weltanschauung

A resposta é 42

Pedro Cruz

Mestre em sociologia por aventura, aspirante a cinéfilo, fã da ironia cínica de Douglas Adams e pesquisador das subjetividades sociais.

O Impressionismo Lírico de CHVRCHES

Sintetizadores à exaustão, tocados com o pesar do pós-punk em contornos de pop, justapostos a uma voz límpida e aprumada. Talvez não haja maneira menos insólita de apresentar a música de Chvrches.


Chvrches topo.jpg Lauren Mayberry, Iain Cook, Martin Dohety

Desde o lançamento do seu primeiro álbum The Bones of What You Believe em 2013, a banda escocesa Chvrches conquista cada vez espaço nas playlists do mundo com uma sonoridade que remete à música eletrônica da década de 80, norteada pelo indie rock – culminando no “Synthpop”.

Seja pela singularidade do som, seja pela voz convidativa de Lauren Mayberry, tanto admiradores quanto ouvintes mais despretensiosos em algum momento podem se deparar com a questão comum: “mas sobre o que trata essa letra afinal?”. E essa é a porta de entrada para um labirinto de sentidos que permeiam o enredo das canções.

As letras enigmáticas de Chvrches não possuem um sentido expresso, repartindo-se em ilhas de metáforas genéricas ou em mensagens que não contam o óbvio.

Buscando um atalho para falar de Chvrches de modo menos abstrato (habilidade em falta no momento), vale citar as palavras de Iain Cook, referindo-se às muitas das letras como “impressionistas, e de sentido aberto”, concedendo ao ouvinte liberdade para assimilar ideias reconhecíveis, imersas em contextos indefinidos.

GUN: (Quem é você para me dizer como/ Me manter flutuando na superfície/ Eu caminho sobre a água o tempo todo/ Você está preso à faca que segurou contra minhas costa/ Isso te fez sentir mais inteligente?/ Você esconde isso em sua manga?...)

O movimento impressionista – com o qual a banda se identifica – surgiu no século XIX e opunha-se à estética do retrato fiel imposta pelo Realismo, estilo até então predominante. Os impressionistas foram revolucionários ao pintarem imagens concretas em traços borrados e linhas esfumaçadas, sugerindo formas e paisagens sem as definir.

House of Parlament Sunset.jpg House of Parliament, Sunset. Claude Monet. O termo Impressionismo deriva da “impressão” (negativa) que um seus críticos atribuiu ao estilo.

Pensar nas letras de Chvrches como “impressionistas” é pensa-las enquanto uma fuga à nitidez da mensagem; elas retratam cenas comuns em telas de contornos distorcidos. As músicas podem sublinhar o instante e falar sobre um tema sem dizer onde cada peça se encaixa, inspirando o livre entendimento:

SCIENCE/VISIONS: (Com a compreensão/ Você não vai deixar que te desencoraje/ Uma mente cheia de perguntas/ Uma correnteza a purificar/ Ciência e visão/ Esteja próximo quando eu chamar seu nome/ Ou me faça uma pergunta...)

Contudo, letras impressionistas não são sinônimo de letras estéreis. As temáticas alternam-se entre metáforas de utopias, anseios de liberdade, confiança, despedidas, incertezas, arrependimentos, etc. Mas em relação a quem, de que forma, onde ou por que, são as histórias individuais dos ouvintes que definem.

STRONG HAND: (Por que você não me diz o que você precisa?/ Há uma página em branco para você/ Me dê os ossos do que você acredita/ Talvez eles te salvem de mim/ Eu serei a mão forte te mantendo seguro(a)?/ Ou te quebrarei ao meio?...)

A capacidade de síntese e a qualidade das músicas de Chvrches renderam valiosas indicações a prêmios, como o de Melhor Álbum do Mundo (World Music Award) e Melhor Banda Nova (Prêmio New Musical Express). E assim como os pintores impressionistas romperam com o Realismo, as letras do Chvrches rompem com detalhamentos excessivamente objetivos, que nos instruem com mensagens pré-fabricadas sobre o que é raiva, o que é euforia, o que é superação, o que é saudade ou amor, etc. Sem tentar definir as impressões de quem os escuta, e encorajando a captura subjetiva da mensagem, a banda segue na propulsão de um sucesso inesperado.

Bônus: Covers com identidade marcante também são um forte do Chvrches.


Pedro Cruz

Mestre em sociologia por aventura, aspirante a cinéfilo, fã da ironia cínica de Douglas Adams e pesquisador das subjetividades sociais. .
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