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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Envergonhe-se!

A vergonha na cara está em falta em tempos de exposição


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Charles Darwin, responsável pela teoria da evolução, estudou os mais variados tipos de comportamento das espécies vivas na Terra. A partir daí, ele chegou a uma conclusão muito interessante tendo em vista as expressões e sentimentos existentes. Segundo o naturalista, o rubor é o mais especial e o mais humano de todos os afetos. Como veremos, ele não é o único entre os intelectuais que defende essa condição exclusiva que o rubor exerce no leque de afetos que a pluralidade humana compõe. Mas afinal, o que há de tão notável nessa sensação incontrolável que a caracteriza de forma tão singular?

Este sinal é símbolo da vergonha e denuncia muito mais que imaginamos. Aliás, aquilo que nos envergonha diz sobre nós coisas que muitas vezes custamos a admitir conscientemente, pois a cognição muitas vezes nos ludibria sobre nossas próprias vontades e limitações. A vergonha sempre é sincera. Para Sartre, ela é o sentimento inevitável da consciência de ser para outrem. E o que veremos aqui é que há muita razão nessa afirmativa, e que a vergonha é um sentimento puramente social, corroborando com o que já dizia um dos grandes intelectuais do século XX, Lévi-Strauss.

Apesar de todos já terem experimentado a vergonha, ela é pouco explorada e refletida no campo da psique. Seus desdobramentos são inúmeros e ganham uma flexibilidade bastante peculiar em todos os campos de sua definição. Porém, a sociabilidade que há no sentimento da vergonha entra em cheque ao encontrar um dogma presente na atual era da exposição, que roga o axioma “compartilho, logo existo”.

Este é um paradoxo interessante. Vivemos em um período que falamos tudo nas redes sociais, participar deste movimento faz parte do existir coletivamente. Expomos gostos e opiniões sem economizar caracteres. Mesmo não falando diretamente a própria opinião sobre algo, o simples fato de compartilhar qualquer conteúdo mostra sobre a personalidade de quem expôs. O fenômeno “vergonha alheia” é um termo contemporâneo que vem deste comportamento, no qual o compartilhamento de opiniões faz com que terceiros sintam “vergonha” por aqueles que expressam coisas que não vão de encontro às suas preferências ou seu universo intelectual, uma espécie de compaixão da vergonha, com um sentido pejorativo.

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Outro aspecto interessante da vergonha vai além das modernidades cibernéticas. Este adentra mais o campo moral e ético com que o sentimento se entrelaça tão fortemente. Como defende Spinoza, a vergonha é a tristeza que acompanha a ideia de alguma ação que imaginamos censurada pelos outros. Desta forma, a vergonha força a projeção de uma imagem de si que é impactada com o modo de como se é visto, esse atrito resulta em uma riqueza de percepção e autoanálise. Este é o gancho que dá sustentação aos pensadores que definem a vergonha como um instrumento social. Certamente você já ouviu afirmações que a geração de hoje “perdeu a vergonha”, “não tem vergonha na cara” ou ainda outras sobre a política no Brasil ser “sem vergonha”. Ter vergonha aparece como algo positivo nestes provérbios, mas ainda há conceitos que dizem o seu oposto, como situações “vergonhosas” ou coisas que são “uma vergonha”.

Este ponto chama a atenção nas definições pela diversidade dos significados listados nos dicionários e principalmente pelo fato de alguns destes adjetivos serem opostos: desonra/honra, indignidade/dignidade, humilhação/brio. Isso fortifica o palpite de Darwin, pois desta multiplicidade na aplicação se dá sua exclusividade.

Tanto por seus aspectos biológicos (pois desencadeia processos físicos que nenhuma outra sensação realiza, como alterações cardíacas e de pressão arterial, entre outras) quanto em seus fatores subjetivos, a vergonha nos coloca em uma posição que poucas emoções nos situa, pois sob sua ótica refletimos sobre nossas próprias condutas através do olhar do outro, ela transforma o homem animal em um ser cultural, exigindo que a pessoa que sinta a vergonha tenha, na verdade, consciência de si. Neste ponto fica evidente a sua importância como um termômetro social, e a pertinência da vergonha na sociedade mostra sua relevância para o equilíbrio da vida na coletividade, uma vez que viver no coletivo é perceber o outro e a si mesmo perante este atrito de existências.

A vergonha, porém, também se manifesta de forma mais branda. Por exemplo, há pessoas que se sentem envergonhadas quando cantam parabéns para elas em seus aniversários ou então por receber elogios de qualquer ordem. Nesta ótica, a vergonha estaria fora da concepção de que sua origem está na antecipação de um juízo negativo por parte de outrem e abarca um campo mais abrangente. No fundo, o gatilho que dispara este sentimento é a imprevisibilidade de comportamentos socialmente previstos, ou seja, o não saber como agir socialmente é o que gera a vergonha. Isso explica os motivos que levam pessoas a se sentirem envergonhadas mesmo quando a exposição é positiva, pois a ruptura das convenções sociais que um elogio traz pode gerar desconforto.

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A vergonha nem sempre é compartilhada, é possível senti-la sem exposição real, mesmo assim ela sempre deriva de uma avaliação perante o outro. A literatura aborda a questão com muito mais profundidade que a psicanálise e tem diversos exemplos, um deles pode ser encontrado na biografia de Albert Camus, O Primeiro Homem, em que ele narra sentir vergonha ao ter que escrever a profissão de sua mãe em uma redação, hesitando antes de colocar “domestique” (doméstica), mas logo sentiu constrangimento ainda maior, pois julgou essa atitude como uma deslealdade em relação à mãe. Em todas as instâncias de sua aparição, a vergonha é essencial na avaliação do Eu em relação ao outro e nos deixa claro que perder a capacidade de senti-la é também perder a capacidade de exercer a cidadania e viver em grupo. O sentimento da vergonha evoluiu ao longo do tempo com a espécie humana e é também um fator vital de preservação. Aqueles mais isolados e menos preocupados socialmente tinham uma menor chance de sobrevivência.

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Talvez a falta de vergonha que as gerações mais antigas acusam a de hoje tenha certa coerência. Não é simplesmente moralismo nostálgico, está implícito neste comentário o individualismo que atrofia a percepção do outro em nossas relações. Um antropologista americano, motivado a entender o funcionamento das sociedades, estruturou as culturas como sendo da vergonha e outras culturas da culpa. Um exemplo de culturas da vergonha seria o Japão, o sentimento de vergonha é intimamente ligado a ideais e valores relacionados à honra, não à toa que o país quase não registra casos de corrupção, pois a dignidade é valor absoluto, diferentemente do que vemos aqui no Brasil. Para o antropólogo Ruth Benedict, os japoneses agem eticamente para não ter sua imagem manchada diante de seus pares. Já as culturas ocidentais seriam estruturadas pela culpa. Neste âmbito, o indivíduo age de acordo com as leis para não se sentir culpado, são sociedades individualistas, a diferença é que esta emoção é privada e não precisa do olhar do outro para aparecer.

A dinâmica da vergonha mostra que de época em época ela se molda aos costumes e visões. “A vergonha é também ligada à nossa própria opinião”, afirma Aristóteles, por isso sua mutabilidade é possível. Coisas que eram vergonhosas ontem podem não ser hoje, como por exemplo, ser mãe solteira. Antes, representava uma vergonha frente à sociedade, hoje é vista como liberdade, opção de escolha. Com nossas ‘vergonhas’ menos severas, mais levianos somos socialmente. Daí a falta de vergonha vem ser uma ameaça para a vida em grupo. Um homem bom sente vergonha até diante de um cão, afirma Anton Tchecov, escritor russo considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Este sentimento profundo tem ligação direta com o outro em um caráter de respeito. Olhar o que nos constrange é uma boa maneira de se perceber em sociedade, a partir daí basta alinharmos nossas atitudes aos conceitos e fugir do conforto psicológico que criamos para nós mesmos não nos confrontar. É fácil culpar o outro pela a ausência do desenvolvimento social, difícil é se envergonhar sinceramente em ser parte dessa atrofia. Devíamos nos envergonhar mais e pelos motivos éticos para que o respeito seja o resultado deste embate. Afinal, temos que mudar essa realidade sem vergonha que vivemos.

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