vitrola cultural

Um pouco sobre arte, design, literatura e passado

Jannine Dias

Designer gráfico e arista obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate.

FRIDA KAHLO: E A COBRANÇA POR UM ÍCONE

Uma crítica por um viés feminista em torno de nossas cobranças insistentes em cima de outras mulheres consideradas "ícones" de nosso próprio movimento.


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Muitos textos e homenagens sobre Frida Kahlo já foram escritos, em inúmeras plataformas. Eu poderia aqui enaltecer quem ela foi, suas dores, intensidade de sua entrega, todas suas lutas políticas, ou até mesmo a arte atemporal e icônica. Porém prefiro falar sobre algo que venho presenciando na internet, e que vêm movimentando-se diante da popularidade de seus feitos: Um endeusamento e uma cobrança constante por uma perfeição inalcançável dos que são “eleitos” ícones de qualquer movimento ou grupo, nos dias atuais.

Falo aqui sobre Frida com propriedade. Como mulher e artista que sou. Mulher de esquerda, pobre, que conheceu o feminismo e se apaixonou por sua história. Uma mulher que conheceu Frida bem cedo, nos entremeados de uma escola pública comum e em tempos de recreio gastos em uma biblioteca escolar precária com livros doados empoeirados. Eu era uma criança completamente encantada pelo México e tudo que o envolvia: as cores, a cultura como um todo, lendas, novelas... como uma apaixonada pela arte desde pequena, lá vibrava minha inspiração. Inicialmente a nacionalidade da Frida foi mais um impulso para amá-la. Sua história de vida e obras, um ainda maior. Para uma menina que sonha com a arte, ver uma mulher que marcou gerações com a sua obra é como respirar o alívio da esperança.

Cresci, cada vez mais enamorada da Artista, porque quanto mais lia sobre sua história podia compreendê-la, como mulher, e para mim era um conforto ver suas falhas, tornava-a, ao meu ver, mais acessível, mais humana. Uma mulher mais próxima da mulher que eu estava me tornando. Um acidente posterior me fez compreender suas dores, e meus sentimentos ao riscar minha arte me conectou ainda mais com a arte que nela residia. Com o acesso à internet, passei a vê-la em estampas, fóruns, logotipos, grupos e páginas feministas em que comecei a participar para me sentir incluída em minhas convicções de mulher independente. Me sentia acolhida pelo movimento, amada e envolvida pelo sentimento mais lindo de irmandade que já havia experimentado. Claro que havia atrito, afinal todas éramos mulheres em desconstrução, aprendendo a conviver sem rivalidade, e como geralmente acontece em base cultural, sempre haviam as mais evoluídas no processo e as menos adiantadas, as que corrigiam, ajudavam, e as que aprendiam.

Foi então que comecei a presenciar quieta, o fenômeno endeusamento e exigência que qualquer pessoa com voz no feminismo vêm enfrentando atualmente, dentro de nosso próprio movimento. Tantos anos após a morte de Frida novas cobranças foram atiradas em cima da artista, mas dessa vez com questionamentos e minimização de suas conquistas, protestavam que a mesma não teria desafiado o patriarcado “o suficiente” para merecer “o posto”. Cada vez mais vozes nesses grupos e páginas de mulheres empoderadas, surgiram com críticas bem fortes à artista. Não necessariamente críticas e sim julgamentos fervorosos. Comentários que colocavam em cheque sua importância para o mundo como mulher, menosprezava seus feitos em detrimento de suas falhas, que diziam sempre, “não sei o que tanto falam dessa Frida”. Pessoas que resumiam todo o seu processo de enfrentamento a “vestir roupas consideradas masculinas ou cortar o cabelo”.

Chocada eu via mulheres apontando dedo para seu estilo de vida, questionando sua bissexualidade, sua postura, seus relacionamentos. Repentinamente, em cima de um pedestal de razão, tudo que ela conquistou e representava era insignificante, diante de um crime tão grande como ter estado dentro de um relacionamento considerado abusivo (Diego Rivera), ou pelo fato de ter como amantes as amantes do marido. De repente Frida era só uma mulher triste, infeliz, heterossexual e amarga que tentava vingar-se do marido. O posicionamento foi ganhando voz em cada novo post sobre a artista. Cabe aqui, ao meu ver, um questionamento que devemos ter dentro de nosso próprio grupo, cuja a rivalidade feminina insiste em embrenhar-se nas frestas e nos contamina, sem que cheguemos a perceber. Porque somos tão exigentes com outras mulheres? Porque elegemos um “ícone”, e exigimos dela um exemplo de perfeição e força que nem nós mesmas temos?

Novata em grupos, buscando compreender minhas próprias limitações e considerando meu conhecimento feminista, pequeno ainda na época, não me sentia bem o suficiente para levantar o questionamento. Hoje em dia, depois de muitos livros e estudos sociológicos, me sinto segura para levantar essa pauta em uma plataforma mais ampla que um grupo de Facebook, para que mais mulheres, dentro ou fora do feminismo, possam se perguntar a razão de ser tão fácil julgar e cobrar posicionamentos perfeitos de outras mulheres. É uma abertura de diálogo que acho imensamente necessária dentro de nosso meio mesmo. O que vemos não são apenas comentários que criticam certos defeitos de artistas ou filósofas admiradas por outras mulheres ou pela sociedade, e sim uma espécie de validação de tê-las como “ícone”, que sempre acabamos levantando sem nem mesmo perceber. Críticas são necessárias. Mas até que ponto devemos cobrar validação do trabalho de outras mulheres, com tanta exigência? Fazer análises minuciosas de seus comportamentos, ou diminuir suas conquistas por algum deslize que cometerem? Sabemos melhor do que ninguém a luta diária que temos de enfrentar contra o patriarcado, que nos empurra umas contra as outras, que nos faz disputar incessantemente um posto de melhor mulher, acima de nossas irmãs. Será que não cabe a nós, antes de seguir o instinto apontar o dedo para uma mulher quando a mesma se destaca, olharmos para nós mesmas e exercitar um pouco da empatia. Afinal, se eu não gosto da postura de outra mulher, o que estou fazendo para ter a postura que tenho julgado ideal? O que estou fazendo para deixar a minha marca no mundo? Quando começarmos a olhar com mais carinho para as outras, nos colocando no lugar delas, e cobrando nosso posicionamento com o mesmo afinco que cobramos das outras, possivelmente encontraremos aí o melhor caminho para nos tornarmos mulheres mais livres.


Jannine Dias

Designer gráfico e arista obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate..
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