weltschmerz

delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Homo Commodities

Uma nova espécie se prolifera rapidamente e deixa sua marca registrada.


CONSUMER__by_R_evolution_GFX.jpg

Você tem smartphone? Tem conexão 4G? Tem videogame? Aliás, o que você TEM? As coisas que você possui acabam possuindo você, como diria Tyler Durden no filme Clube da Luta. Alguns afirmam que o mundo da matéria nada mais é que a representação do mundo invisível, das ideias. Assim, aquilo que vemos é o que representa nossa subjetividade, seriam signos da personalidade de nossa espécie. Porém quando colocamos a representação desta personalidade no divã, para que nosso pensamento crítico analise sua conduta, percebe-se num primeiro momento que a consciência do mundo anda sofrendo algumas crises de ansiedade.

Seu Armando foi à loja de eletrônicos e escolheu a televisão do último modelo do mercado, chamada de Smart TV, encantado com as maravilhas que o vendedor lhe disse, o aparelho prometia mundos e fundos e só poderia ser melhor se fizesse massagem. Feliz da vida, Seu Armando estava assistindo sua televisão de última geração, mas teve uma surpresa. Viu um comercial em que havia uma nova Smart TV, um modelo muito mais evoluído que a dele, que tinha apenas 2 meses que ele havia comprado. Esta pequena anedota demonstra algo que é cada vez mais comum. A alta competitividade das indústrias e o consumo exacerbado fomentam mais e mais o desuso de produtos e encurta o clico de vida deles, fazendo-os, depois de um tempo, serem praticamente descartáveis.

A realidade de hoje de iPhone, iPad, iAquilo e iIsso marca uma geração e traz uma ironia com a semelhança da sonoridade “ai” de seus nomes com a interjeição associada à dor. Surgem no mercado como oxigênio a uma nova espécie e definem de maneira prática aquilo que pode ser entendido como consumir dor. Pois o consumidor tem como papel neste teatro ser um sofredor assombrado pela necessidade da aquisição e pelo vício da novidade. A tão batida história de que a cria domina o criador. Só que nesta versão nós somos os escravos, como se estivéssemos à mercê dos produtos que produzimos e a sociedade fosse dependente da mais letal droga sintética: o consumismo.

consumed_by_zillaan-d6whdz3.jpg

Não precisa ser um observador voraz para notar tais projeções, até o mais desatento percebe essa tendência consumista em nossa sociedade. Mas o que chama atenção nisso é somar esta percepção com alguns fatos econômicos interessantes. A quantidade de cartões de crédito que estão ativos é algo assustador, e o endividamento do brasileiro cresce sem parar. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), o número supera a população que, de acordo com o Censo de 2011 do IBGE, somou quase 193 milhões de pessoas, contra 462 milhões unidades desta moeda de plástico. Isso significa que, segundo a estatística, da criança ao idoso, cada habitante tenha por volta de 2,4 cartões. Se compararmos o total de cartões de crédito e de lojas em relação à População Economicamente Ativa (PEA), o número de cartões por brasileiro sobe para 4,4.

Este retrato da realidade é um diagnóstico que diz muito sobre a saúde psíquica da sociedade. O Homo Sapiens que não é capaz de criticar sua sapiência não é digno de ser sapiens. Desta forma surge essa nova espécie, o Homo Commodities, que se alastra em grande pandemia. De acordo com Jean Baudrillard, sociólogo e filósofo francês falecido em 2007, não há vítimas nesta história, apesar de ter diversos prejudicados. Baudrillard desenvolveu sua teoria sobre o consumo e colocava as massas como cúmplices do quadro atual. Se você parar para ver, por exemplo, a imensa crítica que existe no que diz respeito às taxas de juros abusivas dos cartões, talvez ele realmente tenha razão. Pois não devemos esquecer que estes juros malvados não ocorrem sobre o valor das compras efetuadas (já temos demais nesse campo!), mas sim da falta do pagamento. Ou seja, culpar os juros abusivos, o monopólio dos bancos ou outros argumentos que coloque o consumidor como vítima é simples desculpa, pois estes valores ‘abusivos’ são cobrados somente às pessoas que não conseguem controlar o instinto consumista, comprando cada vez mais, mesmo sem poder pagar depois. Em referência aos valores de produtos, a responsabilidade também é nossa, afinal é você quem decide se vale ou não pagar mais de 500 Reais em uma calça jeans.

capitalism_by_blackdahliah-d3bh6y9.jpg

Há uma diferença teórica entre consumo e consumismo muito difundida. Mas a versão do consumo que diz respeito àquilo que compramos somente o necessário para a vida está em extinção, salvo níveis paupérrimos da sociedade. Atualmente os termos são praticamente sinônimos. O consumismo tem o caráter vilão de consumir acima das necessidades por compulsão para suprir aspectos emocionais, sendo predominante nas transições comerciais de hoje.

As marcas, a publicidade e o mercado em geral têm uma abordagem diferente do que antigamente. Cada vez mais há uma tendência das marcas se mostrarem preocupadas em ser amigas do cliente. Não se oferta mais produtos, mas sim sensações. Você abre a felicidade, e não a Coca-Cola, você compra status e não um veículo ao adquirir uma Ferrari. Cada vez mais os produtos estão associados a emoções, estilos de vidas e outros símbolos que persuadem as pessoas a acreditarem que aquilo é essencial para a vida delas, que as insere em um grupo e de que realmente seja uma virtude. O vínculo de dependência que isso está criando enaltece a verossimilhança da publicidade à realidade. O marketing nunca esteve tão em voga e profissões deste ramo surgem com grande destaque, como o neuro-marketing que tenta descobrir quais áreas do cérebro são ativadas ou estimuladas em situações de consumo e estuda biologicamente estes efeitos para maximizar as vendas.

Outro francês, o filósofo e professor Gilles Lipovetsky, chama de “hiperconsumismo” o que vivemos hoje. Segundo ele, isso caracteriza cidadãos com pensamento de “sempre mais” como base de sua estrutura racional. Desde o final do século 19 e depois da revolução industrial o planeta passou por uma mudança de mentalidade com a disseminação da comunicação, o desenvolvimento da publicidade, a expansão do marketing como um diferencial para as empresas e diversos outros fatores que conhecemos no nosso dia a dia que ligam pessoas à marca. Muitos estudiosos veem esta época como a iniciação da “Sociedade de Consumo”. Mas cabe observar que o consumo existe desde que o homem pisou na Terra. A existência é uma constante troca e a troca é o cerne do comércio, logo do consumo. Sistemas econômicos e processos de compra são o raio-x mais sinceros de uma nação. Como Nietzsche já afirmava, “comprar e vender, juntamente com seu aparato psicológico, são mais velhos inclusive do que os começos de qualquer forma de organização social ou aliança”.

A sociedade nos moldes de hoje já foi apontada por vários pensadores. Marx, por exemplo, já explanava sobre isto no primeiro capítulo da sua obra intitulada de Capital, em que analisa a mercadoria e a subjetividade das coisas relacionando-as com a objetividade das pessoas. Na literatura muitos autores também fizeram suas críticas aos moldes que estão hoje estabelecidos. Quem fez isso de um modo genial foi Carlos Drummond de Andrade no poema chamado “Eu, Etiqueta”. Neste poema, Drummond diz da condição do homem passando de indivíduo para coisa: “Eu que antes era e me sabia, / Tão diverso de outros, tão mim mesmo, / Ser pensante sentinte e solitário / Com outros seres diversos e conscientes / De sua humana, invencível condição. Agora sou anúncio / Ora vulgar ora bizarro. / Em língua nacional ou em qualquer língua”. Com isso, Drummond aponta para a desumanização que passamos nesta nova era, transformando-nos em mercadoria. Com a sabedoria que só a poesia nos dá, Drummond ainda diz “Em minha calça está grudado um nome / Que não é meu de batismo ou de cartório / Um nome… estranho. / Meu blusão traz lembrete de bebida / Que jamais pus na boca, nessa vida, / Em minha camiseta, a marca de cigarro / Que não fumo, até hoje não fumei. / Minhas meias falam de produtos / Que nunca experimentei”, encerrando definindo-nos pelo que somos: “Meu novo nome é Coisa. Eu sou Coisa, coisamente”.

Preocupante é um fato apontado por Lipovetsky, que afirma que o “ethos consumista tende a reorganizar o conjunto de condutas”, ou seja, os processos de compra das pessoas estão ‘infectando’ nosso modo de existir, se relacionar, a nossa espiritualidade e até a política. A doutrina descartável está em ascensão, com isso a ansiedade, o desejo do novo e o eterno descontentamento. Ainda sobre os sintomas da doença do consumismo, o famoso e um dos mais influentes sociólogos contemporâneos, Zygmunt Bauman, aponta que quando as identidades são construídas em cima dos valores do mercado, da compra e do consumo, as situações humanas tendem a ser mais ríspidas, com maior competição ao invés de unificar pela cooperação e solidariedade.

consumer_waste_by_moppaa-d7c23wm.jpg

Assuntos hoje discutidos incessantemente como consumo responsável, desenvolvimento sustentável, coisas politicamente corretas estão ligados a esta questão de forma indivisível. Como reeducar humanos a não serem humanos? Numa visão mais radical, é esta a proposta destas novas discussões. O filósofo e pensador Nietzsche mostra um pouco a relação do consumo com a Vontade de Potência, que seria a pulsão inicial do homem. Para o autor de Zaratustra, o devir como conhecemos mais popularmente, sendo a mudança constante, é mais importante que a identidade das coisas ou o Ser delas, contrariando a visão de Platão. Nesta visão, as coisas são o que são de forma diferente o tempo todo, ou seja, de acordo com o momento que elas são. A Física nos ajuda a ver isso mais claramente, pense em uma equação. O resultado (a ação daquilo) é a interação de forças envolvidas, é variante de distintas circunstâncias. Estas tendem a um movimento no sentido da força de maior representatividade. Noutras palavras, aquilo que é, é naquele momento, pelas variáveis que o define. É assim que Nietzsche elabora sua Vontade de Potência. Resumidamente, a Vontade de Potência relaciona-se com o consumismo por explicar a origem do desejo. A Vontade de Potência no consumo é de existir, assim como um princípio de vida, uma vontade à realização individual que identifique o ser com o ambiente em que se insere.

Não devemos nos esquecer que consumir é uma palavra contrária a produzir. Agora o homem se consome sem notar, se apaga preenchendo-se de marcas, se identifica em segmentos, vive aprisionado no mundo do consumo que ele mesmo criou. Nesse ritmo alucinante o quadro da humanidade vai se agravar. Mas vamos esperar para ver notícias de como o mercado vai se comportar e se as novas discussões sustentáveis não seriam um sinal da percepção da nuance destrutiva do consumo.


Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/recortes// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Ahas
Site Meter