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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

“Democracia gera desejo de mais democracia”

Acorda, Brasil! O momento é decisivo na política nacional e a participação da sociedade é crucial para escrever um capítulo a mais na história do desenvolvimento país. Este ano é a oportunidade de tornar tangível os sonhos que foram expostos nas ruas durante as manifestações de 2013.


capa_brasil.jpg Copa do Mundo, Eleições e uma sociedade com o grito preso na garganta. O Brasil vive um intenso período político ignorado pela mídia e dissimulado pelo governo. Você tem certeza que vive em uma democracia?

Em algum momento da vida todos nós já consideramos mudar o mundo. É um pensamento inocente e infantil que vem à mente de modo natural. Querer tornar o planeta em um lugar melhor para viver. Neste momento, a ideia parece ser totalmente possível por mais absurda que ela seja, mas com o tempo percebemos que as coisas são muito mais complexas que a nossa simples vontade cheia de boas intenções. Nisso alguns desistem do objetivo, outros adaptam para a própria realidade e cada um a seu jeito vai transformando e criando um mundo próprio.

Raridade é quando vários desses desejos de mudar o mundo se unificam, se personalizam e ganham força, é como encontrar mil andorinhas e fazer o verão em pleno inverno. Foi mais ou menos isso que aconteceu nos últimos tempos nas ruas do país. Não teve cidadão que não sentiu um lampejo desse verão fora de época (ou melhor, dessa ‘primavera brasileira’) ao ver as manifestações de rua que surpreendeu a todos no ano passado. Mesmo quem não participou fisicamente dos protestos certamente apoiou e sentiu-se revigorado em ver um desejo coletivo de transformação posto em prática. “O povo acordou”, arriscavam e entoavam as vozes convocando a população às ruas. Um simples aumento nas passagens despertou uma noção e amadurecimento social que estavam completamente ausentes nos últimos anos, tomando conta de uma nação. Cidadãos com discernimento de sociedade se emocionaram com isso aqui:

“Que não está certo o que eles fazem…”, o vídeo diz claramente o recado que estava entalado nesta geração que cresceu como se a política fosse um assunto proibido e motivo de piada, um tabu. Também repercutiu naqueles que tiveram alguma experiência política no passado, que apoiaram os mais jovens. Foi possível acreditar na mudança e nos novos rumos. Algumas diferenças das outras manifestações do passado era justamente o que surpreendia nas atuais; não havia siglas de partidos, além de aquela manifestação física ter bases em um mundo virtual. Diferenças à parte, tudo caminhava muito bem, mas algo aconteceu. Por algum motivo as coisas não foram onde deveriam ir. Assim como uma nova forma de manifestar surgiu, surgiu também uma nova comunicação, e se fazer entender não é nada fácil.

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A grande verdade é que as diversas vozes das ruas gritaram, mas não se fizeram ouvir totalmente. Temos duas questões distintas aqui: o de “gritar” e o de “ser ouvido”. De julho de 2013 pra cá ainda há vestígios de movimentos que visam protestos e os temas são diversos. Tem quem diga que até virou moda. Seja no rolezinho do shopping, na revolta da Copa ou no absurdo dos transportes públicos o povo entoa sua voz e não quer estar omisso. Porém, a diversidade desses gritos reflete características e deficiências da nossa sociedade que de tão barulhentos se perdem na falta de clareza e coerência.

Para entender a complexidade da questão é necessário se distanciar dos fatos isolados e interligá-los de forma a entender os verdadeiros motivos para, assim, traçar caminhos que aprimorem a vida com o próximo. Perceba que a questão não é simplesmente política, é mais abrangente, é social. Isso é resultado da soma de fatores do descaso educacional e cultura deficitária dos últimos 20 anos e constitui na interessante figura que é o brasileiro. O jeitinho brasileiro é o grande câncer do Brasil. Há algo na alma do brasileiro que condena essa geração e a conjuntura atual nos põe frente a decisões que provavelmente mudará o rumo das próximas. É essencial pautar esses temas e entender essa mistura de ira e justiça que aparece nas mais diversas manifestações sociais. Esse desejo de punição a qualquer custo que vai desde os mascarados às declarações feitas pela jornalista do SBT Rachel Sheherazade ao apoiar a violência por parte das “pessoas de bem” contra um ladrão.

Na visão de Aristóteles, governos e instituições deveriam garantir e assegurar o bem comum da sociedade. Eles deveriam prover a felicidade do povo. Quando não cumprem esse papel, defendendo interesses privados ou de uma só classe, essas instituições são consideradas depravadas, desvirtuadas ou pervertidas. Um belo princípio para a política. Mas, ao notar que existem 32 partidos ativos no país é de se pensar o quão intelectual é a nossa sociedade para gerar uma diversidade tão grande de ideologias com tão nobre missão. Fica fácil perceber que a política brasileira se distancia bastante da poética visão de Aristóteles e que na verdade estas siglas são vazias e não passam de interesses sem CNPJ. A pobreza ideológica reduz os partidos hodiernos em meras siglas comerciais, que visam apenas o lucro, e isso é apenas reflexo da educação e sociedade que vivemos.

A falta de representatividade política que houve nas manifestações mostra que o governo não tem mais a habilidade de se comunicar com a população, portanto era de se esperar que sua resposta às ruas tenha sido tão fraca. A classe política usa como argumento o novo formato de descentralização que independe de líderes, sindicatos, representantes ou interlocutores que mediassem as reivindicações para entender o teor dos protestos. Artimanha para ganhar tempo e enfraquecer o movimento tirando sua legitimidade. O que a sociedade começou a perceber é que não é possível mudar os hábitos pela simples alteração das leis e que o buraco é mais embaixo, aliás, bem mais embaixo: a transformação deve ser cultural e não jurídica. E falar em cultura em um país que tem a média de leitura de 4 livros ao ano explicita uma grande problemática: como criar o senso crítico em uma sociedade que cresceu absorta em uma cultura musical e televisiva?

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Não há um modelo perfeito de representação política. Aprimorar a democracia é um processo que deve ser contínuo. Vemos que hoje grande parte da sociedade não se vê mais representada pelos seus governantes. Para desviar desta questão, o governo propôs a reforma política, que se deu de forma bem fracassada. As questões eram mais pontuais e a reforma política que as ruas pediam diz respeito mais a toda a estrutura do que os pontos apresentados, como financiamento de campanhas, coligações, plebiscito e unificação das eleições municipais e nacionais. A ideia que temos que começar a considerar a partir de então é uma democracia que saia das instâncias da representação para o âmbito da participação.

Ficamos a pensar onde está o orgulho de ser brasileiro. Sinceramente, somos o porão do planeta, aquele cantinho da casa que tem de tudo misturado e jogado. O Brasil mascara com “alegria” das festas e futebol uma miséria e exploração há anos e o desleixo. Um país feito para poucos ganharem dinheiro. O governo é uma grande máfia organizada, mas “nos livrar” dele ou apenas expressar o descontentamento pode não ser o que trará a mudança, porém são fatores que indicam um caminho. A política reflete os valores de uma população. Enfim, “o povo acordou”, muitos dizem que sem foco, perdidos… em parte a afirmação é verdadeira, a falta de “liderança” que o governo usa como crítica e a dificuldade em escutar a população é uma desculpa das feias, mas pautada com argumentos, temos de admitir.

Estive nas manifestações. Vi algumas pessoas e amigos que começaram a desmotivar com essa pluralidade de vozes e estavam realmente confusos, mas não podemos nos deixar abater. Fiquei de ouvido ligado nas ruas pra captar a percepção de todos, ouvi policiais falando sobre o assunto com desavisados que passavam pelos locais dos protestos e os que eu ouvi é que não levavam a sério o movimento e diziam ser desculpa para fazer bagunça.

É necessário tornar isso tangível, concreto, e uma ideia é usarmos a própria lei. Vou explicar. Nossa justiça e constituição têm ferramentas sociais para propor mudanças; e as mobilizações para dar agilidade às reivindicações. Por exemplo, a sociedade entra com um processo contra o governo para reaver a base salarial dos governantes. Propor uma lei para que os serviços públicos sejam de uso obrigatório para pessoas ligadas ao governo ou outros projetos que diminuiriam a corrupção e os excessos da política.

Quem conhece Direito e a Constituição sabe que nossa democracia no papel é linda e que é viável a população participar ativamente desde que haja grande parte da população envolvida. A hiperconectividade e redes sociais são os instrumentos que faltavam para conseguir fazer essa mobilização e dar potência à voz do povo. Temos os ingredientes! Grupos de advogados poderiam dar mais credibilidade a esta iniciativa representando o povo (acredito que vários estariam dispostos a abraçar a causa), assim a população entraria com os processos junto às exigências legais para isso. Quanto a velocidade da justiça resolveríamos isso com as passeatas, PARANDO O PAÍS, exigindo prioridade máxima nas causas. Poder para isso a população tem. Usar o próprio sistema para promover a sociedade mais justa que queremos.

Outra ferramenta que precisamos divulgar e utilizar mais é a “ecidadania” – aqui é possível propor projetos de lei e acompanhar os já existentes (veja aqui os abertos). Claro que isso não é divulgado. Aqui, qualquer tema que tenha mais de 20 mil assinaturas é obrigado a ir para o senado e ser submetido à análise.

Porém, frente a tantas insatisfações sociais, fica a sensação de que reclamar de tudo é como reclamar de nada, dar voz a cada cidadão não é a solução, bem como calar-se também não irá melhorar. Os problemas deste país são bem claros e em cada um dos tópicos – seja a qualidade dos serviços públicos, a corrupção desenfreada, as diversas regalias políticas – o que vemos é que a malandragem, o ganhar mais, é o tão e velho conhecido “jeitinho brasileiro” que está enraizado em cada parte das instituições nacionais e que como vermes apodrecem o fruto da democracia. Debater sobre política é o primeiro passo para gerar reflexão, o que deve ser ponderado é a educação, por exemplo, das próximas gerações para que tenham aula de cívica e instrumentos culturais para que sejam jovens com repertório para discutir sobre melhorias sociais.

Infelizmente, o Brasil configurado na forma de hoje não tem condições de dar o salto que pretende em sua evolução social. Marx nos apontava que a democracia nos estados liberais não nos daria “participação política” e que o conceito de que todos os “atores sociais” poderiam interferir na vida pública era utópica. Marx não conhecia a Internet e não conhecia a sociedade hiperconectada, com certeza isso favorece muito a uma aplicação mais efetiva da participação política. Com as ferramentas de hoje é possível repensar um modelo que atenda a este clamor tão heterogêneo e dessa forma dar mais clareza aos pontos. O que falta é vontade política para isso, mas todos têm sua parcela de culpa. A televisão e o jornalismo são bastante responsáveis pela falta de crítica do povo brasileiro.

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Como Saramago bem classificou, “Estabeleceu-se e orientou-se uma tendência para a preguiça intelectual e nessa tendência os meios de comunicação têm uma responsabilidade”. Para criarmos uma Ágora moderna e virtual é necessário que a discussão política seja incentivada e que a capacidade de senso crítico e social sejam exercitadas. A televisão com a cultura de massa tolhe o cidadão de suas faculdades quando deveriam, pelo poder de sua abrangência, ter um papel mais social e menos mercadológico, promovendo debates e fomentando outras reflexões. Acontece que a mídia também está sujeita aos interesses políticos que querem manter-se no poder, tanto que criar políticas públicas regulatórias para a imprensa no Brasil deve ser outro ponto prioritário, mas isso é outra história.

Opiniões diferentes e de todos os tipos existem, e todas teriam adeptos por mais absurdas que sejam. Destas, a visão Aristotélica da política condiz bem com as necessidades da nação, mas para alcançá-la temos uma longa trajetória como cidadãos e se estruturar para voltar com mais força como diz o vídeo da ocupação do Congresso Nacional: AMANHÃ VAI SER MAIOR. Nessa democracia corrupta com cheiro de autoritarismo, nossa presidente está certa em dizer que isso gera mais desejo de democracia. Mas não culpe somente eles, ponha-se também nesta lista, faça sua parte.

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Ahas

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