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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Relatos Selvagens: um filme que expõe o primata que habita em nós

Talvez nosso amadurecimento como espécie nos leve à podridão


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Ao que parece, aqueles dois genes que nos diferenciam dos chimpanzés não foram suficientes para eliminar a selvageria que há em nós. Talvez até o contrário, a mutação deu mais consistência a ela. Conhecidos na natureza por ter o dom do pensar conscientemente, o ser humano toma atitudes que muitas vezes parece ir contra essa marcante característica. Pelo menos é esta a sensação que o longa-metragem coproduzido entre Argentina e Espanha, Relatos Selvagens, traz em 6 casos que nos convidam a repensar o absurdo que é viver.

São histórias que mostram as histerias da consciência de uma maneira ilógica, porém justificáveis. Afinal, a fé torna real qualquer ideal, por mais falta de razão que este tenha. A ideia do filme é ser uma comédia contemporânea com pessoas que experimentam atitudes extremas em situações análogas à realidade. Uma provocação e brincadeira com o cotidiano real, em abordagem bem-humorada e cheia de humor-negro. Porém, se toda a brincadeira tem um fundo de verdade, em Relatos Selvagens ela ri de nossa cara.

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Vamos passar pelas histórias sem entregar os fatos. A primeira narrativa é uma vingança bem elaborada, um avião no qual todos os tripulantes compartilham um desafeto a uma pessoa em comum (eles descobrem isso durante a viagem), e percebem que aquilo é na verdade um sequestro. No segundo caso, duas funcionárias de uma lanchonete recebem um cliente extremamente mal-educado, sendo que este homem destruiu a vida do pai de uma delas. A terceira anedota nos apresenta uma briga de trânsito que termina de modo extremo, bem extremo. Depois, conta sobre um engenheiro indignado com uma multa de trânsito e com a burocracia, ele responde a esses contratempos de forma “politicamente incorreta”. Na quinta história, um milionário tenta livrar da cadeia o filho, que atropelou fatalmente uma grávida e fugiu, usando suborno e mentiras. E a última, fala de uma noiva que descobre uma traição no dia da festa do seu casamento (a amante está lá, inclusive). Ou seja, histórias que não estão totalmente no campo da ficção e que poderíamos protagonizar.

O que liga as histórias? Somente seus motivadores. Vingança, raiva, frustração, violência, traição, impotência e outros sentimentos que estão enraizados e são estimulados nas circunstâncias que nosso dia a dia nos submete, além do fato de que, em todas, os personagens resolvem fazer justiça com as próprias mãos. A reflexão que o filme propõe é sobre a relação de civilidade que temos com o outro, que pode ser desde um parceiro (como no caso do casamento) a um desconhecido (como na briga de trânsito), e o mais importante: quando esse fio de lógica social se rompe num acesso de fúria descontrolada.

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Se por um lado criar a linguagem foi o salto decisivo que nos diferencia de todo o reino animal, essa mesma linguagem nos causa transtornos e complexidades inexistentes em outras espécies. Esta característica nos permite o entendimento mútuo, mas também pode gerar o seu contrário. E o pior: de forma lúcida, com intenção mórbida. Ao observar essa selvageria, talvez possamos nos perguntar se a força da consciência e seu desenvolvimento poderiam indicar um caminho de retrocesso na escala evolutiva.

Muitos já questionaram nossa “evolução”. Existe uma série chamada True Detective em que o personagem Rust Cole tem uma sugestão na qual defende a hipótese que falhamos nesse processo de desenvolvimento. Nas palavras dele, “a consciência humana foi um erro trágico na evolução. Nós nos tornamos muito autoconscientes. A natureza criou um aspecto seu separado de si”. Essa separação do homem da natureza é algo muito interessante que fomentou muitos conceitos sobre o que é o selvagem. Sobre esta opinião do personagem ,há alguns desvios teóricos para validá-la numa perspectiva científica, de acordo com o pressuposto psicanalítico e os conceitos que compreende como consciência em Psicologia. Todavia, analisar a evolução como se ela tivesse (depois de certo ponto) nos levado a um desenvolvimento do nosso lado primitivo ou então pensá-la de um modo mais efetivo de sociabilidade é um rico exercício que pode gerar diversas linhas de pensamento. Dessa forma, podemos explicar a latente selvageria que está tão ligada a nossa natureza e se aflora em situações corriqueiras.

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Sob o aspecto da selvageria, somos macacos vestidos e cheios de consciência de si, com um currículo humanitário repleto de uma coleção de absurdos. Quando a consciência intensifica esse lado primitivo da incapacidade de entender o próximo, percebe-se que nossas reflexões estão voltadas para o eu e que a responsável por esse direcionamento possa ser a cultura. O resultado é a inteligência usada de forma animalesca e bárbara, quase sempre com finalidade destrutiva. Neste ponto, é interessante observar a continuação da fala do nosso amigo Rust, ele diz “somos coisas que operam sob a ilusão de ter um eu-próprio”, o que configura que a nossa consciência se expandiu a ponto de nos tornar tão únicos que o outro também é visto como diferente e jamais como semelhante.

Lidar com o que difere de nós é sempre uma experiência traumática. Temos evidencias empíricas de incríveis relatos de povos colonizadores que encontram os nativos e observam a eles como seres completamente distintos, duvidando se eles teriam “alma” (já que a teologia em tempos remotos tinha um forte domínio sobre o pensamento, antes da antropologia) e se eles deveriam ser considerados humanos. Os registros mais antigos contêm um vasto material especulativo. Por exemplo, os escritos sobre os americanos e índios, como em “Relatos Interessantes para servir à História da Espécie Humana”, de Cornelius de Pauw, ou então a famosa “Introdução à Filosofia da História”, de Hegel. O primeiro via o homem primitivo como um “vegetal” e “coisa” o segundo como “algo sem valor”. Todos tratam incivilizados como selvagens, associando a cultura ao ser desenvolvido. A figura mais estruturada do homem primitivo se formou bem depois disso, após o Renascimento, no rousseaunísmo do século XVIII e posteriormente no Romantismo.

Esse verdadeiro relato sobre os selvagens tem muitas facetas e interpretações, algumas devemos citar para mostrar também o outro lado dessa visão arcaica do homem primitivo. Os “povos distantes”, modo como eram referidos no Renascimento os nativos que foram descobertos por colonizadores, também tiveram interpretações extremamente positivas, mostrando-os como animais superiores à moralidade dos Europeus. Américo Vespúcio, ao descobrir a América, nos brinda com um excelente relato do povo que encontrou. “As pessoas estão nuas, são bonitas, de pele escura, de corpo elegante (...) Nenhum possui qualquer coisa que seja, pois tudo é colocado em comum (...) os homens tomam por mulheres aquelas que lhes agradam, sejam elas sua mãe, sua irmã, ou sua amiga, entre as quais eles não fazem diferença". Cristóvão Colombo também narra sobre os habitantes do Caribe, “Eles são muito mansos e ignorantes do que é o mal, eles não sabem matar uns aos outros (...) Eu não penso que haja no mundo homens melhores, como também não há terra melhor”. A crueldade entre os membros do mesmo grupo passa a ser critério de reflexão dos intelectuais. Montaigne diz sobre os selvagens, "podemos, portanto, de fato chamá-los de bárbaros quanto às regras da razão, mas não quanto a nós mesmos que os superamos em toda sorte de barbárie". E então, quem é o selvagem?

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Controlar nossos instintos e afastar o homem da bestialidade têm sido desde sempre o papel da consciência. Graças a este controle podemos exercer a cidadania e coexistir de forma harmônica com os interesses alheios aos nossos. O curioso é que no filme a violência e vingança estranhamente inspiram simpatia em quem assiste. Surpreendemo-nos ao descobrir em nós um tipo de solidariedade àquelas situações, talvez motivada por um senso de justiça intrínseco que nos acompanha desde nossos antepassados. Isto faz que a trama de Relatos Selvagens pareça ser tão atual em nosso contexto, expondo a nós mesmos o que há de primata em nós.

A antropologia e a filosofia se encarregaram de se debruçar sobre este tema. Afinal, pensar nossas origens foi o passatempo predileto de diversos intelectuais e religiões. A dualidade do pensamento entre sermos seres individualistas e egoístas ou sociáveis e altruístas tem aos montes. Mas o traço da selvageria mais marcante deriva do fato de desconsiderar o outro, repelindo-o com violência. A antropologia ilumina melhor este tema através do estudo de nossos antepassados e de nossos parentes mais próximos, como os chimpanzés e bonobos, que mantêm uma convivência com seus pares mais próxima das que o homem tem, além de compartilhar aproximadamente 99% do DNA conosco.

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Os fatores que nos põe no topo do desenvolvimento na esfera terrestre são muitos, mas tem um que nos intriga. Além dos nada menos de 100 trilhões de sinapses que nossa cachola é capaz de produzir, motivadores mais subjetivos foram vitais para que possamos ser o que somos. Um dos mais incisivos é nossa capacidade de cooperar. Para entender isso, devemos ter em mente que se reproduzir e perpetuar como espécie forma o cerne de qualquer essência viva na Terra. E mais, um grupo tem mais chances de sobreviver do que um indivíduo solitário. Acredita-se que nossa aptidão cooperativa foi quem pôde propiciar esse objetivo de evolução social. E mais, esse traço se desenvolveu a partir da noção de monogamia que surgiu entre os primatas. Em outras palavras, o amor ao próximo também nos fez evoluir.

Tem muito caroço ainda nesse angu. O termo conhecido como “o bom selvagem” de Rousseau e o estado natural de Hoobes e Loke são alguns dos muitos prismas que envolvem essa discussão sobre a verdadeira índole humana em que se aponta o problema das relações entre a natureza e a cultura. O debate é longo, poderíamos estender isso por diversos parágrafos, mas vamos manter o foco no filme, que certamente nos alerta de algo essencial que podemos, mas não devemos, nos esquecer: de desconfiarmos de que estamos finalmente mais evoluídos, conscientes, lúcidos e libertos. Neste confronto com o filme, vemos que não é bem assim.

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