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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Responsabilidade terceirizada

Se errar é humano, colocar a culpa em algo é ainda mais contemporâneo.


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“A culpa é minha e eu coloco em quem eu quiser”, já dizia com sabedoria despretensiosa um dos personagens mais conhecidos da televisão, Homer Simpson. Atrás do humor escrachado da série “Os Simpsons” há uma realidade evidente nesta simples afirmação. Estamos o tempo todo justificando nossas escolhas sem uma percepção consciente, em busca dos argumentos para convencermos a nós mesmos o motivo de nossas decisões. Isso é totalmente normal, encontrar fundamento em nossas atitudes faz parte de viver em sociedade e de ser humano, mas a partir do momento que esses argumentos viram desculpas, temos outra questão em jogo. A explicação passa a ser uma tentativa de ausentar a individualidade ou a responsabilidade pelos próprios atos. O que se transforma em uma falha de caráter; carência que transfere as motivações de uma atitude a outros fatores que não os próprios.

No campo teórico talvez tenhamos dificuldade de enxergar os efeitos dessa conduta que vem aumentando. Mas é seguindo esse preceito que, por exemplo, diz-se que a culpa dos populares a agredir um bandido é da falta de assistência policial, das injustiças sociais e outros fatores políticos, enquanto a responsabilidade dificilmente recai diretamente sobre o agressor. E os casos se multiplicam: um homossexual apanhou até a morte porque foi vítima da intolerância; o adolescente que mata várias pessoas em um cinema tem como álibi os jogos de videogame que “o influenciaram” e assim por diante com temas como preconceito, educação e outros.

Na época dos “mas”, há sempre um “porém” com o intuito de absolver o verdadeiro responsável. Além do que, essa isenção propicia que mais pessoas se tornem “justiceiros”, espanquem homossexuais ou cometam barbáries. Também é equivocado pensar que essas justificativas se apliquem aos casos mais extremos, burlar uma dieta por ser final de semana, por exemplo, é também um artifício que segue o mesmo princípio. Agir conscientemente é ter responsabilidade sobre as consequências. O que poderia absolver um sujeito de suas decisões seria a ignorância ou a loucura no sentido filosófico e não pejorativo destas palavras.

Para ilustrar, vamos supor uma situação em que eu dou uma arma a um assassino compulsivo. Ele mata alguém por causa disso, mas eu não sabia que ele tinha essa compulsão. Eu não posso ser responsabilizado já que era ignorante ao fato de que aquele objeto desencadearia um assassinato. Certo? Nem sempre. O não saber da ignorância não é suficiente para livrarmos da responsabilidade, pois para que a ignorância seja “legítima” (no sentido integral da palavra) eu não podia e nem teria a obrigação de conhecer as consequências em dar um objeto letal a um estranho. Agora, caso quem levou o assassino até mim soubesse dessa informação e não me falasse, ele sim poderia ser considerado “culpado”. Ao conhecer essa possibilidade, ele teria responsabilidade moral sobre isso. Mas, e o assassino? Que cometeu a ação? Basta sua loucura para lhe tirar a responsabilidade? Por meio desse exemplo é possível ter noção do número de interpretações possíveis e o quanto pode ser questionável. No Direito há um amplo material que institui definições para o termo responsabilidade e suas aplicações justamente pela abrangência do tema.

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Freud, claro, tenta explicar tudo isso. O pai da psicanálise afirma que ninguém deseja verdadeiramente a liberdade e isso tem tudo a ver com responsabilidade. Segundo ele temos medo dessa autonomia e quanto mais livres somos mais responsáveis precisamos ser, pois a liberdade é responder pelos próprios atos. Este medo também seria o motivo pelo qual vivemos cercados de regras. Portanto, nos ocultar atrás de uma faceta que transfere parte da responsabilidade para algo maior é uma característica recorrente. Com a globalização veio também a unificação que, somada à ubiquidade da internet, resultou em um curioso fenômeno de perda de identidade. Esta transferência parece se intensificar neste período de compartilhamento. O agente que cometeu o ato deixa de ser um indivíduo para ser um tema, se transforma num símbolo excluindo sua personalidade, bastando isso para justificar todo o tipo de ação. Um artigo muito interessante chamado Escutem o Louco, de Eliane Brum, traça um paralelo do caso de Alessandro de Souza Xavier, homem que empurrou Maria da Conceição Oliveira, no metrô de São Paulo, em fevereiro, com o cenário de violência nacional, dizendo como esses estigmas nos tiram a voz. É como dizer que a culpa foi da arma que deu o tiro e não do atirador. Veja o artigo aqui.

Encontrar os motivos antes apontar os culpados pode parecer uma conduta nobre, mas acontece que muitas vezes buscar fundamento para a estupidez pode ser ainda mais estúpido. Achar culpado na era dos poréns é um facilitador, pois o desenvolvimento dos meios de comunicação e das maneiras de interação fez com que a palavra e a argumentação ganhassem uma amplitude muito maior, e, assim, opiniões das mais absurdas ganham sustentação e mais e mais afastamos as responsabilidades de nós.

culpa.jpg Não só o mau caráter se beneficia disso tudo, o sem caráter também. Entre os pensadores há opiniões interessantes. Dostoievski arrisca que “todos somos responsáveis de tudo, perante todos”, e ele não é o único a pensar assim. Dalai Lama afirma que “a responsabilidade de todos é o único caminho para a sobrevivência humana”, ou seja, viver em sociedade é antes de tudo assumir a culpa do todo. Esse é o mesmo princípio que rege uma das mais conhecidas fórmulas na qual se você quer mudar o mundo, comece você esta mudança, do pacifista Gandhi.

Na literatura, a raposa do Pequeno Príncipe já alertava que somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. Isso sim é ter responsabilidade, palavra de origem latina (respondere) que significa ser capaz de comprometer-se. E essa questão é muito pessoal, porque caráter não é substituível e muito menos tercerizável. Prova disso são os muitos brasileiros que cresceram em lugares humildes onde as oportunidades para o “certo” são escassas e os atalhos para “errado” facilitados, e, mesmo assim, cresceram honestamente, pelo modo mais árduo.

É necessário coragem para assumir seu ponto de vista longe dos estereótipos sociais. A culpa é sua ao falsificar uma meia-entrada ou comprar algo pirata, ao jogar lixo no chão, e não dos impostos, da educação ou de qualquer outro bode expiatório que nossa razão possa arranjar. Pois, como muito bem nos lembra Confúcio, o homem superior atribui a culpa a si próprio; o homem comum aos outros. Ter autonomia das próprias atitudes é muito complicado no dia a dia, mas depois você percebe que responder pelos próprios atos vale muito a pena, e ter verdadeiramente essas respostas é sinal de amadurecimento não só social, mas também como espécie e indivíduo. Afinal, a psicologia diz que é um traço encontrado em crianças transferir as próprias culpas e não admitir erros. Nossa sociedade precisa crescer.


Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator..
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