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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Quem você mataria?

Por 12 horas você tem imunidade para acabar com a vida de qualquer pessoa.


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Está liberado. Delegacias e hospitais estarão fechados e não existirá lei durante 12 horas. No outro dia, sem ressentimentos ou culpa, sua carnificina está ancorada aos bons costumes e à manutenção da ordem. De matar o cachorro do vizinho a bater na mãe, o dia do Expurgo foi a maneira que o Governo encontrou para a manutenção da violência. O pior: funcionou. As estatísticas mostram que a violência urbana caiu a quase zero depois que foi permitida uma noite de violência. Essa perturbadora ideia é realidade no filme The Purge, que se passa em 2022, quando a violência urbana atingiu um nível quase irracional e a sociedade adotou a opinião de Freud, que afirmava não haver como extinguir a agressividade do ser humano, e para contorná-la criou um dia para que as pessoas descarregassem essa carga.

Essa também é uma visão encontrada em Maquiavel, em O Príncipe, que defende o uso da violência como controle e manutenção da sociedade. Há muitos pensadores e teorias que discorrem sobre a violência e suas origens, bem como suas causas. Mas na verdade, nossa evolução se baseia no fato de conseguirmos controlar nossa "bestialidade", que nada mais é que nossos instintos. De fato, isso faz da espécie humana ser única tanto por suas qualidades, tanto por seus defeitos.

Se a violência é algo intrínseco à natureza, na racionalidade humana ela toma tons perversos. Somos únicos na capacidade de disfarçar nossas emoções. Falar manso, para morder mais forte. Já os animais que não são dotados da razão rosnam, sinalizam, não dissimulam, são espontâneos. O filme The Purge (traduzido como "Uma Noite de Crime" por aqui) mostra uma alternativa na contenção da violência que dá um frio na barriga por sua morbidez. Como uma forma de catarse, uma nova organização política cria o Dia do Expurgo, quando as pessoas podem liberar a agressividade e é permitido tudo: matar seu chefe, se vingar de um vizinho, atropelar velhas na rua ou qualquer outro tipo de violência gratuita. No filme, as pessoas saem à caça dos seus inimigos enquanto outras se protegem. O curioso é que nessa ficção há muita realidade.

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Mais do que nunca, a violência é um tema endêmico no Brasil (e também no mundo) que passa por uma onda de protestos com quebra-quebra, linchamentos públicos, intolerância às diferenças e uma crueldade difícil de ver com suas origens complexas de entender. The Purge era para ser um filme de terror, mas, ao invés disso, traz uma atual visão social posicionada de uma forma bem distinta e com papéis bastantes nítidos dos seus personagens. Em uma análise mais profunda do filme, vemos que eles agem como elementos sociais, na verdade cada um na trama parece representar uma emoção na psique humana. A família mostra isso com clareza sendo o pai o representante da razão, a todo o momento as atitudes dele são baseadas na racionalidade e manutenção da ordem. Não à toa, ele é o desenvolvedor do sistema de segurança que é sucesso na América, ele faz parte daquilo, concorda e lucra a partir desta ideia (e muito). A família é tipicamente americana, dentro dos moldes perfeitos dos comerciais de margarina, para equilibrar as escolhas temos a mãe, que representa o sentimento, as decisões dela são completamente humanas, perpassam a razão, ela aceita o Expurgo mas não concorda inteiramente com ele, carregando certa angústia em si já que o sucesso financeiro da família provém exatamente deste evento. O casal tem dois filhos, um garoto que representa a inocência e declaradamente se põe contra a matança e sempre questiona a eficiência do Expurgo. Aceitá-lo como normal torna-se um martírio que se reflete em questionamentos que põe em dúvida a crença dos demais. Por fim, a garota mais velha. Ela é tipicamente adolescente, com atitudes inconsequentes e imprevisíveis, sem opinião formada, voltada apenas aos seus próprios interesses.

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A trama do filme é que o filho mais novo vê, através das câmeras de segurança, um homem pedindo socorro, dizendo que vão matar ele. O garoto age de uma maneira automática, quase compulsivo, para ajudar o rapaz, e (mesmo sabendo que é um dia de muito risco) dá abrigo ao desconhecido. Esse desconhecido é um mendigo e atrás dele está um grupo de lunáticos liderados por um homem educado e de classe social elevada, convencido de sua fé que tem o direito e dever limpar a América da escória da humanidade. Os lunáticos avisam que se a família não entregar o mendigo, eles invadirão e todos morrerão. Aqui começa nosso rico material sociológico do filme, pois as escolhas morais dizem muito sobre nossa natureza e sociedade e mostra como lidamos com agressividade, diferenças, grupos e motivações, enfatizando a força da cultura na formação dos valores e o quanto ela pode moldar a realidade.

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O dilema da família é se entrega o homem (e com isso endossa sua morte, ganhando o peso da culpa), protegendo toda a família, ou então não entregá-lo e escondê-lo, salvando-o da violência gratuita. O que fazer? Vale lembrar que o Homem tem sua motivação pautada nas ideias enquanto os animais irracionais baseiam-se no instinto, a diferença que isso acarreta é que quando se trata de ideias, envolve fé, e neste momento não há mais razão, pois a crença pode ser a mais hedionda ou a mais benevolente. Somos os únicos animais que conseguem atribuir um sentido positivo a qualquer absurdo destrutivo, a história da humanidade é pintada de vermelho sob este viés. O genocídio nunca existirá entre os animais, ele é especificamente humano e sempre apoiado a uma ideologia.

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René Girard, conhecido como o Darwin das ciências humanas, afirma que “o conflito é o confronto da minha vontade com a do outro, cada um querendo ceder a resistência do outro.”, ou seja, o mundo é um eterno embate. A condição de existir é se relacionar com o próximo, só que este é sempre uma ameaça, é o desconhecido. O grau da diferença aumenta o medo e, consequentemente, cresce a hostilidade. Os escritos sobre a paz perpétua do alemão Immanuel Kant falam exatamente sobre isso, em viver em harmonia com os demais. Nesta perspectiva, a violência toma um corpo maior, ela é agressividade. Na psicologia, acredita-se que quando se participa de competições esportivas ou até quando se trabalha com afinco, é a agressividade que está sendo colocada para fora. Somos naturalmente violentos, quer de maneira direta ou indireta, em atitudes ou pensamento.

Vamos neutralizar essa situação do filme para que possamos enxergar com mais clareza o que há em jogo nesta situação. Michael Sandel, filósofo político e professor em Harvard, nos propõe uma interessante reflexão. Suponha que você seja maquinista de um bonde que corre a 100 km/h e no final dos trilhos há 5 operários trabalhando. Ao tentar frear, os freios não funcionam e você entra em desespero porque sabe que eles irão morrer se aquilo continuar assim. Só que você se dá conta que à direita há um trilho auxiliar com apenas um operário trabalhando. Os freios não funcionam, mas o volante sim, então você pode mudar o trem para o trilho auxiliar e matar apenas um ao invés de cinco. Seria você um assassino ao ter poder de escolha entre matar um ou cinco? Porém, causar o menor dano possível é um dos primeiros princípios morais que surgem nesta reflexão, pois pondera as consequências do ato, da sua decisão. A vida em sociedade contemporânea parece estar nesses trilhos, a única saída parece ser a violência. Soma-se a isso um ambiente em que a cultura propicia a violência. O resultado é essa cólera que vemos hoje no país da geração de justiceiros, que popularizam e assistem lutas televisionadas em família como o MMA, na qual a encenação da violência é encarada como esporte, mas apenas dão vazão aos impulsos violentos.

O desenvolvimento do filme toma rumos interessantes, pois eles optam pela escolha moral e, mesmo que isso custe mais vidas e mais violência, eles usam a força para se mostrar como grupo dominante. Não vou esmiuçar o desfecho da história para que você possa assistir com esse olhar mais crítico, pois a conclusão vai de acordo com os princípios que estão acima da moralidade.

Independentemente se adotarmos a visão de Rousseau que acreditava no homem sendo bom por natureza e a vida em sociedade o fator de sua corrupção ou a visão de Hobbes que afirmava que o homem é mal por natureza, o pensamento é sempre o estado de maior plenitude existencial. A visão da literatura ainda é mais interessante, e dissolvem toda a filosofia de vida de forma leve, como afirma Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, em ter pela vida um interesse ávido: “Que busca compreendê-la sentindo-a muito. | Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo (...) Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio | E a minha ambição era trazer o universo ao colo | Como uma criança a quem a ama beija”. Confundem muito fé com amor, acredito que a fé é a forma mais voraz da violência, ela é o gatilho que dispara o sentido para o absurdo, já o amor é neutro, é acreditar também, mas acima de tudo é a compreensão, e o que compreende nunca é violento. The Purge é sim um filme de terror, mas não menos aterrorizante que a realidade que vivemos.

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