vitor dirami

A beleza vai além do que podemos olhar.

Victor Dirami

Dolores Duran recuperada

O CD Entre Amigos, lançado em 2009, traz 13 gravações inéditas de Dolores Duran, da década de 50, revelando a fascinante intérprete que havia por detrás da maior compositora da música brasileira.


Entre amigos.jpg
Entre Amigos (2009)

Mesmo mais de 50 anos depois de sua morte, Dolores Duran ainda é a principal (e mais gravada) compositora da história da MPB; só do seu maior clássico, a hipersensível "A Noite do Meu Bem", foram mais de 500 regravações - e nenhuma delas superou a original de sua própria autora. Dolores escreveu cerca de 30 canções (algumas musicadas postumamente) - um número relativamente pequeno se comparado à obra de contemporâneos seus como Herivelto Martins, Lupicínio Rodrigues e Antônio Maria, mas que foram suficientes para colocá-la no panteão dos monstros sagrados do cancioneiro nacional.

Entretanto, a compositora bem-sucedida acabou eclipsando completamente uma intérprete versátil e sofisticada, que demorou 50 anos para ser devidamente reconhecida; a redenção veio com o lançamento em 2009 do CD Entre Amigos pela gravadora Biscoito Fino. As gravações inéditas foram descobertas pela jornalista Ângela de Almeida durante as pesquisas para uma biografia sobre Dolores. As 10 primeiras faixas foram registradas em fita magnética durante encontros na casa do produtor de tevê Geraldo Casé entre 1958 e 1959; já as três últimas canções - editadas como faixa-bônus -, são parte crucial da carreira musical da cantora; "Body and Soul", "Eu Sem Você" e "Praça Mauá" foram capturadas durante um sarau doméstico em 1949, promovido pelo casal Raul e Helenita Marques de Azevedo (avós da cantora Marisa Monte); ali, com apenas 19 anos de idade, ela ainda não era Dolores Duran, usava seu nome de batismo - Adiléia Silva da Rocha - e engatinhava na carreira.

E engatinhou por muito tempo. Dolores começou a cantar muito cedo, ainda criança, mas a carreira não engrenava, na realidade, nunca decolou. Em comparação ao sucesso das divas do rádio da época, estrelas como Marlene, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira, Ângela Maria e as irmãs Linda e Dircinha Batista, Dolores comia poeira. O primeiro disco foi gravado no fim de 1951, com músicas para o carnaval do ano seguinte - eram os sambas "Que Bom Será" e "Já Não Interessa", a este sucederam-se muitos outros (Dolores gravou mais de 50 canções). Mas, rapidamente abraçada pela elite social e intelectual da zona sul, Dolores obteve êxito como crooner dos principais nightclubs cariocas, como a Vogue e a boate do Hotel Glória, onde os grã-finos iam para encher a cara e ouvi-la cantar em inglês, francês, italiano e espanhol. Sua turma era composta de cantores, músicos e compositores jovens, gente como Tom Jobim, Lúcio Alves, Tito Madi, Ribamar, Agostinho dos Santos, João Donato, Johnny Alf, Maysa, Sylvia Telles, Dóris Monteiro, Marisa Gata Mansa, etc. Acabou por se tornar uma legítima cronista das douradas noites cariocas.

Dolores começou a compor em 1955, tinha inspiração de sobra, mas conhecimento musical de menos; tocava pouquíssimo violão, sequer lia partituras, também por isso teve vários parceiros: Ribamar ("Pela Rua", "Ternura Antiga", "Ideias Erradas", "Quem Sou Eu?"); Edson Borges ("Canção da Tristeza", "Deus Me Perdoe", "Olhe o Tempo Passando") e Antonio Carlos Jobim ("Se é Por Falta de Adeus", "Por Causa de Você e "Estrada do Sol"); contudo, as de maior sucesso foram as musicadas por ela própria - "Fim de Caso", "Castigo", "Solidão" e "A Noite do Meu Bem". Quando as jam sessions do disco Entre Amigos foram gravadas, Dolores já era uma compositora reconhecida, mas ali, ela não cantou nenhuma de suas letras; ouve-se apenas a sua voz, a mesma voz que encantou Ella Fitzgerald e Charles Aznavour.

Acompanhada por um trio de peso - os violonistas Baden Powell e Manoel da Conceição (mais conhecido como Mão de Vaca), e Chiquinho do Acordeom; Dolores parece ter escolhido o repertório a dedo; entre os sambas-canção havia "Neste Mesmo Lugar" (um dos maiores sucessos de Dalva de Oliveira), "Marca na Parede" (de Ismael Netto e Mario Faccini) e "Coisa Mais Triste" (Billy Blanco); mas Dolores provava (o que já estava mais que provado) sua versatilidade como intérprete, cantando o delicioso samba ligeiro de Billy Blanco "Mocinho Bonito (grande sucesso na voz de Dóris Monteiro). No resto, imperava seu lado crooner, importando standards da música norte-americana, como "Cry Me a River", de Arthur Hamilton, fazendo as vezes de Julie London; com fôlego redobrado dava vida à divertida "Makin' Whoopee", lançada num longínquo 1928; em "How High the Moon" e "Cheek to Cheek" Dolores fez scats e modulações à la Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan; a técnica dificílima, que exige total habilidade da voz, prova que ela era uma legítima jazzwoman.

Dolores ainda dava uma amostra de sua extensão vocal em "Over the Rainbow" (o maior clássico de Judy Garland), e com a mesma sensibilidade recriava a imortal "L'hymne à L'amour" de Edith Piaf. Pra Fazer chorar. Em "Body and Soul", faixa gravada durante a festa do casal Marques de Azevedo em 1949, quando ela ainda não era profissional, Dolores canta com perfeito domínio técnico a música de 1930 - ano exato do seu nascimento -, acompanhada ao piano por Jacques Klein; na sofrida "Eu Sem Você" e "Praça Mauá", ela foi amparada pelo violão de Billy Blanco, autor de ambas músicas e que na época ainda era estudante de arquitetura (e que teve um breve romance com a cantora).

Por fim, o CD prova a fabulosa cantora que foi Dolores Duran, e que poderia ter ido muito mais além se o tempo tivesse lhe permitido, tempo este que lhe arrancou uma consagração em vida, mas fez dela um mito depois da morte.


version 2/s/musica// @obvious, @obvioushp //Victor Dirami