vitor dirami

A beleza vai além do que podemos olhar.

Victor Dirami

Norma Bengell: uma vida dedicada ao cinema

A recente morte de Norma Bengell marcou o fim de uma época no cinema brasileiro; Norma dedicou sua vida ao cinema e conseguiu a proeza de num país majoritariamente 'televisivo' ser uma das poucas atrizes que se dedicou exclusivamente ao cinema e mesmo assim manteve seu sucesso e popularidade. Relembra agora a carreira da atriz. Saudades.


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Norma Bengell, 1964.

Filha única de pai belga e mãe francesa, nascida em 21 de setembro de 1935, a carioca Norma Aparecida Almeida Pinto Guimarães d'Áurea Bengell começou sua carreira muito jovem, no início dos anos 50; lançada no meio artístico por Carlos Machado - famoso produtor de musicais da época - ela foi vedete da boate Night and Day, no Rio de Janeiro. Ao final da década já era bastante famosa no meio artístico carioca.

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Norma Bengell em Mulheres e Milhões (1961)

Como cantora, Norma gravou seu primeiro disco em 1959, o long-play Ooooooh! Norma. Produzido pelo veterano Aloysio de Oliveira, que soube dosar a sensualidade dela e atingir uma sonoridade que lembra a norte-americana Julie London, sexy, rouca e quente. No repertório, sucessos nacionais e estrangeiros como "Eu Sei Que Vou Te Amar", "C'est Si Bon", "You Better Go Now" e "Drume Negrita"; com destaque para a faixa "Fever", sucesso de Elvis Presley. Ao longo dos anos Norma continuou gravando canções esporadicamente e fazendo participações em discos e trilhas-sonoras, seu segundo e último álbum - Norma Canta Mulheres - foi lançado em 1977.

1959 também marcou sua estreia no cinema, foi no mega sucesso da Atlântida O Homem do Sputnik, uma chanchada em que ela atuou ao lado de Oscarito, dirigida por Carlos Manga, o público do filme foi estimado em 8 milhões e meio de pagantes. Norma fazia uma sátira à sex-symbol francesa Brigitte Bardot - seu personagem chamava-se justamente B.B.

Conhecida nacionalmente, Bengell se tornaria uma das principais atrizes do Brasil nas décadas seguintes, participando de produções importantes do cinema nacional e tendo feito carreira no exterior. Filmado em 1961, o filme Os Cafajestes de Ruy Guerra escandalizou o Brasil quando estreou em março do ano seguinte; sua estrela Norma Bengell foi a primeira atriz a aparecer numa cena de nudez frontal no cinema brasileiro. Instantaneamente Norma se tornou alvo de críticas ferozes da Igreja Católica e chegou a ser expulsa de Belo Horizonte pela TFP (Tradição Família e Propriedade). Mas a exibição do filme no Festival de Berlim - que rendeu uma nomeação ao Urso de Ouro de Melhor Filme - lançou os olhos do cinema europeu sobre sua estrela principal.

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Norma Bengell e Jece Valadão em Os Cafajestes (1962)

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Norma Bengell recebendo o Prêmio Saci de Melhor Atriz por sua atuação em Os Cafajestes, 1962.

Entretanto, foi sua participação em O Pagador de Promessas (1962) que catapultou Norma ao estrelato no exterior. No filme de Anselmo Duarte Norma fazia uma pequena participação, no papel da prostituta Marly, mas num filme ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, era o suficiente para se fazer notar. Foi em Cannes, em maio daquele ano, que Norma conheceu o produtor italiano Dino de Laurentiis, que a levou para filmar na Itália. O primeiro filme de Bengell na Europa foi Mafioso(Il Mafioso, 1962) de Alberto Lattuada, no qual ela interpretou a esposa do protagonista Alberto Sordi.

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Norma Bengell em O Pagador de Promessas (1962)

Na Itália, Norma trabalhou com grandes atores e diretores, ficou amiga de Federico Fellini, Luchino Visconti, entre outros intelectuais europeus, teve um affair com o astro francês Alain Delon, e conheceu o seu único marido, o ator italiano Gabriele Tinti. No cinema italiano, Bengell atuou ao lado de Catherine Deneuve e Sami Frey em La Constanza Della Ragione (1964) e com Renato Salvatori em Una Bella Grinta (1965) do diretor Giuliano Montaldo. Porém, a atriz é mais lembrada pelos sucessos O Planeta dos Vampiros (Terrore Nello Spazio, 1965) - Ficção científica do diretor Mario Bava, e Os Cruéis (I Crudeli, 1967) - um Spaghetti western de Sergio Corbucci. Norma chegou até a atuar em Hollywood, num breve período, mas confessou não ter se acostumado ao modo de filmar norte-americano.

Em 1964, aos 30 anos de idade e no auge da beleza, Norma voltou ao Brasil para filmar a obra-prima do diretor Walter Hugo Khouri - Noite Vazia, um dos melhores filmes da carreira da atriz, nomeado à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Foi nos estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz que Norma se casou com Gabriele Tinti, seu parceiro no filme, a união durou até 1969.

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Norma Bengell e Odete Lara em Noite Vazia (1964)

Em 1966, Bengell estrelou o segmento A grã-fina de Copacabana, do filme de três episódios As Cariocas, baseado na obra homônima de Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). Ainda nos anos 60, Norma participou do clássico de Júlio Bressane O Anjo Nasceu, um dos filmes essenciais do chamado cinema marginal, em 1970 a atriz voltou a trabalhar com os cineastas Ruy Guerra no aclamado Os Deuses e os Mortos, filme indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, e com Walter Hugo Khouri em O Palácio dos Anjos, a segunda parceria da dupla indicada à Palma de Ouro em Cannes.

Feminista engajada, artista com convicções políticas, transgressora, mulher à frente do seu tempo. Bastou isso para Norma Bengell ter sido detida, perseguida e interrogada várias vezes durante o Regime Militar. Em 1971 optou pelo exílio na França, onde continuou atuando no cinema e também na televisão e no teatro. Lá trabalhou com o diretor Patrice Chéreau - um dos grandes intelectuais do teatro na França - em duas ocasiões: na peça La Dispute, de Marivaux, em 1973, e Les Paraventes, de Jean Genet, em 1983, que marcou sua despedida dos palcos franceses. Chéreau faleceu apenas dois dias antes de Norma Bengell, vitimado pela mesma doença que a matou, câncer de pulmão - os dois eram amigos de longa data.

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Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell durante a Passeata dos 100 mil, 1968.

Ao longo da carreira Bengell encenou pouco no teatro, a estreia foi em 1968, com a peça Cordélia Brasil, de Antônio Bivar, dirigida por Emilio di Biasi, foi um dos maiores sucessos da carreira da atriz.

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Norma Bengell em Paixão na Praia (1971)

Com o passar dos anos, Norma optou cada vez mais por personagens altamente dramáticas, o que a elevou a um patamar distinto entre as atrizes da época, como se vê no seu trabalho desenvolvido durante os anos 70. Em 1971, ela fez uma de suas melhores participações no cinema, no premiado filme A Casa Assassinada, de Paulo Cesar Saraceni. Por sua brilhante interpretação neste filme recebeu o Troféu de Melhor Atriz da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), prêmio que ela ainda receberia outras duas vezes por Mar de Rosas (1978) e Eros, o Deus do Amor (1981).

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Norma Bengell e Otávio Augusto em Mar de Rosas (1978)

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Norma Bengell em Paranóia (1976)

Norma Bengell era uma atriz especificamente do cinema, teve poucas participações na televisão, e fez sua primeira telenovela somente nos anos 80; a estreia foi em Os Adolescentes (1981) de Ivani Ribeiro, logo em seguida ela participou do grande sucesso de Benedito Ruy Barbosa Os Imigrantes (1981), ambas na Rede Bandeirantes. Em 1983 foi para a TV Globo fazer a minissérie Parabéns pra Você de Bráulio Pedroso, um fracasso de audiência. Na Globo atuou em mais outros dois folhetins - Partido Alto (1984) e O Sexo dos Anjos (1989).

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Norma Bengell em Na Boca do Mundo (1978)

Contudo Norma resolveu sair da sua zona de conforto de diva do cinema nacional no fim da década de 80, e se arriscar no campo da direção. A atriz se tornou cineasta ao filmar a cinebiografia da escritora e jornalista feminista Pagú em Eternamente Pagú (1987). Sua carreira de diretora de cinema provou-se conturbada desde o início. Ela atribuiu as dificuldades para conseguir verbas ao "machismo e misoginia" dos "burocratas da Embrafilme", e teve de recorrer ao então presidente José Sarney para conseguir financiamento. Também brigou com uma das roteiristas do filme e com críticos que deram avaliações negativas.

10 anos depois, arriscou-se novamente, agora pela obra imortal de José de Alencar O Guarani. O filme foi um fracasso de público e crítica, que lhe rendeu um massacre pela imprensa, além de uma série de acusações de prestações de contas irregulares e mau uso de verbas públicas; um imbróglio jurídico que a afetou profundamente nos seus 15 últimos anos de vida, principalmente financeiramente.

Seu último trabalho na televisão foi como Deise Coturno na série humorística de grande sucesso da Tv Globo Toma Lá, Dá Cá (2008/2009). No teatro, seu derradeiro papel foi na montagem de Dias Felizes, de Samuel Beckett, dirigida por Emilio di Biasi em 2010.

Nos últimos anos, a atriz se queixava da solidão e do abandono dos amigos, passava por sérias dificuldades financeiras e estava bastante doente. Norma Bengell faleceu na madrugada do dia 9 de outubro de 2013, aos 78 de idade, no Rio de Janeiro.

Atriz, cineasta, cantora. Norma não teve filhos porque segundo ela não teve tempo, filmava demais, se dedicava demais ao cinema. Passou a vida inteira se dedicando ao cinema. De sex-symbol à atriz séria, dramática, reconhecida internacionalmente. Construiu uma carreira belíssima, invejável, que poucas conterrâneas também alcançaram. Considerava-se "uma operária, uma trabalhadora do cinema". Seu nome estará para sempre unido aos acontecimentos da cultura brasileira na segunda metade do último século. Definitivamente, que Norma Bengell jamais seja esquecida e não há de ser. "Foi o cinema que me fez conhecer o mundo inteiro, foi o cinema que me deu de comer, que me fez ser amada e odiada. Então, esse cinema é a minha vida".

Fotos: Banco de Conteúdos Culturais da Cinemateca Brasileira e G1.


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