vitrola cultural

Um pouco sobre arte, design, literatura e passado

Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate.

Sobre sonhos incompletos, depressão na juventude e suicídio

Depressão é uma doença, uma patologia e precisa de atenção, ajuda e tratamento. Além do pesar infinito, que fica no coração de todos que perdem quem amam e estão divididos, metade por aqui enquanto o coração atravessa a barreira com a pessoa, isso nos leva a refletir sobre o mundo e o que estamos fazendo com ele e conosco. Sabemos que o mundo é cruel. Repleto de dor, sofrimento, mágoas, privações. Mas creio que todos nós temos uma missão de melhorá-lo, ainda que seja para apenas uma pessoa por vez, ajudando-a, ouvindo e estendendo a mão. Penso sobre como podemos ser egoístas com frequência, perseguindo nossos objetivos e falhando na missão nobre infinita de ser a luz de alguém. É uma reflexão. Sobre o que realmente importa. Sobre mudarmos nossa forma de agir e transformar o pesar da perda das pessoas que amamos, em algo que nos motiva a ajudar verdadeiramente quem nos cerca.


Pensei em vários textos de reestreia, um retorno tardio às páginas escritas, mas jamais imaginei um tema tão sombrio. Porém ele foi escancarado visceralmente frente a mim, neste fim de semana, com uma perda repentina. Uma mulher, tão menina, ainda começando a percorrer os caminhos da vida. Sua desistência de continuar a segui-lo. Sua perda do “tesão” pela vida, tão indispensável na juventude. O cansaço pela limitação que este mundo impunha, em sua mente, talento e coração ilimitados. Foi deixado para trás um bilhete vago, um corpo pequeno e muita dor.

Além do pesar infinito, que fica no coração de todos que amam e estão divididos, metade por aqui enquanto o coração atravessa a barreira com a pessoa, isso nos leva a refletir sobre o mundo e o que estamos fazendo com ele e conosco. Sabemos que o mundo é cruel. Repleto de dor, sofrimento, mágoas, privações. Mas creio que todos nós temos uma missão de melhorá-lo, ainda que seja para apenas uma pessoa por vez. Penso sobre como podemos ser egoístas com frequência, perseguindo nossos objetivos e falhando na missão nobre infinita de ser a luz de alguém. Enquanto nossos rostos estão presos nas telas de nossos smartfones, focados em uma rotina comum, material e em nosso próprio amargor, há inúmeras pessoas precisando de uma palavra de motivação, um sorriso, um toque na mão. Não é questão de a gente se culpar, não se trata de achar culpados, embora seja parte natural no luto. É uma reflexão. Sobre o que realmente importa. Sobre mudarmos nossa forma de agir e transformar o pesar da perda das pessoas que amamos, em algo que nos motiva a ajudar quem nos cerca. Nós, que compartilhamos de alguma espécie de talento artístico, temos uma sensibilidade mais apurada. Deveríamos, conhecendo a confusão em torno dessa vida a flor da pele, tentar apoiar-nos uns aos outros, dividir o fardo da intensidade. Unirmo-nos mais contra um mundo que tenta cortar nossas asas.

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Este texto é desabafo, reflexão e dor, com um pouco de poesia. Mas também é tentativa de conscientizar. Mesmo sem querer tratar de algo fora do amor, mas sentindo o peso da necessidade, aqui baterei na tecla da importância de saber separar crenças religiosas de certas situações de nossa vida terrena. Conciliar as coisas, da maneira que devem ser dispostas. A religião deve servir como apoio, motivação, esperança. Nunca, em hipótese alguma, deve ser usada como um irrevogável diploma de juiz, que faz com que as pessoas se sintam com o poder de apontar seus dedos ao próximo, julgar quem vai ou não para o Inferno, quem merece bênçãos e quem as desmerece. Deve, ainda menos, ser usada como banalizador de patologias. A depressão é uma patologia. Uma doença como qualquer outra. Não há culpados, nem é tratável sem profissionais e remédios. Dizer a uma pessoa depressiva que “falta Deus no coração dela” é doentio, absurdo, cruel e culpabilizador. E perigoso de tantas formas. Vamos buscar no conhecimento um guia. E na religião, se quisermos, o amor e a luz para ajudar a quem precisa.

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Agora falo diretamente contigo, Mi. Você tem dado voltas em minha cabeça, e está em cada pensamento que tenho, desde o ocorrido. Menina dos olhos estrelados, galáxia pura, cheios de profundidade. Filha de saturno, irmã das estrelas, pedaço de um todo, criança do universo. Tinha sempre uma palavra de incentivo para que as pessoas não desistissem dos sonhos, e um otimismo aparentemente grandioso. Como a gente poderia saber que você desistiria dos seus, tão planejados, em minúcias, como você sempre costumava fazer? Ficaram questionamentos, medos, e incertezas por aqui. Mas, muito além disso, mesmo em sua curta vida, deixou marcas coloridas em todos que a cercaram. Você nadava em uma fonte de cores, luzes, sonhos.

E sempre levou isso a qualquer um que se esbarrasse em sua estrada curta e, ainda assim, infinita. Mesmo suas frases mais curtas, como um comentário sobre a raridade das rosas azuis, estão fixados nas mentes e corações de todos nós. É algo que pouquíssimas pessoas podem dizer haver deixado, mesmo em vidas imensamente longas. Você é uma rosa azul. A mais única de todas. Salpicada com estrelas brilhantes e de variadas formas. Não há um só alguém que tenha cruzado seu caminho, que não sentiu sua perda, um rombo de cinza, nas cores da vida. Por você houve um cortejo de soluços, lágrimas e lamentos. Sobretudo saudades. Em alguns corações, a dor ultrapassava o consolo de lágrimas, e o que sobrava era um rosto seco e com expressão de constante incredulidade. É o seu legado. Faz parte do seu show, menina linda. Esse mundo era pequeno, medíocre e limitado demais para ter você por muito tempo.

A alma de artista neste mundo amargo é cheia de percalços, como dizia o grande Cazuza, em uma das tantas canções que agora me lembram você: ser artista no nosso convívio, pelo inferno e céu de todo dia, pra poesia que a gente não vive transformar o tédio em melodia. Foi o que você fez. Via poesia em tudo e com suas mágicas fotos de coisas simples iluminadas pelo seu dom, transmitia um pedaço dessas sensações resultantes de sua maneira única de ver a vida, para todos os outros. Você, cheia de talento, inteligência, sensibilidade e sua mania de ver corações em topos de árvores e se sentir frustrada por não conseguir enxergar todo o universo a olho nu. Agora, pequena, você pode.


Jannine Dias

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate..
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