viver É escapar

Sementes pelo caminho, arado pela (sobre)vivência

Marcus Vinícius Gabriel

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"Elastic Heart": o limite entre conflitos paternais e interpretações ilusórias

No clipe de "Elastic Heart", Sia Furler desafia prejulgamentos que enxergam a relação conflitiva-sexual entre um homem e uma adolescente. Perturbador e metafórico, o vídeo é um retrato da cantora e sua angustiante busca afetiva pelo amor do pai na infância, com dupla personalidade e excessos de vazios


Maddie Ziegler e Shia LaBeouf arquitetam a dança das metáforas, no clipe de “Elastic Heart”, da cantora australiana Sia Furler. Com a coleção de elementos ocultos na (in)tensa performance, vem sendo acusada de incitar à pedofilia e sexualização pré-púbere. Ao meu ver, equivocadamente. Há mais arte e delicadeza que, propriamente, um direcionamento inconsequente. No entanto, na defensiva e com o olho na sombra, a sociedade enxerga o que repudia sem conhecimento, sob qualquer alagamento moral. Compreende-se o alerta, o que não garante sua veracidade. O clipe e a canção revelam agruras presentes na memória de Sia, projetadas em Ziegler, exímia dançarina-mirim norte-americana de 12 anos. Por lucidez, torna-se necessário abranger os sentidos da cantora no aspecto histórico. A compreensão tende a ser menos rígida.

sia.JPG LaBeouf e Ziegler, na gaiola: pássaros aprisionados buscando a libertação

Em seu 6º álbum, o contemplativo “1.000 Forms For Fear” (mil maneiras de sentir medo), Sia propõe retorno ao tempo em que conflitos existenciais-afetivos reverberavam ao longe. Todo o processo de emancipação passava pela construção da própria identidade, entre vícios de álcool, maconha, antidepressivos e analgésicos, que a acompanharam por boa parte da vida. Abraçou a depressão, após à morte do namorado, atropelado em Londres, em 1998. Fora diagnosticada com transtorno bipolar. Ignorou, para refugiar-se em substâncias químicas. Escreveu uma carta de suicídio, em 2010.

sia1.jpg Aproximação: resgate afetivo e redenção de conflitos

Suas canções funcionam como autoanálise. Na infância, conviveu com a dupla personalidade do pai, Phil Colson, que alternava-se entre extremos. Na canção “Oh, Father”, composta por Madonna e Patrick Leonard em 1989, Sia a regravou como single em 2010, por identificar-se com a letra: “Você não pode me machucar agora. Afastei-me de você e nunca pensei que conseguiria. Você não pode fazer-me chorar, mas uma vez teve o poder. Nunca senti-me tão bem comigo mesma”. Madonna e Sia enfrentaram situações semelhantes nas relações paternas. Neste projeto é notório o escape de obscuridades que permearam sua mente e comportamento em quase toda existência. O medo é um broto que renasce no invisível do imaginário.

sia4.jpg Ziegler (Sia) sai do aprisionamento: entre grades e separações desencontradas

Sia renega a fama e o sucesso. Tímida e reclusa na maior parte do tempo, evita a exposição do show business e toda a glamurização. Compõe para vários nomes da música americana, como “Diamonds”, hit de Rihanna, onde precisou de 14 minutos para criá-lo. “Chandelier”, outra atual canção emblemática de Sia, é gêmea siamesa de “Diamonds”, dos timbres vocais à soturnidade. Recentemente, Beyoncé a referenciou como um “gênio”.

sia3.jpg Fúria e exaltação paterna: a fera psíquica enjaulada

Em “Elastic Heart”, lançada como single em 2013, a luz sobrevive ao caos: “Bem, tenho uma pele grossa e um coração elástico. Mas, sua lâmina pode ser muito afiada. Sou com um elástico, até que você puxe com muita força. Posso estourar, quando me aproximar. Você não me verá desmoronar, pois tenho um coração elástico”.

No vídeo, LaBeouf e Ziegler encontram-se no interior de uma gaiola. Ambos vestem trajes sumários, na cor da pele. Sugere uma “nudez” psíquica. A relação constrói-se pela interatividade da dança mímica expressionista. Rastejam-se de encontro, como em tentativas de aproximação desconexas. Ziegler obedece ao estereótipo da cantora: cabelos loiros, em corte chanel (blonde bob). A projeção púbere de Sia em Ziegler extrai do corpo manifestações de defesa, afetos e distanciamentos. LaBeouf é o arquétipo do pai e desfila suas perturbações na prisão mental. A relação é paterna e não sexual. Desafiada pela mídia, Sia Furler explicou-se repetidas vezes. Nega qualquer apologia à pedofilia.

sia2.jpg No colo do "pai", a filha envolve-se com a careta lúdica

Maddie Ziegler é um caso à parte. Estrela do reality show “Dance Moms”, exibe seu talento em uma coreografia perturbadora. Solo, é o elixir de “Chandelier”. Em nenhum destes, Sia aparece e deixa a cargo da menina sua criança interna. A mãe de Ziegler, Melissa Gisoni, endossou a participação da filha nas concepções de Sia Furler.

Insinuações que envolvam situações afetivo-sexuais de adultos e crianças não faltam em qualquer segmento social. Não configura-se nesta obra. Mesmo que, de certo modo, o olhar já esteja entorpecido de condenações.

sia and maddie.jpg Maddie Ziegler e Sia, durante pausa nas gravações do clipe de "Chandelier"


Marcus Vinícius Gabriel

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