weltschmerz

delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Atualmente sua mente atua ou mente?

A verdade é que o ser humano nasceu para mentir, mas há muitas verdades que você deveria saber sobre a mentira.


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Impressionante como a maioria das pessoas tem ideias diferentes sobre a mentira. Pamela Meyer, uma profissional em detectar mentirosos, diz que uma das unânimes verdades sobre o assunto é que somos contra este ato conscientemente, até aí parece óbvio que ninguém goste de mentiras. Porém, por outro lado, ela afirma que somos coniventes com o ato de mentir, damos apoio a ele. E mais, mentimos com uma frenquência muito maior que imaginamos. Mentir é complexo e ao mesmo tempo é mais velho que andar pra frente, sendo um dos indícios da evolução. Além de tudo, a mentira também é um aspecto moral. Mas calma, uma coisa de cada vez, esse nó complicado se desata com facilidade usando argumentos.

Primeiro vamos entender como e por que mentimos. Dessa forma será possível perceber qual o caminho para construir a confiança e dar um novo sentido ao valor da verdade, sendo sinceros com a gente e com os outros. Novas e interessantes pesquisas sobre o tema e também a visão de pensadores, escritores e da ciência vão nos fazer refletir sobre nossas verdades, além de nos tornar especialistas em detectar mentiras.

Alguns estudiosos do assunto dizem que existe um padrão no ser humano, aquele ditado que diz “macaco vê, macaco faz” não é à toa, nós reagimos às coisas de forma parecida. Sentimos dor, rimos, choramos e também mentimos de modos iguais. Conseguimos treinar muito bem nossa fala, em contrapartida não temos o mesmo controle sobre nossos gestos. É aí que muitas pesquisas encontram os sinalizadores de uma possível inconsistência. A ciência já sabe, por exemplo, que mentirosos mudam a frequência com que piscam os olhos, têm o costume de apontar os pés em direção a uma saída, inconscientemente pegam objetos e os colocam entre si e a pessoa, mudam o tom de voz, tornando-o bem mais baixo, na linguagem, se distancia dos fatos, entre outros padrões. Porém isso não é a evidência de uma mentira, são apenas indicadores. Esta atenção aos sinais deve ser combinada com o conhecimento, a visão e a audição; e não devemos nos esquecer que também somos humanos e todo o julgamento é tendencioso.

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A mentira cria o vínculo entre aquilo que desejamos com a realidade, ela é uma ferramenta do cérebro de preencher algumas lacunas sobre o que queremos ser do que realmente é. Nossa mente funciona sempre buscando respostas, o problema é que para ela tanto faz se a solução encontrada a uma pergunta é verdade ou mentira, ela deve ser simplesmente plausível. Quando, por exemplo, afirmamos que estamos seguindo a dieta ao escolher suco ao invés de refrigerante no Mc Donald’s, podemos sentir na prática como esse sistema de “boas mentiras” funciona. Nesse ponto ela peca, pois se esmiuçamos esses falsos argumentos plausíveis, faltam peças e por isso diz-se que uma mentira não se sustém.

O desenvolvimento da mentira acompanha a evolução do homem, sabe-se que quanto maior o neocórtex cerebral de uma espécie, mais propensa a mentir ela é e com a idade vamos aprendendo a mentir com cada vez mais eficiência. Por outro lado, a mentira não é feita só de males, a ilusão tem seus encantos e nós gostamos deles. Pense você o que seria da fantasia sem a mentira, dos contos de fadas, literatura, arte, do próprio amor. A ilusão é tão vital para o homem quanto o oxigênio que ele respira. Veja também a moralidade, um conjunto de condutas que pode ser facilmente interpretado como mentiras, uma vez que maquiam verdadeiras intenções. A educação em sorrir quando recebe aquele pijama de presente do seu avô e outras reações não tão espontâneas do tipo mostram o lado social da mentira. Nós a usamos como artifício para evitar atritos ou até para ser respeitável com os sentimentos de outrem.

A recorrência da mentira no dia a dia é muito mais corriqueira que imaginamos e vai além da esfera verbal. Aquela sua foto do Facebook ou Instagram, por exemplo, provavelmente é seu melhor ângulo, na sua melhor hora, isso se não tiver nenhum truque de Photoshop; a mulher que passa maquiagem e pinta os olhos de forma a parecerem maiores, usa sutiã com enchimento, também está mentindo para si mesma; e aquela camiseta preta que te deixa 5 kg mais magro? Pura burla. Acontece que mentimos para a gente sem notar e isso é, até certo ponto, natural do ponto de vista biológico. Outros animais também usam a técnica, na verdade, toda a natureza adora uma mentira bem contada, as plantas enganam as abelhas para que elas transportem seu pólen, os leões têm aquela cor justamente para se camuflar na savana, o camaleão então.... o rei o disfarce!

Outro fato: este comportamento é coisa de criança. Segundo os psicólogos, a infância é o período da vida em que sempre se mente e qualquer um que conheça crianças sabe disso, incentivamos muitas vezes achando graça da ocasião. Quer um exemplo? Minha sobrinha chegou para o pai dela e disse “papai, a vovó está com muitas saudades minha”. A artimanha da pequena rapariga de 5 anos era barganhar uma visita na casa da avó na praia, uma mentirinha fofa e meiga que provocou riso, mas ainda assim, uma mentira. Crianças usam a mentira como varinha mágica para satisfazer seus desejos, não é por acaso que elas costumam ver seus pais como verdadeiros super-heróis. A maturidade é agregar responsabilidades, ponto central da verdade, que a mentira isenta. Pois bem, sabemos disso conscientemente, o que não quer calar é por que somos propensos a mentir sendo que nossos valores estão voltados para a sinceridade nas relações interpessoais. Mentimos porque funciona. Quer ver? Há uma informação interessante sobre os casais, campo em que a confiança é a base para a estabilidade da relação. Estudos apontam que em um casal normal a mentira aparece em uma a cada dez interações com o parceiro, mas não fique desesperado caso isso te incomode, saiba que esse número cai para três interações em quem é casado. Nem pernas curtas e muito menos nariz grande, a mentira tem uma aparência muito mais diversificada que imaginamos. Um estudo publicado no “Journal of Basic and Applied Psychology” descobriu que 60% dos entrevistados mentiram ao menos uma vez durante uma conversa filmada de apenas dez minutos. Após eles assistirem as filmagens, os entrevistados ficaram impressionados em como mentiram sem perceber.

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Machado de Assis diz que a mentira é tão involuntária como a respiração. Estima-se que falamos cerca de 200 mentiras ao dia (de um inofensivo ‘bom dia’ para aquele colega de trabalho que você não gosta a um ‘estou gripado e não vou trabalhar’ para justificar uma ausência), isso distribuído no dia daria mais ou menos uma mentira a cada cinco minutos, é muita falsidade. Santo Agostinho foi um pensador que quebrou a cabeça tentando decifrar o tema, escreveu dois livros sobre isso, não contente, mandou queimar o primeiro e não saiu satisfeito de suas reflexões. Ele tenta estabelecer uma relação entre a ética e a mentira (se é que isso é viável) e aponta o curioso cenário: um amigo em estado terminal não sabe que seu filho viera a falecer, ele quer poupar essa dor ao doente em seus últimos momentos, caso ele diga a verdade, será responsável por grande tristeza e uma morte mais agonizante do amigo, se optar por calar ou desconversar estará a mentir, como proceder? Para essa indagação, o filósofo aposta que a compaixão pelo enfermo compensaria o ato perverso de mentir, Agostinho usa a mesma tática de Confúcio, que diz apenas quando uma verdade prejudique uma família ou nação, ela não deve ser usada. Já Aristóteles era mais radical, para o pensador só são permitidas duas maneiras de mentir, ou aumentando ou diminuindo uma verdade.

Freud sempre explica. Ele diz que nenhum mortal é capaz de guardar um segredo. Trocando alhos por bugalhos, o que ele quer dizer confirma o ditado de que a mentira tem perna curta. Parece um pouco óbvio que o futuro da mentira seja a própria vergonha, pois ela não pode se sustentar e cedo ou tarde a máscara vai cair, mesmo assim a usamos com frequência porque ela funciona num primeiro momento, porém ela é frágil. Em épocas que acontecem relações efêmeras, o uso de mentiras acaba se tornando mais usual, e, como diz o ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, uma mentira muitas vezes repetidas, torna-se verdade, ou seja, o problema é se este hábito se transforme em mania ou vício, ou um estágio mais patológico, quando passa a se acreditar na mentira.

Não adianta mandar uma foto linda que nem parece você para aquela paquera virtual que quando o encontro acontecer a pessoa verá a verdade, o fruto da mentira é sempre a frustração, acredite, ela não funciona. Fugir desse estigma humano de ser um mentiroso por natureza é, na verdade, muito mais simples do que parece e você está fazendo agora: é ouvir. Exatamente, parece simples, mas ouvir é na verdade prestar atenção, concentrar-se no que importa, ouvir sua voz interior e também ao mundo ao seu redor com foco, isso é complexo; perceba que o mundo de hoje é repleto de ruídos, redes sociais que perguntam o que você está pensando, o que você está fazendo, perguntando onde você está, enfim, há muito barulho aí fora, compartilhamentos, amigos virtuais, exposição gratuita da intimidade, necessidade de atenção das pessoas, ansiedade, culto da felicidade instantânea… tem muita coisa, é necessário fazer isso tudo calar para ouvir a própria essência. Nietzsche diz que sábio é aquele que saboreia, em outras palavras, devemos degustar nossa natureza. Desfrutar nosso tempo de forma a evidenciar nossos valores pessoais e perceber nossos caminhos, silenciando essa gritaria toda, assim, certamente você verá que não serão as mentiras que estarão nas escolhas.

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Se juntarmos nosso conhecimento sobre a espécie humana com as últimas descobertas dos neurocientistas teremos uma surpresa que talvez explique melhor essa realidade. Michael Gazzaniga, neurocientista professor da Universidade da Califórnia, afirma que não temos controle sobre nossas vontades, que nosso cérebro pré-determina nossas escolhas antes de termos consciência dela, o que o cérebro faz depois disso é justificar essa escolha. Será aí a loja de brinquedos Pinóquio? A grosso modo, o lado direito é quem decide e o lado esquerdo do cérebro é quem conta história. O lado esquerdo interpreta o mundo e dá significado a ele enquanto o direito guarda nossas informações genéticas. Este processo de dar significação é o ponto em que mentimos para nós mesmos, em que você justifica a compra de um celular de última geração como algo necessário, mas quem decidiu foi algum instinto do lado direito muito provavelmente por outro motivo.

No final, somos aquilo que fazemos ao outro, ninguém quer ser uma mentira. Ser sincero com seus próprios objetivos e ter a ciência que a integridade de caráter é e sempre será um valor supremo são passos decisivos para conseguir criar uma realidade coesa, e quando isso acontece, as pessoas que não se enquadram nesse perfil aos poucos deixam sua vida ao mesmo tempo em que suas relações baseadas na confiança aumentam. Nas palavras muito bem ditas da especialista Pamela Meyer, “quando você se isenta de participar de uma mentira, você torna mais explícito seu código moral e este é o caminho, pois isso força que você sinalize para todos ao seu redor que você quer um mundo mais honesto em que a verdade é reforçada, e a falsidade será reconhecida e marginalizada. E quando você faz isso, o chão a sua volta começa mudar um pouco”.

Portanto, a verdade é que mentir é uma opção, cabe a nós julgarmos se queremos uma felicidade de mentira ou se queremos uma alegria honesta. Há uma frase muito interessante que diz: caráter é quem você é no escuro. Se, de repente, ao acenderem a luz você for a mesma pessoa, parabéns, você está no caminho certo.

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