vitrola cultural

Um pouco sobre arte, design, literatura e passado

Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate.

Uma carta a um amigo amado perdido: Os jovens estão morrendo

Sobre a dor de perder um amigo, de ver o sonho de alguém ser enterrado com ele. Os jovens estão morrendo todos os dias, o tempo todo e cada vez mais.Morremos trabalhando, estudando, voltando da balada. Morremos em um momento qualquer, por algumas pedras a mais, para um cara qualquer fumar mais um dia. Um cara qualquer, que também é um jovem, fadado a perder a vida.


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Todos já sentimos o que é perder alguém. Às vezes perdemos para a vida, aquele que segue seu caminho sem você, e nos magoamos, mas a dor é passageira, e um dia se torna nostalgia. O duro mesmo é perder para sempre. Perder para a morte. Esbarrar na morte, ocasionalmente, faz parte da vida. Mas isso não torna isso mais fácil. Acordamos para um dia normal e nos deparamos com uma notícia esmagadora. Perder alguém já é péssimo. Quando a pessoa ainda nem chegou aos 30 anos, para mim, é ainda mais doloroso. Em meus pouco mais de 20 anos, ao olhar para trás consigo ver a quantidade de perdas de amigos, e isso é esmagador.

Os jovens estão morrendo. E não apenas os usuários de drogas, ou praticantes de atos ilícitos. Morre quem está na rua errada, na hora errada, carregando uma mochila. Sofremos acidentes, somos assaltados, feridos, magoados.

Às vezes a revolta devora a nós mesmos, a ponto de o clamor por justiça buscar incansavelmente um alvo. Porque uma mochila e um celular valem mais do que a vida de alguém, que acorda cedo e luta todos os dias, e que a perdeu como um sopro, em um assalto que deu errado. Uma pessoa que teve uma batalha tão difícil e a superou, não merecia perder assim, de um jeito tão vil. Porque os olhos de uma irmã que vê a luz deixar os do irmão, nunca verá nada da mesma forma novamente. Tantos sorrisos e sonhos, o momento em que você está conquistando a felicidade, e acaba passando instantaneamente para a escuridão. Não há fita negra suficiente no mundo para expressar a dor de quem ficou pra trás. Não, isso não é justo. os jovens estão matando uns aos outros, de novo e de novo, todos os dias. Nós estamos morrendo cedo.

Morremos trabalhando, estudando, voltando da balada. Morremos em um momento qualquer, por algumas pedras a mais, para um cara qualquer fumar mais um dia. Tanta luta para sobreviver, tanta resistência, que acaba em uma noite advinda de um dia de trabalho árduo e de estudo. Trabalhamos como loucos para pagar nossos estudos noturnos, sem saber se chegaremos a nossas casas. Isso precisa parar. É necessário fazer alguma coisa. A mudança no sistema judiciário se torna indispensável, porque nada do que está sendo realizado tem funcionado. É preciso tentar algo, qualquer coisa, para que alguma mudança aconteça, realmente.

Porque eu me recuso a ver mais rostos, tão jovens, inertes. Uma pessoa que nem chegou aos 30 anos, e nunca chegará. Seus risos não mais serão ouvidos. Seus olhos não mais brilharão com um sentimento recém descoberto. Não conhecerá a emoção do dia de seu casamento, do nascimento dos filhos, ou aquele frio na barriga que todo mundo sente na formatura. Porque toda vida é especial e importante para a alguém, e é injusto que tenhamos de enterrar uns aos outros, assim antes da hora. Recuso-me a enterrar mais amigos, cada vez mais jovens. Recuso-me a ser a próxima a ser enterrada. A dor da perda deveria seguir o ciclo da vida, como somos ensinados na escola, nas aulas de ciências. Nasce, cresce, reproduz (quando quer), envelhece e morre. Mas infelizmente, isso não é possível.


Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate..
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