viver É escapar

Sementes pelo caminho, arado pela (sobre)vivência

Marcus Vinícius Gabriel

Não adianta temperar, se você não conhecer a combinação dos ingredientes

Felicidade: gozo múltiplo ou alucinógeno viral?

Adocicada pelo marketing, a felicidade no mundo moderno quer você como protagonista. Tida como o maior dos projetos de vida, sua busca incessante esbarra em questionamentos pontuais: jogo de ilusões ou o sentido de existir?


pharrell-happy-video-600x337.jpg Williams e o hit do ano: vamos celebrar a felicidade de todas as nações

Felicidade vem do latim felix, felicitas. Significa fecundidade, produtividade, ventura, sorte. Happiness vem de happ e indica acaso. Na sociedade, desde o berço da civilização grega, seu significado abraçou horizontes voltados ao bel-prazer, conquistas e contemplações do ser, sempre como objeto de desejo e prioridades individuais. Em dias atuais, funciona como sustentáculo de projetos de vida, sonhos, metas e caminhos integrados.

Pesquisa recente, publicada no Brasil, aponta que 80% dos brasileiros entrevistados declaram-se ‘felizes ou muito felizes’; 66% acreditam que a vida melhorou em 2014. Destes, 57% dizem que a felicidade viria com mais dinheiro; 35%, a um melhor trabalho; o restante, em viagens e moradia. O Instituto Gallup coloca o Brasil como país de maior felicidade futura do mundo, entre 138 avaliados. De qualquer modo ou medida, debater sobre felicidade geram imbróglios, discussões e polêmicas, visto que sua associação está diretamente lincada a prazeres e sofrimentos, partidários e contrários - de onde me enquadro.

surto.jpg Relações grupais: extensão de sentimentos ou influências de prazeres?

Em “Felicidade – Uma História” (2006), Darrin McMahon traça a linha histórica sobre a felicidade, o que a torna policultural. Na Grécia antiga, pregava-se uma vida feliz somente após à morte. Já, na Grécia socrática, o cultivo às virtudes, talhado somente por homens sábios, transportava às sensações de plenitude: algo reservado aos deuses. O cristianismo projetou sofrimento e pecado neste plano; a redenção e estado pleno de felicidade somente por mérito, no ‘reino de Deus’. Diderot (século 18) prega, no Iluminismo, a associação entre prazer e felicidade, como um ‘direito do homem’. McMahon faz críticas ao consumismo do mundo moderno, que contribuiu para deturpar o conceito real de felicidade. “Os gregos não associavam a ideia de felicidade a um rosto sorridente”, diz. Projetar a vida em meio a virtudes, como defendia Aristóteles, era o nexo causal.

Na atualidade, a felicidade caminha sob estudos, entre dogmas, doutrinas e no calço da ciência. Hipervalorizada socialmente, tornou-se menina dos olhos de campanhas de marketing, de pretextos cinematográficos, suporte institucional de mídias e, claro, enredo de uma grande e idealizada história de amor eterno. A felicidade brota em qualquer canto. A ideia de mundo fixa-se no princípio do sentido das coisas, que favorecem-se pela velocidade com que as sensações subjetivas ou abstratas são propagadas e facilmente absorvidas.

O entendimento sobre a felicidade passa, inicialmente, sobre a compreensão do homem, seu papel, existência, essência, vida, morte, prazeres e sofreres. Somos perseguidos pela necessidade de combater o mal, incorporado em qualquer penitência. No entanto, em uma atmosfera material, vulnerável e com prazo de validade, sofrer é uma sabedoria para a evolução. Entendamos o processo: com os dias e noites, o homem nunca é o mesmo, diariamente, assim como um rio que passa. As instabilidades são reais. Com isso, lançamo-nos às angústias presumíveis, mas que preservam duas sabedorias: a dor e o aprendizado. Intensa, manifesta-se para ‘dizer algo’ ao organismo. É um mecanismo de defesa. No entanto, a disposição em aprender com o sofrimento é uma escolha flexível no homem. Caberá aceitá-la ou não. Viver pela dor somente, ou além dela.

Aprender com o sofrer é um desafio contemporâneo, visto que na sociedade de consumo há pouca inclinação em fazê-lo. Logo, o sofrimento é visto (distorcidamente) como intruso, ladrão de felicidade, monstruoso. Sofrer é uma lei natural. Em contraponto, temos o prazer e suas variantes superlativas. O comportamento do homem gira em torno das sensações vividas e todo prazer gera satisfação. São retalhos hedonísticos. Chamamos de felicidade tal junção o que, em essência, será somente prazer e satisfação.

140703-japan-tsunami-quake-cover-1316_4c6fb79a26fdf7b7637a59429f80a842.jpg Desolada, mulher senta à beira de destroços, após tsunami no Japão, em 2011

Observemos as diversidades cultural, religiosa, étnica, econômica e social de vários povos dimensionados na Terra. Há fome, catástrofes, tragédias, corrupções, doenças, violências generalizadas, condições subumanas de vida. Como compactuar o ideal de felicidade ante ao caos? Não há como concebê-la a alguns e a outros, não. Ou pratica-se integralmente, sem distinções, ou desmantela-se nos sentidos. Felicidade não privilegia, embora tempera-se a individualidade com doses de egolatria. Trazer, para si, o ideal de felicidade como parâmetro existencial é um sacrilégio com a própria evolução espiritual. Se várias pessoas sofrem (por questões impostas à sobrevivência), outras gozam, sorriem, extasiam-se, contemplam prazeres; somente prazeres.

No entanto, o prazer é refém do tempo (outra sabedoria). Tem início, meio e fim, muitas vezes instantâneos. Sanear a ideia de felicidade é como construir castelos de areia em uma bela praia. Logo, sofrerá com os minutos e não haverá base de sustentação sólida. Mas permanece o sentido de satisfação, que alimenta o espírito do homem. Podemos estar gerenciando um erro de atribuição à felicidade do mundo moderno, partindo do ângulo em que a enxerga como tábua de salvações para as desilusões. Busca-se nesta ‘felicidade’ a pílula do prazer projetado. Automedica-se, com grandes possibilidades de abarcar frustrações em egos frágeis. Tempo, organismo e sofrimento não poupam esta pessoa. Observe: no Brasil, o consumo de antidepressivos e ansiolíticos é o maior do mundo na atualidade, segundo o IMS Health. Esta é a realidade. A frustração é real; a felicidade, o repuxo dela.

O homem vive, em média, 85 anos. Atinge o platô dos 35 aos 45 anos. Após os 50 anos, vê-se em luta constante com o tempo e a manutenção do equilíbrio orgânico. Mais cedo ou mais tarde, adentra ao campo do envelhecimento, senil ou senescente, havendo uma profusão de todas as suas expectativas reais. Convive com uma ‘ansiedade pré-morte’, dadas as incertezas que permeiam os mistérios da civilização. Guarda sua história, preserva a soma de momentos: as fotografias revelam. Começa uma longa caminhada aflitiva entre vida e morte.

Freud, em “Mal-estar da Civilização”, obra considerada transgressora na visão sociológica, cita a origem do sofrimento humano no próprio corpo, mundo externo e consequente relações interpessoais. Com a globalização, o homem vem torreando seu papel individual. Caminha só em uma galeria subterrânea de sentimentos. Adotou o carapuça competitiva e mantém-se influenciado pelo meio. Com isso, relaciona-se mais pela queda de outro homem do que, propriamente, por sua elevação. Não há, de fato, compaixão permanente que mantenha um ideal concreto de felicidade. “O homem está condenado a ser livre”, profetiza Sartre.

Na Bíblia, o termo aparece associado a alegria na alma. Eclesiastes (3:12) condiciona à prática do bem como caminhos da plenitude. Provérbios (3:13) vincula a sabedoria, entendimento e temor ao Senhor às pontes da felicidade. Em Atos (20:35), diz Jesus Cristo: “Há maior felicidade em dar do que em receber”. Oferta-se. Todo o processo é conduzido por trabalho e sacrifícios. Os prazeres advêm da natureza sensorial; a satisfação, da soma do todo, justificado pelo amadurecimento do homem em seu rito de passagem. O trabalho é e sempre será árduo.

Na música, Seu Jorge canta e questiona: “...o que faz você feliz? A lua, a praia, o mar, uma rua, um doce, uma dança, paixão, dormir cedo, comer chocolate, passear na cidade, o carro, o aumento, a casa, o trabalho, arroz com feijão, matar a saudade, goiabada com queijo, um amor, um desejo, um beijo na boca, um dia de sol, viver um romance, jogar futebol...”

Clarice Falcão compôs e canta a trilha sonora institucional de uma grande rede de varejo: “...o que faz você feliz? Você feliz, o que te faz? Você faz o que te faz feliz? O que te faz feliz, você que faz! E se a felicidade voa num balão, tão alto onde já não se enxerga mais, mas só ela pode lhe tirar do chão, pra ser feliz, o que você faz? A felicidade está por dentro, mas não vai sair no raio-X. Você provoca os próprios sentimentos e o que você faz pra ser feliz? Longe, perto, dentro, tanto faz. Quem quer felicidade corre atrás e, às vezes, ela está debaixo do seu nariz. O que você faz pra ser feliz?”

image_02.jpg O conceito "O que faz você feliz?" na publicidade: sorrir é lei

O americano Pharrell Williams criou “Happiness”, canção que tornou-se viral em pouco tempo no mundo todo. Seu clipe recebeu centenas de versões e paródias. Na letra, afirma: “Nada pode me colocar para baixo. Meu nível de felicidade é muito alto. Bata palmas junto, se sente que a felicidade é a verdade”. Vamos pensar.

No cinema, "À Procura da Felicidade" (2007) empreendeu lições que a própria vida cintila. O filme tornou-se um botão no imaginário das pessoas. Em meio a lutas incessantes pela sobrevivência, Christopher Gardner, personagem de Wil Smith, solta o último suspiro ao conquistar reconhecimentos: "Esta parte da minha vida, esta pequena parte, se chama felicidade”. Não faltou suor.

Com prazer e satisfação, agradeço sua leitura.


Marcus Vinícius Gabriel

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