weltschmerz

delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Amor mercadológico

E se nossos sentimentos fossem fruto de uma estratégia de marketing?


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Ao completar minha trigésima primavera, várias reflexões me ocorreram. Uma delas foi que se eu vivesse em tempos mais antigos minha vida seria completamente outra. Provavelmente eu já estaria casado, com filhos, barrigudo e teria uma experiência bastante diferente da que tenho hoje. Isso dá uma ideia de como o ambiente é um forte influenciador sobre aquilo que nos tornamos e somos. Deixa claro como a cultura serve de condutor universal dos destinos, e ao nascer imersos nela o que nos resta é se adaptar aos seus padrões. Se você nascesse na Índia, naturalmente a vaca seria um animal sagrado na sua concepção ou então se fosse mulçumano, acharia comum um homem ter mais de uma esposa.

Meus pais se casaram novos, e não só eles, muitos dos que têm a mesma faixa etária deles também. Naquela época casava-se cedo, porém hoje o casamento acontece bem mais tarde (quando acontece). Muitas pessoas focam na carreira, nas conquistas pessoais e dão outras prioridades para a vida que deixam os relacionamentos mais à deriva. Além disso, com a Internet as relações mudaram, qualquer um pode ser seu vizinho e essa aproximação, curiosamente, afastou as pessoas. Pensamos mais frequentemente em nós mesmos e temos dificuldade para confiar no outro.

Ao bisbilhotar um pouco mais a fundo esse baú empoeirado das relações, há ideias ainda mais controversas com as dos dias atuais, como costumes que podem nos parecer no mínimo antiquados ou impraticáveis. Os casamentos eram arranjados entre as famílias, as pessoas não escolhiam os próprios cônjuges, havia, também, o dote (valor pago pela família da noiva para a família do noivo), que é um costume ainda preservado em alguns povos. O casamento era nitidamente um negócio com fins lucrativos - casava-se para juntar terras, ampliar rebanhos, aumentar fortunas. Sob o aspecto moral, as solteironas e solteirões eram maus vistos pela sociedade, a ponto de ser um adjetivo ofensivo.

O contraste com os dias atuais é gritante, já existe inclusive o Poliamor, um novo modo de se relacionar nascido nessa geração. Assim como sua nomenclatura sugere, a pessoa tem abertura para manter mais de um relacionamento em paralelo (em alguns casos, a três), seu objetivo é a lealdade ao invés de fidelidade. O Poliamor deixa claro que não é promíscuo, estrutura-se como um modelo que busca ser feliz tendo em vista a total honestidade.

Olhando esse histórico, podemos dizer que, de certa forma, o amor venceu a ambição, as pessoas passaram a ter "liberdade" para escolher com quem vai dividir o resto de seus dias por critérios de afinidades, tendo inclusive a opção de não dividir com ninguém. Portanto, ser solteiro com mais de 30 anos no mundo contemporâneo vai além de ser normal e aceitável, é uma ideia ofertada. Com a solterice, abriu-se um mercado imenso, que vai de alimentos em porções individuais, apartamentos com minúsculos metros quadrados para quem vive sozinho e uma amplitude de serviços para esse público que surgiu de forma "natural". Essa ruptura de valores que analisamos em três gerações é tida por mudanças sociais que sempre escapam do viés econômico ou o abordam de uma forma pouco crítica, porém ele converge com a estrutura econômica da sociedade se observados sob o ponto de vista mercadológico de produção de massa.

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A questão principal é analisar até onde o mercado se adapta à realidade social ou se ocorre o seu inverso: nossa realidade é fruto de interesses comerciais. Solteiros são um nicho de mercado com grande potencial, vender esse estilo de vida é fomentar a produção de bens e produtos. Nesta perspectiva, o bolso e o coração talvez estejam muito mais próximos do que imaginamos e o rumo que as nossas relações estão tomando vislumbra um lucrativo segmento a ser explorado, mas o preço é alto para nossa condição humana.

Em consulta aos principais pensadores sobre este tema, temos visões que convergem com a análise aqui proposta, porém a relação de quem molda quem parece um tanto difusa. Na opinião de Bauman (2001), na sociedade de consumo as relações tendem a ser vistas como mercadorias a serem consumidas e não produzidas. E a característica do mercado se estende à psique: a velocidade com que os objetos se tornam obsoletos e devem ser trocados acontece também às pessoas. Nas palavras dele, "qualquer oportunidade que não for aproveitada aqui e agora é uma oportunidade perdida; (...) Como os compromissos de hoje são obstáculos para as oportunidades de amanhã, quanto mais forem leves e superficiais, menor o risco de prejuízos".

A sociedade do consumo foi descrita por Guy Debord como a vitória da economia sobre as relações humanas. Nas palavras do pensador, "a primeira fase da dominação da economia sobre a vida social acarretou, no modo de definir toda realização humana, uma evidente degradação do ser para o ter". Já Birman nos alerta sobre a exacerbada individualidade dos dias atuais dizendo que "o que justamente caracteriza a subjetividade na cultura do narcisismo é a impossibilidade de poder admirar o outro em sua diferença radical, já que não consegue se descentrar de si mesma".

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A verdade é que não há espaço para o amor no mundo capitalista. Somos forçados à individualidade e à competição desde pequenos, condicionados sempre a desconfiar. Quem nunca ouviu a recomendação “não aceite nada de estranhos”? É quase que um mandamento, um dogma da educação que forma raízes em nosso aprendizado e de alguma forma nos influencia pelo resto de nossas vidas. Em um mundo regrado pela competição, o outro é sempre um adversário. Dificilmente quem está ao nosso lado é visto como parceiro, torna-se pertinente definir qual o papel do outro em nossas vidas na sociedade atual.

Quem conhece os conceitos de marketing sabe da sede do mercado em criar necessidades e de como ele conduz as pessoas aos seus objetivos. Boas intenções e vendas nem sempre se encontram, o histórico da produção do cigarro é um bom exemplo disso. Através de ferramentas mercadológicas é possível criar alterações culturais, que neste caso estão afetando o modo como nos relacionamos com as pessoas. As bases familiares que outrora eram absolutas são flexíveis, obviamente há muitos prós também nessa transformação, porém essa crise egocêntrica nos dá um diagnóstico muito mais catastrófico do ponto de vista humano e também ambiental. Ser social e cidadão implica avaliar o outro nas nossas relações, e uma sociedade marcada pelas ações por impulso, baseadas no desejo sem refleti-los, caminha para o retrocesso, pois é em razão da individualidade que furam a fila na entrada de um show, estacionam em vagas para deficientes ou idosos e ocorrem traições fortuitas em nome do prazer, desconsiderando qualquer relação de afeto a quem se dedica anos de relacionamento.

Estou no time dos solteiros e gosto bastante da rotina que levo, tenho certeza que minha vida nos dias de hoje é muito mais feliz e realizada do que se ela existisse anos atrás. Não é um discurso em defesa da vida individual ou então do casamento, mas um alerta para não nos esquecermos que, em qualquer época, o outro é quem nos dá identidade, não um produto. Manter firme essas bases é preservar a humanidade e não voltar ao nosso lado primitivo. Isso gera um enfraquecimento intelectual das pessoas que as fazem ser facilmente moldadas por interesses mesquinhos. Já que este tema também abrange família, acredito ser válido o conselho que Aristóteles deu ao seu filho Nicônamo para aprender a pensar. Ele aconselha o filho a ter momentos de reflexão (diários) nos quais se deve fazer três perguntas: quem somos, quem gostaríamos de ser, e quais as providências que estamos tomando para isso. Segundo o pensador, essas respostas acompanhadas com o tempo nos dariam atitudes mais sensatas. Acredito que através da reflexão de nossa sociedade e de quem somos nela será possível fazer que realmente o amor vença a mesquinharia mercadológica e que ser solteiro não seja um acessório de marketing, mas uma escolha consciente dentro de uma sociedade plural.

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