vitrola cultural

Um pouco sobre arte, design, literatura e passado

Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate.

Sobre superação, experiências de quase morte e surpresas humanas

A vida é cheia de reviravoltas. Temos que, constantemente, lutar por ela. Às vezes fatalidades nos alcançam, e a batalha se intensifica. Mas a vitória vale toda a luta árdua. Porque sorrir com o doce, depois de provar o amargo, não tem preço. O frio na barriga com as decisões é arriscar-se. E arriscar seu coração, é viver, em toda sua plenitude.


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Criaturas engraçadas os seres humanos com seus planos independentes. Nos consideramos aptos para algo, inaptos para outras coisas, e repentinamente acabamos mergulhados em situações inesperadas e com sentimentos inesperados, e nos redescobrimos.

A vida prega peças engraçadas em nós. Às vezes nunca nos imaginávamos tomando certas atitudes, dando certos, passos, e nos vemos exatamente lá, acordando em um dia diferente, uma vida diferente. Sempre me considerei uma pessoa solitária, que estaria cheia de livros e gatos, em um apartamento calmo. Era o futuro planejado. Mas agora, sendo fotografada e elaborando convites e bem-casados, vejo-me uma noiva. E é inacreditável que, quanto mais perto o dia chega, mais me sinto segura de minha decisão. Os seres humanos, e não apenas nós, mulheres, por vezes surpreendem-se a si mesmos. Nos descobrimos, em momentos de dificuldades, ainda mais fortes. Em momentos de batalhas, mais livres. Agora, tentando equilibrar TCC e casamento, é inevitável me olhar no espelho e não pensar em mim mesma há poucos anos atrás.

A vida é uma dádiva, e experiências de quase morte são relativas, as pessoas tão diferentes quanto são, cada uma encara por si só, de sua própria maneira. Às vezes você comete um erro, um deslize, e coloca sua vida em risco. Ou fica gravemente doente sem explicação ou culpa, ou está no lugar errado, na hora errada. Ou se recusa a entregar a mochila ao assaltante, e acaba morto. Não precisa ter idade avançada para encontrar a morte. Em meu caso foi um acidente, à caminho da faculdade, com sonhos e trabalhos na mochila. Não estava no controle. O cara que acertou o veículo em que eu estava não era um bandido psicopata. Era um pai que se atrasou para buscar o filho na escola. Alguém que estava cansado, após extras no trabalho. Um cara comum. Uma vida comum. Que se chocou com a minha, e quase interrompeu-a.

Creio que realmente só se dá valor a vida e compreende a força do próprio instinto de sobrevivência, quando precisa lutar para manter os olhos abertos. Quando me deparei com os ossos quebrados, o sangue perdido e o medo de não se levantar novamente, pude encarar de frente, minhas expectativas, meus sonhos. São experiências que nos movem. Minha forma de encarar a faculdade recém iniciada, na época, repentinamente interrompida, o namoro também recém iniciado, toda uma vida nova em pausa, foi a esperança. Quando o médico me mandou desistir, rezar, esperar milagres, decidi lutar com mais força. Queria me recuperar. Cada cirurgia era um passinho para o futuro. A empatia aumentou. Não poder me mover por meses, me fazia pensar em quem nunca o tinha podido antes, na vida das pessoas que estavam presas eternamente, em seus próprios corpos, Mentes sãs, em um corpo que não as obedece. A cada dificuldade para passar pelas calçadas da cidade em uma cadeira de rodas, me condoia por quem vinha enfrentando aquela dificuldade em todos os dias de suas vidas. Filas preferenciais, assentos, vagas em estacionamento... Tudo ganhou ainda mais valor para mim. Bons momentos, fazer caminhada, trabalhar, correr. Tudo parecia um sonho. Agora, com cicatrizes cobertas, e o mesmo rosto de sempre, me pego olhando para o espelho. Corro com meu cachorro, pulo corda com minha sobrinha, subo as escadas de meu apartamento, e mais do que isso: Corro com o TCC, com a formatura, com meu casamento. Eu, que até poucos anos atrás, temia nunca mais abrir os olhos.

Eu que me via solitária, isolada, presa à uma vida sem emoção, sem perspectivas. Agora tenho uma vida profissional deliciosa e em ascensão, e um parceiro maravilhoso ao meu lado. Toda a correria, agora é gratidão. E esse sorriso fácil que me acompanha sempre agora, foi resultado de uma luta absurda e muita resistência, coitado dele, ameaçado tantas vezes. Não é só um texto de desabafo. É de vitória. De apoio. As batalhas podem ser vencidas. Não desista quando te dizem que tem 0,01% de chances. 0,01% é mais do que suficiente para lutar. E a bagagem carregada e força que você adquire com a vitória, sem dúvidas, não tem preço.


Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate..
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