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Edna Lisboa

Edna Lisboa – linguista, analista do discurso, amante das palavras.

O IMPERECÍVEL CONHECIMENTO

O que o falecimento dos escritores João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna pode nos conduzir a pensar sobre a relação existente entre informação e conhecimento?


imagem-1-joao-ubaldo-rubem-alves-ariano-suassuna.jpg João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna

Do dia 18 ao dia 23 de julho, no curto período de cinco dias, fomos surpreendidos com a perda de três renomados escritores brasileiros: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna. Tal fato inusitado fez com que eu resgatasse em minha memória e, depois, em uma das pastas de meu computador, um texto que escrevi em agosto de 2002, ou seja, há 12 anos, o qual transcrevo, a seguir, adaptado.

Na manhã do dia 25 de agosto, domingo último, eu estava na fila do caixa de um supermercado e, enquanto aguardava ser atendida, observava a capa das revistas da semana, expostas na gôndola próxima ao caixa. A capa da Veja me chamou especial atenção. Estampava parte do corpo nu, jovem e bem formado de uma mulher, que, com os braços distendidos, segurava, com as duas mãos, na altura da genitália, uma maçã bem vermelha, mordida. Essa imagem ocupava toda a capa e convidava o leitor a, inevitavelmente, ler a seguinte chamada: “Em busca do desejo” – “Falta de vontade é um problema sexual cada vez mais comum. Como a medicina e a terapia podem ajudar”. Ao mesmo tempo em que eu observava a composição da capa, tecia a conexão de todo o texto com a conhecida passagem bíblica que nos conta que Eva não só comeu, como também fez Adão comer da maçã, o fruto proibido. A infração a uma lei divina resultou na expulsão definitiva de Eva e Adão do paraíso, o que representa que, naquele momento, o desejo e a vontade haviam sido mais fortes que tudo.

imagem-2-veja-edic3a7c3a3o-1766-28-08-2002.jpg Capa da revista Veja, 28 de agosto de 2002, edição 1766

Mas, por ironia do destino, ali, na capa da Veja, estava Eva, que após ter conquistado, a duras penas, o direito ao prazer sexual, havia perdido o desejo. Curiosamente, ela bloqueava o acesso ao prazer com o fruto proibido, já mordido.

Ao desviar o olhar, deparei com a capa da revista Nova e encontrei, como era de se esperar, a imagem de uma mulher jovem, saudável, bonita, sexy, sensual, bem vestida e feliz. Havia chamadas verbais que convocavam a mulher a conquistar um corpo perfeito e, por conseqüência, a tornar-se mais atraente e sedutora, o que, implicitamente, remetia à fêmea cheia de desejo à caça do macho. Não pude deixar de voltar a observar a capa da Veja, para, em seguida, contrapor as duas capas. E, por instantes, pareceu-me que as duas revistas haviam sido produzidas em condições sócio-históricas distintas e/ou para circular em tipos distintos de sociedade. Pensei, em seguida, no público ao qual se destina uma e outra revista, como uma forma de buscar justificar as disparidades sugeridas pelas duas capas. Afinal, o desejo sexual está cada vez mais intenso em nossa sociedade, ou está se enfraquecendo? O mais terrível foi imaginar os efeitos que capas de revistas e textos como esses poderiam estar provocando em seus leitores.

Saí do supermercado pensando nisso e no fato de que somos levados a acreditar que, no mundo globalizado e competitivo em que vivemos, precisamos, necessariamente, estar sempre bem informados. Caso contrário, não conquistamos um lugar ao sol. Ouve-se até mesmo falar em informação privilegiada e corre-se tanto atrás dela. Mas será que, ao alcançá-la, todos sabem exatamente o que fazer com ela e o que, de fato, ela representa? É preciso, acima de tudo, ter conhecimento, para que se consiga aproveitar a informação, isto é, para que se saiba avaliá-la e dela tirar o real e o máximo proveito. O conhecimento em leitura possibilita, por exemplo, o desenvolvimento de habilidades em estabelecer comparações e conexões, construir hipóteses, interpretar, refletir, inferir e abstrair. A informação é importante, mas sem o conhecimento, na melhor das hipóteses, ela pouco vale.

Só o conhecimento é capaz de tirar a informação da superficialidade. É imprescindível, nesse caso, que a Eva que habita em cada um de nós desperte o desejo de conhecer e assim descubra prazeres que vão muito além da momentânea e ilusória satisfação de estar “bem” informada.

Pois bem, caro leitor, você deve estar pensando o que esse texto tem a ver com o falecimento dos três escritores. Tudo, se reconhecemos que a morte compõe a vida. Todos nós, indistintamente, temos a informação de que somos mortais. No entanto, ignoramos a morte, vivemos como se ela jamais fosse nos acometer e, por isso, desperdiçamos a oportunidade de viver em plenitude. Bombardeados por uma exagerada carga de informações, não raro supérfluas, desnecessárias e descartáveis, passamos pela vida sem, de fato, conhecer nossa essência, nossa humanidade e assim deixamos escapar o que verdadeiramente nos importa.

João Ubaldo, Rubem Alves e Ariano Suassuna, cada qual a seu modo e em sua área de atuação, ocuparam-se de questões próprias da existência humana, inclusive da morte, sem banalizá-las, sem torná-las objeto de consumo facilmente digerível e descartável. Pode-se afirmar que deixaram um legado significativo para a construção do imperecível conhecimento, por meio do qual somos conduzidos a constatar que, na poética de todas as artes, faz-se amor com a morte e, paradoxalmente, goza-se a vida eterna.

imagem-4-ultimoadeus-de-alfredo-oliani.jpg Detalhe de “Último Adeus”, de Alfredo Oliani (1906-1988), Túmulo da Família Cantarella, Necrópole de São Paulo.

“Não tenho medo da morte. Na minha terra, a morte é uma mulher e se chama Caetana. E o único jeito de aceitar essa maldita é pensando que ela é uma mulher linda.

Ariano Suassuna

Edna Lisboa

Edna Lisboa – linguista, analista do discurso, amante das palavras..
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