vitrola cultural

Um pouco sobre arte, design, literatura e passado

Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate.

Uma carta ao amor (intenso e livre de esteriótipos)

Essa é uma carta ao amor. Ao que está lá para uns, ao que ainda chegará para outros, e ao que já existiu. Porque o que torna as histórias de amor deliciosas não é o tempo que elas duram, e sim a intensidade de sua sobrevivência.


Lov.jpg

Depois de tanta crença no oposto, admito achar agora que nasci para ter alguém. Dormir sentindo um corpo ao meu lado e acordar mirando seus olhos, ainda que fechados, são um novo prazer descoberto. Descobri até que gosto de ir para balada, se for com você, de poder dançar e até beber sabendo que alguém vai cuidar de mim e me defender dos excessos alheios. Gosto de te ouvir cantar essas canções loucas e desafinadas de propósito, de te ver adormecer, sempre apagando antes de mim, dar aquele beijo secreto no topo da sua cabeça, aquele que você nunca vê, mas que sempre acontece quando já está adormecido. Gosto de fazer planos e te incluir em todos, mas gosto ainda mais quando você participa ativamente comigo, planejando, sonhando junto. De dividir segredos e opiniões, entrar nestes nossos debates que fazem o mundo deixar de existir, de compartilhar os meus medos e admitir as minhas fraquezas. Adoro que você não se intimida pelo meu caráter incendiário, por essa minha mania de querer mudar o mundo. Gosto de admirar quem você é. Gosto de ver você aplaudir meu feminismo, por você ser tão livre de esteriótipos, por você sempre andar de mãos dadas ao meu lado e não correr em minha frente, não só nas ruas, mas também na vida. Gosto que você me aceite como sou, ainda melhor do que eu mesma me aceito.

Gosto de notar que com o tempo você aprendeu meus carinhos favoritos. Gosto de quando você me diz ter se lembrado de mim ao ver algo que realmente é a minha cara, daquela mensagem no meio da tarde me mostrando que não pode esperar para me contar detalhes do seu dia. É bonito ver deixou de desenhar meus traços com os dedos pairando no ar, como fazia antes, mas apenas para desenhá-los em sua mente. Gosto de te surpreender, gosto de ser surpreendida por você, da maneira com que você consegue me enlouquecer mesmo no pior dos meus humores, dos beijos no pescoço que arrepiam, da sua voz sussurrada em meu ouvido capaz de afastar todos os problemas, de receber sua mensagem de bom dia, de receber o seu bom dia pessoalmente. Gosto dos olhos dobrando de tamanho quando acha graça a me ver xingar repentinamente, assim como me encanto quando você me lembra que o filme que eu falei querer assistir está em cartaz no cinema. Você sabe que preciso de amor o tempo todo, me sentir intensamente e simplesmente amada, me sentir importante, de saber que faço parte dos planos de alguém. Adoro quando você reconhece minha intensidade, e diz que ela é especial. Quando me olha nos olhos e me diz que eu sou linda. Mas também quando está só parado lá, me esperando chegar, arrancando meu sorriso com seus olhos. Do seu toque em meus cabelos, quando me abraça por trás, e quando beija meu nariz ou minha cabeça, com carinho. Do melhor abraço do mundo. Desse cheiro natural que você tem, e que é mais familiar para mim do que o meu próprio.

Gosto de saber que nós tivemos vidas separadas por mais de 20 anos, vivências e aprendizagens diferentes, e que podemos compartilhar experiências para nos ajudar. Gosto de dividir nossos passados. De quando você me conta sobre as coisas gostosas de sua infância, e eu posso sentir-me lá, olhando o homem pequeno de cabelos loiros e lisos, aprontando por aí, mesmo que timidamente. Gosto de olhar suas fotos de infância, pensar no homem que você se tornou, e imaginar uma criança com estes mesmos cabelos escorridos e olhos maravilhosos, mas toda eu e você. Amo quando você me diz coisas inesperadas, quando tira meu cabelo dos olhos, ou anda abraçado comigo, sutilmente ajudando a sustentar meu peso, quando percebe que meu andar mudou pelo cansaço. Sentar-me e ver você se arrumando tranqüilo, como se o mundo te esperasse. Quando vejo que você vem me ensinando a correr menos. O que tenho aprendido ao seu lado nenhuma escola poderia me ensinar. Aprendi o que é ser companheira, o que é confiar em alguém, me abrir sem medo de futuras represálias, a dividir minha cama e minha vida tão exclusivas e reclusas com outra pessoa, e não querer mais dormir sozinha. Aprendi que o ciúme é falta de autoconfiança, mas que pode atacar de vez em quando, que sogra pode ser uma grande amiga, que conversar contigo na hora do seu filme favorito é garantia de não ser ouvida, que não existe isso de “todo homem é igual”, que é possível se apaixonar pela mesma pessoa todos os dias por algo novo, que homens bem orientados demonstram seus sentimentos e se vestem bem, e que vale sim a pena entregar-se e dedicar-se a um relacionamento.

E mais do que tudo isso, eu aprendi a ser uma pessoa melhor e saber conviver com as diferenças, a admirar as diferenças, a amar as diferenças! Não, não é que eu precise de algo para me completar, passei anos aprimorando meu jeito de ser para ser completa sozinha, mas é mesmo incrível ter alguém que me ajude a transbordar. Ainda bem que vamos selar isso. Vamos dar um laço em toda nossa vida, e costurar um futuro repleto de tecidos coloridos de vitórias, amor e família. Não vejo a hora. Não vejo à hora de criar novos momentos ao teu lado. De que olhar em seus olhos ao acordar vire rotina. Ter seus braços me rodeando antes de dormir uma parte de meus dias. Sabe, ser sua esposa será um presente, uma dádiva. Quer saber? Não nasci para ter “Alguém”. Nasci para ter você. Só você. E para sempre você.


Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/recortes// @destaque, @obvious //Jannine Dias
Site Meter