vitrola cultural

Um pouco sobre arte, design, literatura e passado

Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate.

A comercialização do tempo e a compra da felicidade

Levar o par em um restaurante caro como prova de amor é mais fácil do que preparar o jantar você mesmo. Mais rápido e menos trabalhoso porque tempo, hoje em dia mais do que nunca, é dinheiro. Falta se dedicar aos outros. Esse comércio do tempo que torna o ser humano descartável precisa parar. Compramos presentes para substituir ausências, pagamos jantares, viagens caras, cirurgias, com o intuito de justificar a falta de desfrutar da felicidade real. Deixamos os momentos felizes para trás, na esperança de comprar uma super felicidade no cartão de crédito sem limites.


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Vivemos em um mundo acelerado. Somos cobrados todos os dias a toda hora. Devemos fazer alguma faculdade, aquela pós, conseguir aquele emprego pra ontem, buscar alguma vida social pelo caminho, correr, correr, correr! Somos aplaudidos pelas conquistas. Admirados pelas vitórias. As horas do dia são curtas e devoradas por nossos afazeres. Trabalhamos 8 horas por dia, fazemos faculdade a noite, curso de línguas nos fins de semana... ufa! Assim pensamos que os anos estão se tornando cada vez mais curtos, os dias passam mais rápido, o relógio é um recordista insaciável, faminto, para levar de nós o tempo.

Quando desaceleramos um pouco, em algum feriado sem trabalho, sem curso, sem faculdade, sentimos a adrenalina baixar um pouco. Há algo especial no ar, o relógio é menos consultado, as preocupações são diminuídas. Curtimos nossos parceiros, filhos, amigos. Sorrimos, brincamos, recordamos. Nosso coração lamenta amargamente o final da tão divertida folga, e retornamos com caras tristes e sentimentos indescritíveis de resignação. Mas até o final da outra semana já nos esquecemos daquela magia momentânea e tudo volta a ser caótico. Com o tempo a magia nem existe mais, e acabamos criticando os feriados e tempos de folga, que nos afastam de nossas obrigações. Levamos o computador à tira colo na viagem de família, passamos horas ao telefone, falando mais com quem está longe, do que com quem está ao nosso lado, naquela viagem, naquele lugar.

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Sério, o que estamos fazendo?

Eu, confesso, estou longe de ser uma garota calma. Sou impaciente, não paro de correr um minuto sequer, abraço mais coisas do que deveria, conto os segundos de meus dias, não suporto ficar parada ou me atrasar, quero tudo pra ontem, se anteontem, ainda melhor! Minha mente não para. E é por ser uma acelerada nata que comecei a questionar a vida que prega esse exagero como saudável e que critica quem tem um ritmo mais calmo. Fiquei sinceramente preocupada com minha própria mania de comercializar meu tempo. Talvez não esteja certo ficar parado esperando a vida trazer as oportunidades, atrasar-se o tempo todo, não lutar pelo que deseja. Não, não está. Mas nenhum dos extremos é viável. Extremos nunca são viáveis.

Precisamos de um equilíbrio. Ficar 30 minutos de bobeira na cama, abraçado com alguém que você ama, não é perda de tempo. É desfrutar do momento.Um pedacinho de felicidade e, acredite, é gratuita. Estamos tão apressados em ser bem sucedidos, em ter mais e mais, que nos esquecemos de valorizar o que já temos. Conforto é bom, lazer é indispensável e amar é o que nos faz viver, e não apenas existir. Amar nossos animais, familiares, amigos e sorrir com eles. Não estou dizendo que devemos largar o emprego, a faculdade, viver da terra. Não, a não ser que você ame fazê-lo. Se quiser, vá em frente e viva como tiver vontade. Mas acho que devemos aprender a conciliar as coisas, desacelerar um pouco o passo, libertar o sorriso. É uma época de separações. O ano mal começou e já presenciei mais casais se separando do que em qualquer outro. As pessoas se preocupam tanto em ganhar dinheiro, se especializar profissionalmente, colecionar troféus, que esquecem de olhar para o outro, colecionar bons momentos. A aceleração favorece o egoísmo. O egoísmo torna o outro dispensável.

Levar o par em um restaurante caro como prova de amor é mais fácil do que preparar o jantar você mesmo. Mais rápido e menos trabalhoso porque tempo, hoje em dia mais do que nunca, é dinheiro. Falta se dedicar aos outros. Esse comércio do tempo que torna o ser humano descartável precisa parar. Compramos presentes para substituir ausências, pagamos jantares, viagens caras, cirurgias, com o intuito de justificar a falta de felicidade. Deixamos os momentos felizes para trás, na esperança de comprar uma super felicidade no cartão de crédito sem limites. A felicidade está naquele sorriso do trabalho, na chuva repentina no dia de folga, no abraço de quem se ama. Eu não quero a super felicidade comprada. Dispenso, obrigada. Quero todas as pequenas, para criar uma vida inteira de lembranças felizes. Felicidade comprada é ilusão. E ilusão, meus queridos, é o mal do século.


Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate..
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