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O que toca nos fones de Amanda Melo

Amanda Melo

Belo Horizontina, 26.
Nutricionista por formação, amante da arte, adora escrever e conversar sobre arte. Especialmente sobre música. Especialmente a brasileira.

Você conhece a música do seu país?

Há anos ouço no meu programa de rádio preferido a pergunta "Quais os três discos de música brasileira que você não dá, não vende e não empresta?" e há anos eu ouço respostas muito parecidas, às vezes até iguais. Por causa disso comecei a pensar quais são os discos e artistas da música brasileira que eu efetivamente CONHEÇO e AMO. Essas questões me fizeram pensar muito a respeito da cena musical e descobri que a maior parte desta cena eu desconhecia completamente. Por quê? Porque a gente se acomoda e quer dar a resposta certa e imperativa em vez de uma resposta que gere outras perguntas. Tais como "Quem é esse? De quem é esse disco? Por quê eu não conheço?" e assim mover a arte que nos move.


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Há meses venho me perguntando isso. Eu conheço a música brasileira? Num programa de rádio que ouço há anos o apresentador sempre pergunta aos convidados “quais os três discos de música brasileira que você não dá, não vende e não empresta?”, alguns mais relapsos respondem prontamente “Abbey Road, dos Beatles...” e o apresentador ressalta “de música BRASILEIRA! Tem que ser BRASILEIRA!” e aí vêm as máximas, né: “O Milagre dos Peixes, Clube da Esquina, O disco do Tênis, Transa, Carioca...” No começo eu achava legal, ficava pensando quais seriam os três discos de música brasileira eu diria!

É inerente pensar nos grandes nomes da nossa música! Além de uma excelente resposta, discos e artistas consagrados trazem um quê de CULT. Até porque alguém que ouve Elis Regina só pode ser uma pessoa sensata. Não dá pra discordar. Mas depois de ouvir diariamente não sei quantas respostas quase idênticas de pessoas bem diferentes fiquei um pouco cansada. Algumas vezes eu até apostava e respondia antes do convidado “ele vai falar um do Chico, um do Caetano e um do Milton”. Nem te conto a frequência de acertos.

Daí em diante comecei a me questionar quem, ou que trabalhos, na verdade, eu conhecia dentro da música brasileira. E para a minha vergonha, apenas os grandes nomes se apresentaram. Não há vergonha nos grandes nomes! Pelo amor de Deus! Artistas e discos consagrados merecem todo o reconhecimento do mundo, merecem ser passados por gerações, estudados e prestigiados. Mas a gente acaba se assentando na poltrona da comodidade e da resposta certa garantida em vez de se questionar e pensar a respeito. Clube da Esquina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Elis Regina e gente desse nível de responsabilidade têm e terão sempre um lugar cativo no Hall de Melhores da Música Brasileira. Mas o hall é bem grande, cabe muito mais gente. Resumir a música do Brasil a eles é subestimar até os trabalhos (especialmente os que virão) desses mesmos artistas.

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Assim comecei a garimpar trabalhos e artistas em Belo Horizonte. Me extasiei ouvindo e vendo a qualidade do trabalho, a simplicidade do artista. E não somente de quem estava no palco, mas dos que, assentados por todo o lado, foram prestigiar a cena e o amigo. Isso, senhoras e senhores, é ser plenamente um artista. De show em show, trabalho a trabalho, eu me apaixonei pela cena da música mineira. Eu tenho muito orgulho dos nossos artistas, dos trabalhos e projetos que eles têm desenvolvido neste tempo. E quem vai dizer que não são trabalhos à altura de nossos grandes nomes? Você precisa ouvir! Marcos Frederico, Carlos Walter, Thiago Delegado, Pedro Morais, Cobra Coral, Lucas Avelar, Odilara, Carol Serdeira, Eduardo Pio, Ana Cristina, Coletivo A.N.A e tantos outros nomes absolutamente sensacionais da cena mineira que não poderiam nunca deixar de sorrir nas molduras do Hall de Melhores da Música Brasileira.

E da cena mineira à paulistana foi um pulo, quase um passo. E daí em diante eu quero mais é dominar o mundo! Por quê não? Eu não ainda conheço a cena da música canadense, nem a chilena, nem a australiana ou a irlandesa. Ainda. E a cada hora mudam os nomes e a ordem da minha resposta para “Quais os três discos de música brasileira que você não dá, não vende e não empresta?”. Eu quero uma lista nova por minuto, um disco a mais todos os dias. Eu quero onze discos na MINHA lista dos três melhores. Por quê não? Por quê resumir o suprassumo do que o meu país pode produzir a meia dúzia de artistas (apesar de excelentes e brilhantes)? Há uma diversidade enorme de excelência a cada esquina, a cada casa noturna, a cada projeto, a cada lei de incentivo e um trilhão a mais sem lei de incentivo. Não me obrigue a reduzir um país continental numa ilha de Caras. Não resuma todo o potencial do seu país, da sua região ao que te faz bonito na resposta. Procure os artistas que você já ouviu falar mas nunca ouviu tocar, ouça e depois ouça de novo, dê novas chances. Não à música, mas a si. Conheça a arte do seu povo e a cada métrica você vai se descobrir um pouco mais.

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Amanda Melo

Belo Horizontina, 26. Nutricionista por formação, amante da arte, adora escrever e conversar sobre arte. Especialmente sobre música. Especialmente a brasileira..
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