vitrola cultural

Um pouco sobre arte, design, literatura e passado

Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate.

A busca pelo corpo ideal: A surpreendente comoção causada pelo bumbum da Paolla Oliveira

Sobre a luta constante contra o próprio corpo em busca de torná-lo ideal. Até quando vamos nos comparar, nos policiar e nos privar em uma batalha perdida contra o tempo e contra nós mesmas?


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Sendo uma pessoa um pouco afastada da TV e vida de famosos, fiquei confusa quando de repente eu só ouvia falar da Paolla Oliveira. Conhecia por alto a atriz global, claro, mas nunca a tinha ouvido ser tão mencionada, pessoas no trabalho, nas lojas em que eu entrava e no facebook não paravam de falar sobre ela, desfiavam reclamações e expressões de entusiasmo, inveja e reclamações pela necessidade de dobrar a rotina de exercícios da academia. Quando eu finalmente compreendi que o falatório foi gerado por uma cena em que a mesma exibia o belo bumbum, fiquei surpresa, e ainda mais confusa. Todos os dias têm famosos e seus traseiros na TV, internet e em revistas. Somos bombardeados por corpos siliconados, “photoshopados” e perfeitos por aí o tempo todo, mas o dela parece haver despertado uma comoção ainda maior. Este bumbum virou febre na internet. E o mais curioso foi que o belo traseiro está mais falado entre as que desejam ser como ela do pelos que a desejam. Sim, o público que bombardeia minha timeline no facebook e meus ouvidos com comentários sobre o bumbum maravilhoso dela são mulheres. E heterossexuais! Especialistas ensinavam como ter o bumbum de Paolla Oliveira, as revistas estampavam uma foto que diziam, em cor vermelha, ensinar as 15 maneiras mais rápidas para obter o bumbum de Paolla Oliveira. Confesso que fiz uma busca atrás da tão polêmica aparição. Olhei, olhei novamente e me perguntei, ok, e aí? Ela é linda, sem dúvidas. Como outras tantas famosas e não famosas. Mas e aí? O que gerou tanta comoção, tanto desespero? Porque você vai dobrar sua dieta, já exagerada, moça, ou seus exercícios que já estão superando o saudável, ou suas cirurgias plásticas? Não sei se nasci com algum defeito de fabricação, mas continuo completamente perdida neste mundo que é tão desesperado pela aparência, a ponto de tantas loucuras e angústias diárias. Se sentir bonita é ótimo, mas aceitando a si mesma, sem extremos. Porque tanta angústia, cirurgias, procedimentos dolorosos, agulhadas, dietas exageradas, dor? Esse traseiro duro e empinado merece tanto sofrimento?

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Não, eu não consigo entender. Porque tanto desespero com o corpo? Se você está tendo problemas com relacionamentos, com sua vida pessoal ou profissional, não pense logo que o problema está em seu corpo, moça. Que tal começar a aprimorar seu interior? Aumentar seus conhecimentos, melhorar os defeitos graves. Tentar descobrir o que há por trás de suas angústias, aproveitar os momentos. A sociedade está doente pela aparência. Vejo mulheres vasculhando vorazmente revistas para ver as fotos das outras de biquíni, fazendo dietas malucas, cheias de remorso ao comer, comemorando quando famosas da internet aparecem com um furinho de celulite ali e outro aqui, cheias de triunfo.

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Gente, pra que esta luta contra o próprio corpo? Porque esta vigília com o corpo alheio? É um ciclo vicioso, uma batalha perdida, e você nunca vai vencer. A velhice chega para todos, vamos abraçá-la? Cuidar de nós mesmas, mas sem extremos, sem virarmos escravas de nossa própria aparência. Escuto mulheres que dizem fazer tantos procedimentos, cada vez mais agressivos, para se sentir bem. Pura ilusão. Porque você nunca está satisfeita. Você está sempre lá, dobrando e triplicando o ritmo da academia, sempre checando o espelho minuciosamente, achando defeitos em seu corpo, então aumenta as cirurgias, cada vez mais agulhadas e menos comida.

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A vida é muito curta para não aproveitá-la. Vamos buscar a saúde, mas nos aceitando como somos. Vamos extrapolar às vezes, sem um remorso posterior que supera em muito o prazer de ter comido um pouquinho a mais, um dia só. Vamos aceitar-nos, como somos. Há bumbuns incríveis, lindos, pessoas que se preocupam tanto em ressaltar sua aparência que esquecem que tem mais a oferecer do que um corpinho bonito. Valorize-se, por dentro e por fora. Você é como é, e isso não é errado. Todas nós estamos fora do padrão da mídia por algum motivo, e nem por isso somos inferiores. Somos inteligentes, talentosas, determinadas, livres, sensíveis, divertidas, atrevidas e capazes. Mesmo se não tivermos todas essas características reunidas, todas temos algumas delas, e a capacidade está em todas nós. E valem bem mais do que a aparência. E quem disse que não somos lindas? Mesmo com uns quilinhos a mais somos belas, mesmo com quilinhos a menos, baixinhas, altas, com cabelos crespos, ou escorridos, temos aquele olhar diferente, aquele sorriso lindo, o mordiscar de lábios, ou aquele jeito de mexer no cabelo, que é um charme único. Todas nós temos algo que é só nosso. Somos tão incríveis! Trate a aparência como um complemento de quem você é, e não como a essência de tudo. A vida é magnífica demais para perdermos demasiado tempo com coisas tão perecíveis quanto à aparência.


Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate..
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