem Sissi lhe trouxe fama mundial e um lugar cativo no coração de fãs de todo o mundo, mas também criou um grande inconveniente. Romy não conseguiu por muito tempo no cinema se libertar do estereótipo de menina doce e angelical. Depois do sucesso arrebatador da trilogia Sissi, ela encontrou dificuldades em interpretar papéis adultos. Sua atuação no longa-metragem alemão Senhoritas de Uniforme (Mädchen in Uniform, 1958), foi considerada um escândalo, por Romy interpretar o papel de uma garota que se envolvia em um romance lésbico dentro de um internato. Em 1958, Romy conheceu um de seus grandes amores - o ator francês Alain Delon durante as gravações do filme Cristina (Christine), seu primeira filme na França. Os dois faziam um par romântico que acabou se estendendo para a vida real. Entre indas e vindas, o romance durou cinco anos, até 1963, quando ele se casou com Nathalie Delon. O casamento de Schneider e Delon foi anunciado vários vezes, mas nunca se concretizou.

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Romy no Festival de Cannes de 1959.

Romy se mudou definitivamente para a França, onde viveria e trabalharia por grande parte de sua vida. O diretor italiano Luchino Visconti seria responsável por dar novo viço à carreira dela, quando a escolheu para estrelar o seu episódio O Trabalho, na produção Boccaccio '70 (1962) - um filme em quatro episódios, dirigidos por Mario Monicelli, Federico Fellini, Luchino Visconti e Vittorio de Sica, baseados em quatro contos do clássico Decameron, escrito pelo italiano Giovanni Boccaccio no século XII. Visconti deu à Romy um papel sexy e a oportunidade de mostrar ao público que não era mais aquela Sissi ingênua de outrora, e que tinha se tornado uma atriz competente, sensual e adulta. No filme, o figurino de Schneider foi assinado por Coco Chanel, fã confessa da atriz. Sob a direção de Visconti, ela ainda atuaria no teatro. Romy Schneider era agora uma das mais promissoras atrizes do cinema europeu. Em 1962, ela também atuaria no suspense O Processo (Le Procés), dirigido por Orson Welles, baseado no romance homônimo de Franz Kafka, co-estrelado por Jeanne Moreau e Anthony Perkins; sua excelente performance lhe rendeu uma inédita nomeação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama. "Eu tenho trabalhado com os maiores tiranos: (Otto) Preminger, (Orson) Welles, (Luchino) Visconti. Déspotas - eles têm desprezo pela maioria dos atores. Quando eles encontram alguém que os enfrenta, está tudo ótimo." Schneider ainda protagonizaria a grandiosa produção inacabada L'enfer do diretor Henri Georges-Clouzot, em 1964. Para saber mais sobre a mítica obra L'enfer, leia o artigo, já publicado aqui no blog.

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Romy com o filho David, fotografados por Jean-Pierre Bonnotte, 1968.

Separada de Alain Delon, Romy se casou com o ator e diretor alemão Harry Meyen em 1966, o casamento duraria até 1975, e juntos os dois teriam um único filho - David Christopher, nascido em 1966. Depois de várias participações em filmes alemães pequenos ou sem importância, Romy deu novo gás à carreira, voltando à França para atuar no grande sucesso A Piscina (La Piscine, 1969), em que reencontrava o seu antigo namorado, Alain Delon. No filme, Romy, Delon e o ator Maurice Ronet vivem um perigoso triângulo amoroso. Com a carreira revitalizada, Romy seguiu durante os anos 70 sendo uma das principais e mais importantes atrizes do cinema francês. Em parceria com o diretor Claude Sautet, ela atuou em cinco filmes, o primeiro deles - As Coisas da Vida (Les Choses de la Vie) de 1970, com Michel Piccoli no elenco, foi um grande sucesso. Os filmes sequentes, Sublime Renúncia (Max et les Ferrailleurs, 1971) e César e Rosalie (César et Rosalie, 1972) de Sautet, também foram bons êxitos.

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Romy veste Chanel em Boccaccio '70 (1962)

Em 1972, Schneider interpretou novamente a Imperatriz Sissi da Áustria, quase 20 antes depois, no filme Ludwig de Luchino Visconti, sobre a vida do Imperador Ludwig II da Áustria. Agora, com outra abordagem, Schneider viveu uma Sissi muito mais complexa, dramática e sombria - segunda ela, "Sissi gruda em mim como aveia." No auge de sua carreira, aprimorando constantemente a arte dramática, Romy soube escolher os melhores papéis em grandes produções, imprimindo em personagens inesquecíveis o melhor do seu talento. Outros trabalhos memoráveis desta época foram O Trem (Le Train, 1975) com Jean-Louis Trintignant, o suspense Os Inocentes de Mãos Sujas (Les Innocents Aux Mains Sales, 1975) e o drama O Velho Fúsil (Le Vieux Fusil, 1975), dirigido por Robert Enrico e ganhador do Prêmio César de Melhor Filme (equivalente francês do Oscar norte-americano); o filme foi baseado no bárbaro Massacre de Orador-Sur-Glane, ocorrido na França em 1944.

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Romy fotografada por Giancarlo Botti, Paris, 1974.

Ainda em 1975, Romy Schneider interpretou a personagem que ela considerou ser a melhor de sua carreira, no drama O Importante é Amar (L'important C'est D'aimer) de Andrzej Zulawski. Dando vida à Nadine Chevalier, uma atriz que ganha a vida atuando em filmes baratos, softcore, e que então encontra Servais Mont (Fabio Testi), um fotógrafo que se apaixona por ela, e por isso, pega dinheiro emprestado de um agiota para bancar a produção teatral da peça Ricardo III e lhe dar um papel digno. Ela se apaixona por Servais, mas é presa ao marido Jacques Chevalier (Jacques Dutronc) por obrigações morais. Juntos, os dois vivem um romance em meio ao submundo do show business parisiense. Por esta interpretação, Schneider foi laureada com o primeiro César de Melhor Atriz, fato que ela repetiria cinco anos depois, por sua atuação no premiado Uma História Simples (Une Histoire Simple, 1978) - filme indicado ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, e a última parceria entre Romy e o diretor Claude Sautet.

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Romy fotografada por Giancarlo Botti, Paris, 1975.

Em 1975, Schneider se casou pela segunda vez, com seu secretário pessoal Daniel Biasini, juntos tiveram uma filha - Sarah Biasini, nascida em 1977 (também atriz), e separaram-se quatro anos depois. Então, a saúde de Romy passou a se deteriorar cada vez mais, gradativamente. Ao longo dos anos 70 ela havia estabelecido uma dependência de álcool e barbitúricos, somado a isso, a atriz ainda fumava cerca de três maços de cigarro Marlboro por dia. Em 23 de maio de 1982, foi submetida a uma cirurgia para a retirada de um rim, por causa de um tumor. As filmagens do filme O Bar da Última Esperança (La Passante du Sans-Souci) tiveram que ser paralisadas diversas vezes. Em 5 de julho do ano anterior, seu filho David morreu com apenas quatorze anos de idade. O menino tentava escalar o muro da casa dos pais de seu ex-padrasto, o portão estava fechado e ele não queria incomodar os avós. Tragicamente, perdeu o equilíbrio e caiu sobre as flechas de metal, que perfuraram sua artéria femoral. Ele morreu na mesma noite, no hospital.

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Romy com o filho David, fotografados por Giancarlo Botti, Paris, 1975.

Romy ficou destruída. Para piorar a situação, num ato de total desrespeito, paparazzis se fingiram de enfermeiros para penetrar no serviço funerário e fotografar a criança morta. Romy não conseguiu se recuperar da morte do filho. Nos últimos meses de vida, se entregou totalmente à bebida e aos medicamentos, afundando-se em uma profunda depressão. Os amigos ainda incentivara-na a terminar O Bar da Última Esperança, lançado em 14 de abril de 1982. Um mês depois, na manhã de 29 de maio, seu namorado Laurent Pétin encontrou-a morta, em sua casa, localizada na Rue Barbet de Jouy, 7º Arrondissement, Paris. A imprensa logo especulou que ela teria se suicidado, mas a autópsia declarou que ela sofreu uma parada cardíaca. Romy Schneider foi enterrada no dia 2 de junho, em Boissy-Sans-Avoir e o corpo de seu filho morto no ano anterior foi transferido para a mesma sepultura da mãe. Seu grande amor, Alain Delon, colocou a seguinte frase em uma carta: [...] "Você nunca esteve tão bonita. Você vê, eu aprendi algumas palavras em alemão para você: 'Ich liebe dich, meine liebe.'" ("Eu te amo, meu amor").

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Romy e Alain Delon.

Como forma de homenageá-la, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar dedicou-lhe o seu filme Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre Mi Madre, 1999), e também à outras atrizes.

E é assim que Romy Schneider será lembrada para a eternidade: bela, talentosa, apaixonada. Assim como a sua arte, esplendorosamente trágica.

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Romy fotografada por Giancarlo Botti, Paris, 1975.


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