vitrine cultural

Objetos de arte, história e cultura

Edna Lisboa

Edna Lisboa – linguista, analista do discurso, amante das palavras.

A Escolha de Renoir

Fim de dezembro, início de janeiro. Tempo de avaliar as escolhas feitas e preparar-se para realizar novas escolhas. É sempre assim, embora não haja justificativas nem explicações lógicas para tal. Mas o que são escolhas? Todos os seres humanos, indistintamente, são dotados de condições de escolher? Todos sabem aproveitar as condições de escolha quando estas surgem?


IMAGEM 1.jpg Rotineiramente, todas as manhãs, assim que despertamos para dar início às nossas atividades, realizamos inúmeras pequenas e quase imperceptíveis escolhas, tais como que roupa vestir, que sapato calçar, o que comer, o que beber, qual a temperatura da água do banho. Ao longo dos dias, das semanas, dos meses, dos anos, outras tantas escolhas são feitas, constante e obrigatoriamente,por cada um de nós. Algumas, extremamente simples e banais; outras, bastante complexas e difíceis. Mas como diz o senso comum, a vida é feita de escolhas. Sendo assim, podemos então afirmar que escolher éum determinismo que a vida nos impõe? Mas a todos os homens são dadas condições igualitárias de escolha? Todos, indistintamente, têm acesso a um mesmo cardápio de opções? Podem, por exemplo, decidir sobre questões triviais como o que comer e o que vestir? E, até mesmo, se poderão matar a fome antes que ela os mate? Graças a indagações como essas e a tantas outras que temáticas tais como escolha, determinismo, livre-arbítrio e responsabilidade têm, ao longo da história, merecido a atenção de pensadores como Aristóteles, Santo Agostinho e Jean-Paul Sartre. IMAGEM 2.jpg Aristóteles, no Livro III, de “Ética a Nicômaco”, ao dedicar-se à virtude moral buscando precisar as condições que determinam a responsabilidade pelas ações, define a escolha como o desejo deliberado por aquilo que se apresenta ao nosso alcance. Santo Agostinho, na obra “O Livre-arbítrio”, do ano 395, defende que,por meio do livre-arbítrio, é facultado ao homem, movido pela ação da vontade, o uso de liberdade para escolher entre o bem e o mal. Para o teólogo, o homem que vive sabendo a razão pela qual vive e não apenas se deixa levar pela vida é um sábio, uma vez que vive orientado pela razão, o que o faz preferir uma vida melhor a uma vida qualquer. Como o livre-arbítrionos foi concedido para realizarmos o bem, levar vida feliz ou infeliz depende, segundo Santo Agostinho, apenas de nossa boa vontade. Jean-Paul Sartre, por sua vez, acredita que, antes de tudo, o homem é um projeto vivido subjetivamente. Concebendo o homem como um projeto dessa natureza, Sartre nos imputa responsabilidade por aquilo em que nos tornamos, tendo em vista que tal projeto se constrói a partir de nossa liberdade de escolha. Essa ideia de subjetivismo, entretanto, não se revela individualista, considerando-se que, para o filósofo francês, ao escolher o que deseja ser, o homem acaba por pressupor como todos os homens devem ser. Ao perceber, assim, não ser responsável apenas por suas próprias escolhas, mas por toda a humanidade, o homem experimenta a angústia, a angústia existencialista que provém do sentimento de decidir não só o seu próprio destino, como também o de todos os seus iguais.IMAGEM 3.jpg No filme francês “Renoir”, dirigido por Gilles Bourdos eselecionado para representar a França no Oscar 2014, a escolha descortina-se, a um só tempo, com potência, delicadeza e beleza. Ambientada em Côte d’Azur, Riviera Francesa, litoral sul da França, em 1915, essa produção cinematográfica explora, a partir de fotografia primorosa dirigida por Mark Ping Bing Lee, a luminosidade esplêndida da paisagem e das telas do pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir. A narrativa retrata o final da vida do mestre impressionista, quando este, após perder sua esposa, sofre a falta da companheira, a velhice, as fortes dores decorrentes do agravamento de um quadro de artrite e a preocupação e a angústia com o filho Jean,que luta na Primeira Grande Guerra. Toda a trama se organiza em torno da chegada de Andrée, uma bela, vigorosae impetuosa jovem, que se torna não só a musa inspiradora da arte de Renoir, restituindo-lhe, em parte, a vitalidade, como também a musa inspiradora dos sonhos de juventude de Jean Renoir, quando este retorna, ferido, da guerra. IMAGEM 4.jpeg A história se constrói a partir de contrapontos como maturidade e juventude, falência e vigor, doença e vitalidade, guerra e arte, criação e destruição, inexperiência e experiência, luz e sombra, manutenção e reinvenção, ascensão e declínio, passividade e ação, peso e leveza, prazer e dor, sonho e pesadelo, vassalagem e suserania.Pierre-Auguste Renoir, personagem central do filme, constitui ponto de convergência de vários e significativos desses contrapontos. Se, de um lado, por exemplo, sua arte é dotada de maturidade, viço, leveza, expressividade, alegria e exuberância, de outro, o seu estado físico denota fragilidade, debilidade, esgotamento, peso, sofrimento e tristeza. Consumido pelas dores da artrite, que resultavam em séria restrição de movimentos, inclusive para pintar, Renoir recebe a visita de seu médico que lhe afirma ser ele capaz de andar. Incentivado pelo médico, com dificuldade, levanta-se e caminha, para, imediatamente em seguida, deixar-se ser acolhido pela poltrona. O médico lhe chama a atenção, tentando encorajá-lo para o sucesso da experiência a que Renoir responde que andar lhe consome muita energia e esforço, os quais ele prefere empregar em seu ofício de pintor. IMAGEM 5.jpg Nesse momento, destaca-se, dentre outras, a mais significativa escolha da narrativa: a possibilidade de pintar se sobrepõe à possibilidade de caminhar. Estabelece-se, assim, o mais relevante contraponto revelado no filme, o qual nos convida a observar as circunstâncias nas quais essa escolha é feita, ou, melhor dizendo, as circunstâncias que tornam possível a Renoir escolher pintar em detrimento de andar. A extensa criadagem composta por mulheresatua como espécie de fio condutor da história por meio do qual se tecem os movimentos do artista. É por intermédio delas que Renoir se movimenta e é levado a buscar inspiração no exuberante cenário da Riviera Francesa, o qual é traduzido, em suas obras, com singulares exuberância, vitalidade, beleza e leveza. A escolha de Renoir parece ecoar Aristóteles, Santo Agostinho e Jean-Paul Sartre. Odesejo do pintor de exercer a sua arte só se torna algo pelo qual ele pode deliberar graças ao fato de suas criadas colocarem ao seu alcance o caro objeto de seu querer. Dotado de condições de escolher, o artista revela ter consciência da razão pela qual vive, o que o faz preferir uma vida melhor a uma vida qualquer. No fim da vida, Renoir, a fim de manter-se fiel a seu projeto vivido subjetivamente,agarra-se àoportunidade de se reinventar, parecendo assim pressupor como todos os homens devem ser.


Edna Lisboa

Edna Lisboa – linguista, analista do discurso, amante das palavras..
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