weltanschauung

A resposta é 42

Pedro Cruz

Mestre em sociologia por aventura, aspirante a cinéfilo, fã da ironia cínica de Douglas Adams e pesquisador das subjetividades sociais.

High and Dry / 50%

Por Trilhas de Radiohead (Parte 1)


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Um filme com enredo sobre a descoberta de um câncer em estado avançado que tem Radiohead como trilha sonora poder soar – a princípio – como uma ode à autoflagelação emocional. Mas contrariando impressões primeiras, no filme 50% (Jonathan Levine, 2010) o som da banda se permitiu dar o tom mediano de um drama feel-good não muito inovador, porém inoportunamente confortável e melancolicamente divertido. O roteiro imerso em sarcasmos e ironias comuns às siticoms, encontra na música High and Dry um equilíbrio saudável de drama-comédia, permitindo-se até florescer algumas risadas (com certa sinceridade e ceticismo) dos versos cantados desesperançosamente por Thom Yorke.

O Filme

Não há muito o que se decifrar em 50%. Adam é um cara normal demais. Alguém que recicla o lixo, que não atravessa a rua quando o sinal está aberto, que respeita a pontualidade o quanto pode, etc. Ele permanece inatingível pelo aborrecimento de uma vida excessivamente ordinária onde sua vontade não interessa a ninguém ao seu redor. Mas certo dia ele ouve as palavras impacientes de um médico que mais parece um burocrata em fim de carreira, lhe contando sobre o câncer alojado na sua espinha.

A doença não se mostra como um ralo de esperanças, mas sim como meio de transformar aquilo que precisava ser transformado há muito, e fazer emergir – da desesperança – a assertividade de alguém que deseja tempo para fazer as coisas mais banais que uma vida banal não permitiu.

Assim, o filme mostra que entre a luta ou a fuga existe uma longa espera, passiva mas dinâmica, onde repousa, também, a possibilidade da mais inesperada inclinação a um “eu” que quer gritar sua existência e sua vontade.

A Música

No Urban Dictionary, a expressão “high and dry” é definida como “ficar sem esperança porque não foi lhe dado algo que você precisava ou que lhe foi prometido”. Mas também pode significa “estar sobre influência da marijuana, mas não do álcool”.

A balada do Radiohead parece fazer mais sentido com o primeiro caso. Apresentando o personagem da música como alguém que se acha esperto o bastante para obter o reconhecimento daqueles no seu entorno, sem se importar com consequências. No refrão, a letra logo mostra o fracasso do personagem, seguido do clamor rastejante de quem implora choramingando “don’t leave me high, don’t leave me dry”; que pode ser traduzido rudimentarmente como “não me deixe abandonado, não me deixe sozinho”.

A segunda parte já encontra um “eu” menos esperançoso, menos confiante no que poderá obter de reconhecimento dos outros. Então o jogo vira de vez, e ele está cercado por aqueles que “cuspirão em você, e você será aquele chorando” (They’re the ones who’ll spit at you. You will be the one screamming out)

Assim se delineia a falha crônica dessa necessidade fútil de reconhecimento.

A Trilha Sonora

Isolada em seu contexto próprio, High and Dry parece ser uma escolha injusta para narrar o choque de Adam com a doença. A música marca o instante em que ele digere a notícia, de modo sóbrio e introspectivo, evitando cautelosamente mensurar suas esperanças.

Adam não busca reconhecimento, mas acaba descobrindo que ter sua vontade (seu eu) reconhecida pode ser o que faltava para ele ganhar a confiança de atravessar a rua quando não há carros, independentemente da cor do sinal. Encontrar seu eu, livra ele de suprir suas carências e fragilidades na presença fria de uma namorada hipócrita, ou na segurança de um cotidiano tedioso. A ironia que sustenta risadas complacentes com o filme está ao redor desses pontos de conquista, guiados pela assimilação lenta e persistente de uma doença grave. Buscar um “eu” que tenha vontade própria é difícil, tal qual a falha das técnicas pré-fabricadas de sua inexperiente terapeuta demonstra. Mas não há como parar, porque a doença não pára.

E quando finalmente “all your insides fall to pieces. You just sit there wishing you could still make love” (Todo seu interior desaba. Você apenas senta ali desejando ainda poder amar), Adam conta com as pessoas firmes ao seu redor. Elas não cospem nele, mas fazem o melhor que podem garantindo que o tônica feel-good não seja derrotada pelo céu cinzento do Radiohead.

Assim a canção ilustra o filme, e merece seu posto como o marco guia do enredo.

E sem duvida merece ser ouvida novamente, ainda que em um clip improvisado.


Pedro Cruz

Mestre em sociologia por aventura, aspirante a cinéfilo, fã da ironia cínica de Douglas Adams e pesquisador das subjetividades sociais. .
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