weltanschauung

A resposta é 42

Pedro Cruz

Mestre em sociologia por aventura, aspirante a cinéfilo, fã da ironia cínica de Douglas Adams e pesquisador das subjetividades sociais.

Belém – Oslo, 31 de agosto: cidades e cenários, memórias e tempo

Quando a paisagem se torna coadjuvante, as relações se incrustam nos espaços mais cotidianos


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As metrópoles do século XXI são conglomerados indiferentes, que apenas de muito perto revelam um sujeito por trás das multidões amórficas. Ainda assim, o meio urbano se constrói como expressão de identidades e vivências, que a posteriori, incrustam-se em lembranças. E tal qual a memória, a paisagem onde as vivencias se desenvolvem – os prédios, praças, ruas, etc., – remanescem como fotografias em um álbum dinâmico.

Quando um filme tem por título o nome de uma cidade, essa correlação estreita entre espaço, relações e memórias é o mínimo que se espera. Em Oslo (31 de agosto), retrata-se a estória de Anders, em seu último dia de reabilitação contra o vício em drogas. Sua tentativa de recomeçar após a internação o conduz a uma caminhada difusa pelas ruas da capital norueguesa, indo de encontro a pessoas e lembranças marcantes.

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Cada rosto conhecido corresponde a uma memória, e cada memória se fixa em um lugar da cidade. Para ele, o tempo passou, e ele não viu o momento em que pessoas transformaram suas vidas – enquanto a paisagem remanesceu intacta, ampliando o choque da estranheza.

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O amigo de farras pretéritas hoje tem novas responsabilidades, mas o parque e ruelas por onde eles caminharam no passado são os mesmos. Amores fugidios de outrora hoje estão em compromissos sérios, e o apartamento de celebrações intermináveis tornou-se o lugar de uma festa blasé, sem fuga para romances casuais.

As ruas ao amanhecer de uma noite não dormida ainda tem o mesmo silencio e vazio, ainda que o motivo da perda do sono seja outro.

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Em Oslo, 31 de agosto, as pessoas e suas vidas não resistem intactas à passagem do tempo, mas a cidade sim. A cidade não é apenas o cenário, é um personagem das histórias de antes e de agora: enquanto o tempo passa e as pessoas mudam, Oslo se renova e se conserva como um monumento, forçando-o a lembrar.

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Essa correlação estreita entre paisagens e vivências, sublinhada pelo diretor Joachim Trier, por vezes passa despercebida ao cotidiano dos habitantes das metrópoles contemporâneas, onde os espaços constantemente resignificam seus usos.

Mas há exceções louváveis.

Por dez anos eu vivi na cidade de Belém-PA, e pude conhecer muito de seus hábitos e sua memória. A metrópole da Amazônia preserva uma mistura de diferentes estilos arquitetônicos clássicos, contrastando com a verticalização acentuada, a arborização das ruas centrais e a periferia que lhe margeia.

Cidade 2 - Adalberto Júnior.jpg Foto: Adalberto Júnior

Alguns dos seus monumentos, casarões, praças, vielas, etc. ainda acessíveis, fazem parte das aulas de história local, tendo seu significado mantido latente nas tradições religiosas, gastronomia, literatura, dentre outros. Com isso, Belém, pontua um encontro entre o hoje e o ontem secular, experimentável em uma simples caminhada nas tardes chuvosas ou de muito calor – nunca diferentes disso.

Encontro histórico -brenopeck.jpg Foto: Breno Peck

Mas não é a preservação das estruturas do passado que faz de Belém única. Seus lugares históricos resistem não apenas em sua forma arquitetônica, mas também em seu conteúdo e finalidade. Exemplo disso são pontos como o tradicional Cine Olympia, cinema fundado em 1912, que permanece no mesmo prédio e ainda cumpre com o mesmo propósito.

cineolympia-Prefeitura de Belém.jpg Foto: Prefeitura de Belém

Logo à sua frente encontra-se o ainda mais antigo Bar do Parque, um retiro da boemia desde que se converteu em bar; pois antes disso era apenas o coreto do majestoso Theatro da Paz, reinando em plano de fundo como centro da identidade urbana belenense.

Bar do Parque Theatro - Luiz Cláudio.jpg Foto: Luiz Cláudio

Os três espaços são irmãos nascidos da Belle Époque amazônica, todos têm mais de cem anos, e todos ainda desempenham praticamente os mesmo papéis para os quais foram criados. Gerações antigas partilham lugar com jovens que euforicamente aceitam o legado implícito, com a disposição de quem experimenta a história enquanto uma grande (re)descoberta, e assim levam adiante o ciclo.

Cidade velha - Kleiton reis.jpg Foto: Kleiton Reis

Por isso, acho natural que Belém transmita uma nostalgia sutil, que impregna despretensiosamente. Com certo tempo transitando pela cidade, sente-se uma saudade indefinida, uma ausência injustificada. Na verdade, essa sensação não pertence a você, mas a cidade lhe empresta, como um convite para se descobrir que ali o presente encontra a trajetória de muitas gerações, não apenas na lembrança, mas também na prática. Lá, em meio às árvores, aos prédios históricos e modernos, repetem-se hábitos com mais de um século, nos mesmos lugares em que eles sempre ocorreram. A memória pode ser tocada e (re)vivida.

Sinopse da cidade-AndrBonacin.jpg Foto: André Bonacin

E são muitos os lugares da cidade aptos a emprestar nostalgia, fazendo de Belém um personagem para qualquer história pessoal, tal qual Oslo é personagem de um filme. Mas Belém vai além, pois também tem sua própria memória, e faz de vidas comuns sinopses para a beleza da cidade.

Teatro da paz - José Pinto.jpg Foto: José Pinto


Pedro Cruz

Mestre em sociologia por aventura, aspirante a cinéfilo, fã da ironia cínica de Douglas Adams e pesquisador das subjetividades sociais. .
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