vitrola cultural

Um pouco sobre arte, design, literatura e passado

Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate.

As marcas duradouras do abuso sexual na vida do ser humano. Até onde o dito “conservador” colabora com o cenário de violência?

A cada dia mais e mais campanhas são criadas para tentar lutar contra os números cada vez maiores de abusos sexuais registrados por toda a parte. Os que culpam as roupas cada vez mais curtas das mulheres, não conseguem justificar o porque há também o abuso de crianças e rapazes. Que tal parar de culpar a vítima, de julgar o outro e, ao invés de distribuir papéis determinados para homens e outros para mulheres, distribuir respeito? Abuso sexual gera marcas que são carregadas por toda a vida.


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Uma letra antiga de uma banda traz a afirmação: nunca é tarde demais. O clipe da mesma nos dá um vislumbre do estrago que o abuso pode causar em uma pessoa, a dor e a luta para se restabelecer após um trauma que acompanha os anos e marca uma vida. O mundo obriga os pais cuidadosos a ficar de olho nos filhos e em quem os rodeia, para evitar que os mesmos sejam vitimas de abuso. Mas isso acaba acontecendo com mais e mais crianças e adultos. O abuso sexual segue e segue acontecendo nas ruas e dentro das casas, e não se consegue evitar. O questionamento que fica no ar é: Porque isso continua? Como podemos evitar a aumento dos números de abusos e lotações de consultórios psiquiátricos com pessoas que não conseguem lhe dar com o trauma? Trancar os filhos não é uma solução em longo prazo, nem é possível de se manter para sempre. Deixar de viver a vida plenamente tem sido a opção das vitimas que querem evitar uma reincidência. Mas a solução está bem ali, no meio daqueles preconceituosos que julgam os outros, culpando sempre o mais frágil. A resposta está com aqueles que tratam uma mulher mais gordinha que tenha sido abusada como motivo de riso, que afirma que a mesma deve “agradecer” ter despertado o interesse de alguém. Com aqueles que riem de um menino que foi tocado maliciosamente ainda muito jovem por uma mulher e que o obrigaram a retribuir o toque, dizendo que “homem tem que gostar de sexo desde cedo”. Dos que riem do rapaz presidiário que sofreu estupro na cadeia, encarando o abuso como uma forma de justiça. Que de acordo com eles “se fosse alguém de bem, não teria sido abusado”. Mas e as mulheres que são abusadas a caminho do trabalho, da escola? E as crianças? Não estão sendo atacadas contra sua vontade sem haver cometido qualquer delito contra a sociedade?

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Vemos campanhas sendo criadas, para diminuir a incidência de crianças se casando com homens já de idade avançada, obrigadas pelos pais, ocorrência comum em vários países, principalmente comunidades mais pobres. Campanhas contra abusos de crianças, que incentivam os pais a ficar de olho, a não confiar em ninguém, e crianças a denunciar seus agressores. Vemos grupos de ateus, religiosos, conservadores e liberais se rotular, acusar e atacar uns aos outros, e acabamos perdidos e sem compreender a luta ou o objetivo de cada um deles. Prefiro fugir de rótulos e dizer que devemos lutar a favor do respeito ao próximo, e parar de julgar as pessoas, condenando-as ao desprezo por ser elas mesmas, todo o abuso começa a partir daí. Quando o religioso extremista que acredita estar agindo de acordo com o desejo de Deus decide descriminar determinados grupos na sociedade, expondo-os ao desprezo do mundo e incentivando violência contra eles, oferece um combustível para o ódio. A verdade é que enquanto a vida não for valorizada como vida, as pessoas como seres com sentimentos e únicos, nada disso vai mudar. A banalização do abuso no geral, tanto dos rapazes que são por vezes atacados e viram motivos de piada da sociedade, quanto das moças rotuladas como um corpo que pede estupro pelas roupas que vestem, essa a atribuição da culpa para a vítima só segue destruindo vidas e mais vidas. E isso começa quando as pessoas se julgam melhores do que as outras, mais certas que as outras, mais merecedoras de ter aquilo que desejam sem precisar pedir permissão. O egoísmo que é cultuado hoje em dia, toda a mania de querer ser sempre o correto. Apontam um dedo para o outro, ao invés de estender a mão.

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De camarote observando a vida, vejo as pessoas proclamarem seu rancor umas contra as outras. Pode ser inveja, ou uma real crença de que o outro deve ser punido por estar errado de acordo com os princípios de suas crenças, as desculpas são muitas. Seja como for, a pessoa que conserva a mente fechada causa dor aos que ama e mantém a sociedade presa em uma teia retrógrada de violência e superioridades descabidas. Há os que defendem que as mulheres devem ser ensinadas a trocar as roupas curtas por maiores e menos bonitas, ao invés de orientar o homem a não estuprar, a não tocar alguém ao seu bel prazer. Os que afirmam que a quantidade de estupros de mulheres ocorre porque atualmente elas se vestem de maneira provocante. São os mesmos que riem dos rapazes estuprados.

Mas e quanto ao abuso infantil? O que uma criança tem de sensual? As mesmas pessoas que acusam mulheres de vestir-se de forma a pedir para serem estupradas, afirmam que os que abusam de crianças são monstros. A verdade é que o homem que estupra uma mulher porque está de roupa curta, pode abusar de uma criança cujo corpo se desenvolveu cedo demais, de vestido de rendinhas. Ou atacar a filha que está se tornando uma mocinha bonita demais, ou a sobrinha, a filha do amigo, ou a neta. O que está em jogo é o desrespeito, a insensibilidade que cresce mais e mais. Queria acreditar que só alguns poucos monstros cometem este tipo de atitude. Mas a quantidade de pessoas que passam por situações assim no dia a dia me faz parar de romantizar a coisa toda e me iludir que só as pessoas nitidamente cruéis são capazes de fazer mal. Alguém que toca maliciosamente uma criança inocente pode ser considerado um monstro? Definitivamente. É um monstro, e monstros em escalas menores também estão espalhados demais por aí, em uma sociedade que protege o ato do criminoso culpando a vítima. O ser humano que toma o corpo do outro contra a vontade se encaixa na mesma categoria. Aquele que ataca à força a moça na boate por estar desacompanhada, assim como aquele que aproveita o ônibus lotado para tocar a mulher próxima a ele e conta isso rindo para os amigos na mesa de boteco, ou o que persegue adolescentes nas ruas ou em pontos de ônibus por as acharem “gostosas”, os que dizem que “Não” de mulher é sim, que acham que menino tem que gostar de ver seios desde pequeno, que desvaloriza o abuso cometido aos rapazes, como se garoto não precisasse estar preparado para ser exposto ao mundo sexual. Todos colaboram para o cenário de violência e dor que vemos hoje. O que é realmente necessário é ensinar o respeito ao corpo do outro.

Uma vez, lendo um blog de um famoso resenhista entre os leitores de quadrinhos, me deparei com uma afirmação do mesmo que me surpreendeu. De acordo com ele, o estupro era encarado de forma exageradamente dramática por muitas pessoas, pois a maioria das mulheres não se importa se for abusada, a não ser que seja virgem. Afinal se você já teve relações antes, não se importa em ter novamente, com quem quer que seja. Fiquei em estado de choque. Só quem já foi perseguido na rua, ou conhece quem foi pode dizer o quanto é humilhante, desprezível e assustador. As escolas colecionam histórias de meninas que voltam sozinhas da escola e acabam tendo de fugir de perseguidores, sortudas quando conseguem. Na cidade em que moro existem vários abrigos para crianças molestadas. Algumas foram atacadas nas ruas e buscam apoio para se restabelecer, mas a maioria pelos próprios familiares, meninos e meninas, centenas deles, nos rostos as mesmas expressões de medo, desolação. O mínimo de observação fará qualquer um se arrepiar ao encarar aqueles olhos apavorados. O estrago que qualquer abuso, qualquer toque malicioso não permitido, pode causar a um ser humano vai além das proporções imagináveis. O dia que a cultura ao ódio e desprezo dar espaço para a cultura do respeito e a intolerância se transformar em compreensão, temas com estupro, sexualidade, raças e preconceitos em geral vão ser menos debatidos. Porque não será mais necessário. A partir daí a sociedade vai poder caminhar de verdade, porque, sinceramente, as opiniões das pessoas de mente fechada que vivenciamos no dia a dia são o puro exemplo de mentes fracas e pouca reflexão que propagam as tragédias do mundo.


Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate..
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