vitrola cultural

Um pouco sobre arte, design, literatura e passado

Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate.

A decepção com Êxodo: Deuses e Reis e a propagação do ódio disfarçado de religião

O filme Êxodo, embora nitidamente mal explorado, deveria causar uma reflexão importante, sobre até onde chega o ódio e a maldade que é tão presente em todo ser humano. Saí do cinema com uma das maiores decepções cinematográficas de minha vida, e sentindo tristeza pelo ódio transbordante, que rouba a cena de qualquer outro sentimento, dentro e fora da telona. Essa retratação da crueldade Divina, que sacrifica qualquer coisa pelo bem maior, embora já estejamos acostumados com um Deus que se deve temer acima de amar ao ler o novo testamento, causa tristeza. A reação das pessoas fora da telona ante ao próximo e suas atitudes, sempre julgando-o como pecador e esperando uma justiça cruel e promessas de inferno, deprime. E faz refletir sobre até onde usamos a religião para justificar o ódio presente em nossos atos.


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Quando soube de um novo filme bíblico fiquei curiosa. Longe de qualquer apego ao que podemos ver no velho testamento, imaginei o quanto a história poderia explorar em emoção e efeitos especiais, sendo o conto das pragas do Egito tão extremo e fascinante, embora aterrador. Esperava me compadecer com a escravidão dolorosa, com o dilema vivido por Moisés, que sofreu ainda tão pequeno... Enfim, pensava esperar o inesperado. Mas o que obtive foi o que não imaginava: inundando as telas havia tédio e um show de ódio sem fim e sem graça. Êxodo: Deuses e Reis é épico em efeitos especiais e tem excelentes atores. Não vai além. O filme não impressiona, nem emociona. Posso ressaltar os defeitos como filme comum e filme religioso. Não é marcante. E em questões sentimentais chega a se tornar revoltante, tamanha é a exaltação do ódio, como se precisássemos de mais ódio por aí. Como se não vivêssemos em tempos de ódio em demasia. A abordagem dos personagens humanos como simples peças sem importância em um tabuleiro de xadrez ruim, é um tanto repulsiva.

Moisés se mostra cheio de problemas e dúvidas, um ser humano comum, mas não consegue envolver o expectador em sua dor durante grande parte do filme. Você não se identifica, não sente empatia. Não vai além do tédio. A dor representada em grande maioria é superficial. A relação entre Moisés e Ramsés parece, no início do filme, que será bem abordada. Não cumpre o que promete, se torna raso e dispensável, como todo o restante. A profeta que anuncia a liderança de Moisés parece intrigante e sábia quando o filme se inicia. No fim do mesmo se torna uma piada. Como quase tudo que se segue. O roteiro tem grande fidelidade com a Bíblia, então os acontecimentos são até coerentes, ainda que inúmeros pontos importantes não tenham sido retratados, embora tediosos em sua maioria. Mas a abordagem de execução é muito ruim. Esperamos ver a dor dos escravos, suas provações para se libertar e o êxito ao conseguir, a sensação de justiça sendo feita, como sentimentos protagonistas. Mas o que reina realmente são o ódio e a crueldade. Longos conhecidos dos fanáticos cristãos, através dos séculos, que matam para justificar sua fé. E nem é feito de forma interessante e envolvente. Parece mais uma pregação de um fanático religioso qualquer.

Há inúmeros personagens retratados, enquanto eles estão em tela, mas eles causam confusão. O espectador não consegue compreender a importância de cada um. Todos parecem importantes no começo, para perder o sentido depois. São superficiais, rasos, pouco explorados. Moisés parece dispensável no fim, o que é ressaltado por Deus em mais de uma fala, aparentando então que o motivo de haver deixado a família, além de todo seu esforço para libertar seu povo é inútil, algo que poderia ser feito por qualquer um. Ele não é um protagonista. E seus bons sentimentos de piedade e amor pelas outras pessoas, parecem uma falha aos olhos divinos, algo a ser punido e não ressaltado. Faz-nos pensar sobre até onde o amor é conveniente aos olhos do “Deus do filme”. A retratação de Deus como uma criança cruel, que lembra um sociopata de filmes de horror infantil, me traz na memória um clássico amado de minha infância, Constantine, em uma de suas frases mais famosas: “Deus é uma criança com uma fazenda de formigas”. É impossível não fazer esta analogia ao olhar para a criança cruel, indiferente e macabra das telonas, sendo o único personagem que foi marcante, de certa forma, embora não positivamente.

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Para meu espanto, de todos os personagens, Ramsés foi o único que me despertou qualquer sentimento de empatia. Embora fosse um ser humano cruel, como o próprio Deus da tela, o amor pela esposa e filho, o temor constante de perdê-los e o desespero demonstrado quando o pesadelo de sua vida se torna realidade, tocou meu coração, e não apenas o meu. Várias pessoas soltaram profundas exclamações do horror e pena na sala de cinema, neste momento.

“Você dorme tranqüilo, meu filho, porque sabe que é amado.” A dor ao segurar o corpo da criança em seus braços foi o ponto de emoção do filme. Nos sentimos, juntamente com ele, impotentes ante os sofrimentos e riscos que as pessoas que mais amamos enfrentam todos os dias, e não podemos evitar, não podemos proteger.

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Até mesmo a revolta cega causada pela dor da perda que se seguiu, fazia mais sentido para mim durante o filme, do que todo o resto. Do que um Deus que dizima suas crias cruelmente sem nem pestanejar, ainda que sejam crianças inocentes, bebês. Para mim, do ponto de vista da telona, não passou de uma pirraça, um cabo de guerra entre inseguros, para demonstrar quem era mais cruel, e poderoso, Deus ou Ramisés. Deus ganhou, é claro. Provou ser, sem dúvidas, mais poderoso e cruel que cada um dos egípcios. Quando crianças, somos ensinados que nossa pureza nos torna mais próximos a Deus. Não é algo desejável ou crível, ao considerar o cruel Deus criança que vimos na tela. O Deus retratado em Êxodo: Deuses e Reis, me fez sair do cinema com certa aversão, confesso. Como amar alguém que aborta filhotes da própria criação em busca de punir os erros dos pais, sem sequer pestanejar, tratando crianças como números? Como aceitar que sacrifícios de vidas são válidos em busca do “bem maior”? Em Êxodo vemos nada mais que um cruel general em busca de seu objetivo. Puro militarismo, compreensível se for encarado como um conto militar livre de qualquer indício de princípio religioso com amor e perdão, como costuma ser defendido e pregado. O moral da história parece ser: Tema ao Deus cruel e talvez, se estiver do lado certo é claro, você se livre de uma morte trágica e dolorosa. Parece ter tido como objetivo assustar aos fiéis na época em que foi escrito, tornando-os tementes e dóceis. E provavelmente chegou a funcionar. Porém agora a realidade é outra. Serve para exaltar a ignorância dos que odeiam pessoas que não compreendem.

O pós-filme foi, para mim, pavoroso. Deixando a poltrona, presenciei aprovações entusiásticas de muitas pessoas, citando o filme como uma afirmação e prova do que os julgados “pecadores” pelos fanáticos, mas não os cruéis psicopatas e sim os homossexuais, ateus, mulheres que se vestem como querem, cantores e etc, vão enfrentar. Uma quantidade assustadora de pessoas, não compreendeu absolutamente nada. No fim, para muitos o filme todo não passou de uma afirmação do que proclamam por aí, do desprezo divino por certas pessoas. Não compreenderam o militarismo por trás do conto e a verdadeira linha de maldade que havia sido cruzada no mesmo. Entre tantas coisas, parecem não entender que escravizar e assassinar é o verdadeiro ponto de crueldade, e não viver conforme se escolheu. Vi pessoas se deliciando ao imaginar o sofrimento de outras, desejando ver o julgamento final dos “impuros”, só para acompanhar de perto a punição cruel de seu próximo, apenas porque o outro não tem meios ou inclinação de viver a vida conforme o que o fanático crê ser correto. Não consigo fazer uma boa crítica nem como cinéfila, nem como alguém que crê na existência de algo além do mundo que conhecemos. A arte imita a vida, a vida imita a arte. E o ódio protagoniza ambas.


Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate..
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