viver É escapar

Sementes pelo caminho, arado pela (sobre)vivência

Marcus Vinícius Gabriel

Não adianta temperar, se você não conhecer a combinação dos ingredientes

A filosofia silvestre de Rocky e Rambo: o homem em sua sobrevivência mítica

Sylvester Stallone fornece ao homem a expressão real do mito, a supremacia moral. Com Rocky e Rambo, encontramos existências que precedem às essências. Ambos tornam-se parábolas de sobrevida, em um universo efêmero, simulado e disperso por esquizofrenias continuadamente predatórias


rocky and rambo1.jpg Míticos, Rocky e Rambo são parábolas da resiliência predatória

David Morrell, escritor canadense, publicou em 1972 seu primeiro romance de ação, “First Blood”, que serviu de projeção para a elevação de John Rambo ao cinema. É considerado o “pai” do personagem consagrado na carreira de Sylvester (“Sly”) Stallone, que iniciou a dinastia em 1982. Por quatro edições, John Rambo tornou-se um fetich movie. Seis anos antes, em 1976, Stallone criou Rocky Balboa, outro ícone nacionalista norte-americano e que rodou por seis sequências. Ao contrário das especificações no gênero de ação, as duas obras podem ser observadas como dramas sutilmente filosóficos. Há mais contexto humano do que apenas socos, tiros e sangue nas duas construções. John Rambo e Rocky Balboa são arquétipos existencialistas, fenomenológicos e humanistas. É o homem sobrevivente em suas respectivas selvas ideológicas. Cada qual em vorazes guerras fragmentais.

A compreensão de Stallone como ator é relativa, para o bem e para o mal. Mas é inegável que sua constituição como roteirista e diretor seja passível de grandes feitos à sétima arte. Autônomo e intuitivo, a história de vida de Sly é um compêndio de realidades informais, que culminaram com seu destino em Hollywood. Vestir-se de Rambo e Rocky são viagens ao ego, inflamado pela necessidade de viver a tônica dos desafios diários, dentre os quais, as discriminações sociais.

Rocky e a criança eterna

Em entrevista a Rolling Stone, em 2007, Sly afirmou “querer ser mais parecido com Rocky”. Admite a relação simbólica entre o lutador e a própria vida, nos reveses e consolidações. O boxe é uma metáfora entre sucessos e fracassos. Sua linguagem expõe ilusões em realidades subjetivas. Jabs certeiros de hoje podem ser recebidos amanhã. Viver é desviar-se de nocautes, protegendo a “guarda”.

Cita a “criança madura”, internalizada: “Ao nos tornarmos adultos, as pessoas dizem-nos para agirmos e pensarmos como homens, mas ainda há um lado infantil nosso que precisa revelar-se. Rocky nada mais é que uma criança grande e inocente, que diz o que lhe vem à cabeça. Por isso não é uma ameaça a ninguém. Pensei nisso quando o escrevi, espécie de contradição ambulante. Por fora, é esse lutador violento. Por dentro, mole como manteiga. A única coisa que realmente quer é ser amado.”

Em “Rocky Balboa” (2006), sexto da dinastia, Robert “Rocky” Balboa, 59, está viúvo (a enigmática esposa Adrian Pennino falecera de câncer, em 2002) e não convive com o filho, Robert Jr. Seu pilar mais próximo é o cunhado Paulie Pennino, excêntrico e eterno incomodado com a própria vida, mas leal aos ideais do lutador. A relação de ambos exemplifica a simbiose de dois homens que desafiam a solidão e o ostracismo, além das penúrias do envelhecimento. Há questões emblemáticas, em uma película dramaticamente sensível. Ao ser questionado sobre o novo desafio no ringue (enfrenta o atual campeão Mason Dixon, 25 anos mais jovem e menos idolatrado nos EUA), Balboa brada: “Prefiro me arriscar fazendo algo que gosto perdidamente, que sentir-me perdido por não fazer o que amo”. Admite haver uma ‘fera’ viva interna, que o instiga ao desafio.

Contrariado pelo filho, que declara desconfiança ao pai, ante a fragilidade da relação de anos, Rocky desafia-se como em um ringue. É um dos momentos consolidados do drama. Junior antevê um fracasso do pai e possível comprometimento de suas imagens social e profissional. Rocky recebe o primeiro gancho de direita, com a reprovação do filho. Reage em seguida, com o nocaute e knockdown (queda na lona, após um golpe fatal): “Quando as coisas vão mal, você procura alguém para culpar, como se fosse uma sombra. O mundo não é um arco-íris e um amanhecer. Na verdade, é um lugar ruim e asqueroso. Não importa o quão durão você seja, apanhará e ficará de joelhos, se assim permitir. Nem você, nem ninguém baterá tão forte quanto a própria vida. Não importa o quão forte você golpeia, mas sim quantos golpes você aguenta levar e continuar em frente, no muito que possa aceitar e seguir adiante. Assim é a vida, filho.”

rocky4.jpg Cena emblemática de "Rocky Balboa": combates e redenções paternas

No dia seguinte, Robert regenera sua resistência e resolve apoiar o pai. É a primeira vitória. Com ele, Rocky constrói sua colcha de apoiadores (Paulie, o treinador Duke, a nova amiga “pequena Marie” e seu filho, Steps). Carrega Adrian espiritualmente. O combate com Dixon é duro e cortante; Rocky cai várias vezes, esfacela a face. Ambos penitenciam-se por 10 rounds. Rocky perde por um ponto, mas sai vitorioso, consolidado, ovacionado da arena. Metaforiza ao mundo que a vida independe da idade ou estágio sensor, mas da coragem em fazê-la ter sentidos. Robert diz ao pai que “foi a melhor coisa que já viu na vida”, ao vê-lo resistir em sua honra.

Hiperrealista, a última saga do lutador impõe respeito aos limites, às diferenças e perdas pessoais, à voz da alma, às necessidades do organismo, ao preparo emocional, à própria existência determinando a essência. As vicissitudes de Rocky Balboa enfatizam o jogo da vida: “A última coisa que envelhece é o coração.”

Dezesseis anos antes, em “Rocky 5” (1990), talvez o menos impactante da saga, Balboa subtrai o medo como inimigo moral da persistência: “O medo é como o fogo, ele queima você por dentro. Se você controlá-lo, vai queimar você. Se ele o controlar, vai queimar você e tudo ao seu redor”. Martin Heidegger, filósofo existencialista, nos diz que o medo convida a viver na impropriedade. “Não atribui-se sentido próprio, deixa-se que os outros e as circunstâncias o atribuam. Aliena-se de si, vivendo entre corridas e distrações, em um sentido impróprio, que não aponta em direção alguma. Uma finalidade sem fim.”

rocky3.jpg Em "Rocky 2", na revanche contra Apollo: EUA contra os EUA

“Rocky 2” (1979) proclamou o auge da série. Buscando alternativas para sobreviver, enfrenta entrevista de emprego. Protelado pelo analisador sobre as dificuldades em conseguir a vaga e recomendado em voltar a lutar, diz: “Já levou 500 socos na cara em uma noite só? Depois de um tempo começa a doer”. Prestes ao dramático combate-revanche com Apollo Creed, destila autoconhecimentos: “Sou um boxeador. Talvez ruim, mas é o que eu sou”. Mickey Goldmill, o mítico treinador, motiva-o para que “tire o não posso de seu vocabulário”. Cabe à própria necessidade latente do organismo vivo sua exacerbação. O direto a ser quem se é, na medida e proporção de sua tara desafiadora.

Adrian sai da casca inibitória em “Rocky 3” (1982) e torna-se o alterego de Rocky, que perde Mickey para a morte. A depressão entra em cena. Apollo Creed, derrotado na revanche anterior, agora alia-se a Rocky, como segundo pilar de sustentação psíquica. O que antes era adversário, agora é parceiro. A voz de Adrian adentra a mente de Rocky, desta vez ao perder o combate: “Quando a fumaça se dissipar e pararem de gritar o seu nome, seremos só nós dois. Mas você não poderá viver com isso. Nós não poderemos viver, pois te incomodará pelo resto da vida”. A guerra fria entre EUA e União Soviética é a matriz de “Rocky 4” (1985), em plena era Reagan. “Talvez eu não possa vencê-lo (referindo-se a Ivan Drago, lutador soviético). Talvez a única coisa que eu possa fazer é levar tudo na cara. Mas, para eu vencê-lo, ele terá que me matar e ter a coragem de ficar diante de mim. Para fazer isso, deve estar disposto a morrer também”, diz a Apollo, em plena metáfora sobre a supremacia dos dois países.

rocky2.jpg O punho cerrado de Rocky: luta pela vitória ou gesto comunista?

Schopenhauer salienta-nos que, quanto mais elevado é o espírito do homem, mais ele sofre. “A vida não é mais do que uma luta pela existência, com a certeza de sermos vencidos. É uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em horrível carnificina os restos da presa. A vida é uma história de dor, que se resume assim: sem motivo, queremos sofrer e lutar sempre, morrer logo e assim consecutivamente, durante séculos dos séculos, até que a Terra se desfaça”. Por exatos 30 anos, Rocky Balboa manteve intacta sua resiliência. Generoso e cordial, reservado e humilde, fez do mítico lutador um infanto coração valente. Do boxe, sua essência; da alma, sua luva; da vida, sua verdade. "A fera agora está livre", desabafa a Paulie.

Rambo e as fronteiras psíquicas

Assim como Rocky, John James Rambo é outra vertente existencialista, aos moldes da cultura militar norte-americana. Seu arquétipo reconstitui a figura do super-homem real, exposto a conflitos sordidamente humanos em que inteligência, perspicácia e criatividades são ajustamentos do organismo incendiado. No final dos anos 60, Morrell, em Ontário (Canadá), presenciava estudantes que retornaram do Vietnã e suas dificuldades de adaptação à vida civil, entre pesadelos, insônias, depressões, dificuldades em relacionamentos, transtornos de estresse pós-traumático. Em 1972, resolveu criar um personagem veterano da guerra, por conter elementos agonizantes da espécie. Diz a lenda que o batismo de Rambo contém a mesma sonoridade de “rumble”, tipo de encrenca ou complicações.

ramboIII.jpg A relação paternal entre coronel Trautman e Rambo: referências afetivas

Morrell cita influências diretas vindas do poeta francês Arthur Rimbaud (1854 – 1891), autor de “Temporada no Inferno” (1873), obra que assimila a tragédia humana às atribuições de sobrevivência sobre as dores da alma e aflições existenciais. No romance, Rambo estava composto, nascido em descendências indígena e italiana, em 1947. Alista-se ao exército americano aos 17 anos, de onde parte para o Vietnã aos 22. Capturado, sofre torturas diversas por 3 anos, fugindo do cativeiro em seguida. De volta aos EUA, por indulgências da sociedade, que discriminava soldados de volta ao país, conviveu com pressões interna e externa, originando transtornos de personalidade. Vaga por estradas, como andarilho desorientado, já observado em “Rambo - First Blood” (1982). Rambo morre, ao contrário da película, em que Sly dá sequências ao inferno do combatente em sua missão escatológica.

Rambo encarna o próprio americanismo, que não rende-se às custas do efêmero e reinventa-se da finitude. Diferente a Rocky, a luta de Rambo evidencia o homem insólito embalsamado por conflitos mentais na selva da obscuridade. No entanto, em ambos a relação sólida com a manutenção dos ideais e princípios humanos incorruptíveis. Em depoimentos, Stallone diz que Rambo representa todos os homens, cujas vozes não são ouvidas e fragmentam-se em vazios. As angústias, analisa Heidegger, são a disposição fundamental que nos impõe ante ao nada. “A controvérsia e os desafios expedem a real medida do homem, não em situações de conforto ou conveniência."

rambo6.jpg "Rambo 4" (2008): marcas e expressões de um universo em desencanto

Sly imprimiu forças sobrenaturais a Rambo. Hiperrealista, incorporou uma assombrosa e mortal fábrica de extermínio de inimigos (os próprios conflitos existenciais). Em “Rambo 2” (1985), após mitigar ações de captura de presos no Vietnã, o paternal coronel Samuel Trautman indaga sobre como viverá agora: “Dia a dia”, diz.

A quarta amostra da saga é, de longe, a mais sangrenta e visceral. Concentra um introspectivo Rambo aos 61 anos, isolado nas fantasmagóricas entranhas de Myammar, Birmânia. Em meio ao inferno proposto, diz a um oponente, com a faca na jugular: “Você sabe quem é e do que você é feito. A guerra está no seu sangue e não tente evitá-la. Você não matou pelo seu país, mas por você mesmo. Nem Deus consegue mudar isso. Quando te pressionam, matar é tão fácil quanto respirar. É isso o que fazemos. Viver por nada ou morrer por alguma coisa.”

Rambo 2.jpg Cena emblemática de "Rambo 3": nos moldes da crucificação de Cristo

Cabe-nos o pensamento de Sartre, onde “o importante não é aquilo que fazem de nós (a guerra), mas o que fazemos do que fizeram (o exército) de nós”. “A pior guerra é a que está dentro de você”, contemporiza John James Rambo.

Schopenhauer exalta a tragicômica experiência da vida: “As aspirações iludidas, as ilusões desfeitas, os esforços baldados, os erros que completam nossa vida, as dores que se acumulam até terminar na morte, o último ato, eis a tragédia. Parece que o destino quis juntar o escárnio ao desespero e, fazendo de nossa vida uma tragédia, não nos permite conservar a dignidade de uma personagem trágica. Por isso é que em todos os atos da vida representamos o lamentável papel de cômicos.”

Rocky e Rambo são os homens abstratos que lutamos, incessantemente (em delírio), para ser: crianças eternas e soldados dos livres sonhos.


Marcus Vinícius Gabriel

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