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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Somos todos terroristas

Usamos diariamente a arma mais nociva inventada pelos homens


01.jpg E se eu te disser que sua existência tem um sentido maior, muito maior do que você pensa. Você é especial e sua vida tem um propósito, uma missão. Cumpri-la lhe trará a maior de todas as recompensas: um paraíso. O melhor lugar do universo, com as melhores coisas da vida, a libertação de todas as angústias, onde apenas o prazer e a alegria podem reinar. Agora, imagine que você tem apenas sete anos de idade. Se repetissem isso incessantemente, cedo ou tarde você iria acreditar nesta história e saberia que quando morrer iria para um céu, o Éden. Exatamente por isso você decidiria (sem o mínimo de dúvidas) apertar um dispositivo e se explodir, impactando o maior número de pessoas possível ao redor. Você seria chamado no ocidente de terrorista, enquanto em outra cultura, seria chamado de herói.

Talvez a realidade de um “homem-bomba” seja uma situação extrema para nós, mas ainda assim é uma realidade que mostra muito bem a complexidade, de certa forma ignorada, que há na formação do discurso. Essa questão passa despercebida pelo âmbito da educação estrutural de cada cidadão, mas está inserida em nosso cotidiano de forma empírica e é o que, de fato, caracteriza as sociedades. O foco dessa reflexão é entender o quão nocivo esse artifício pode ser e como ele é a maior arma já desenvolvida pelo homem. Parafraseando Heidegger, que diz “só há mundo onde há linguagem”, podemos dizer que a linguagem é igual ao mundo.

É por meio do discurso que se convence e transforma, são as palavras que conduzem as ações. O provérbio que afirma “a fé move montanhas” tem bastante fundamento nessa perspectiva. A fé realmente tem o poder de fazer o impossível se tornar possível, ela é capaz de acabar com o vício de drogados em estágio avançado, salvar pessoas vistas como sem salvação da criminalidade, manter estabilidade emocional por meio do torpor. Sêneca tem uma frase muito interessante que toca exatamente o ponto central destas ponderações, evidenciando uma abordagem com uma relevante autocrítica. Ele diz: “os homens preferem crer a crescer o seu julgamento”. Analisando historicamente, isso é um fato. Essa conjuntura cria um cenário muito peculiar, é como juntar a pólvora ao fogo, a fome com a vontade de comer. Se por um lado as pessoas querem acreditar e buscam a fé, por outro temos discursos com a finalidade de persuadir e manipular.

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A característica central do discurso é igual a de um contorno, que delimita o sentido como toda a linguagem, cuja finalidade é estabelecer conceitos e direcionar o interlocutor. É importante deixar clara a diferença que há entre persuadir e manipular, que apesar de ter o mesmo efeito (convencer alguém de determinado pensamento) utiliza meios diferentes para tal objetivo. Na persuasão, o foco é provocar a adesão utilizando sobretudo elementos racionais, porém não se separa do emocional. Já a manipulação tem intenção deliberada de desvalorizar os fatores racionais, apelando a uma adesão sobretudo emocional. Um exemplo que demonstra essas técnicas de manipulação sendo utilizadas pode ser visto nos discursos de Hitler, que eram ensaiados em demasia com modelações no tom de voz, gestos dramáticos, olhares firmes e expressões faciais que davam ênfase aos momentos mais importantes. Eles abordavam de forma muito emocional quase sempre os mesmos temas: o ódio aos judeus, o desemprego e o orgulho ferido da Alemanha.

Esta forma manipulativa acaba sendo cada vez mais frequente em uma sociedade que não evolui do ponto de vista democrático, entendendo democracia como a harmonização de ideias diversas. Com a maior amplitude de expressão das pessoas advinda da disseminação da Internet e redes sociais, encontramos com facilidade um grande número de discursos inflamados, carregados de emoção e que causam adesão pela identificação e não pela capacidade argumentativa. Isso depreciou um termo visto com bastante importância no passado, que é a retórica. Hoje, essa palavra é quase sempre empregada no sentido pejorativo, mas a verdade é que na Grécia antiga a retórica era levada bastante a sério e encarada como uma arte, um exercício constante de autoaperfeiçoamento da maneira de falar de forma clara, nunca com o sentido de enganar.

Uma premissa interessante da retórica é que não existe uma verdade, mas diversas verdades de acordo com cada indivíduo. Aristóteles discorreu de forma bastante rica sobre o assunto, para ele a retórica não se apresenta como poder de dominar, mas de defender-se, na qual, em uma de suas percepções, é mais desonroso ser vencido pela palavra que pela força física, já que a palavra é característica exclusiva do homem. Outro pensador que traçou uma complexa teia sobre o tema foi Foucault, ele problematiza o discurso na sociedade em seu livro “A ordem do discurso”, que nos alerta sobre seu uso como uma ferramenta de poder e domínio, consequentemente, como forma de controle, coerção e exclusão social. Para o sociólogo, a mesma educação que dá acesso aos discursos, limita o sujeito, tornando o sistema educacional como uma maneira política de controlar e conduzir a apropriação dos discursos.

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A verdade é que usamos o discurso a todo o momento. Para falar com o porteiro, fazer compras no mercado, em conversas corriqueiras com pessoas que não são próximas e também em situações um pouco mais complexas como convencer amigos a ir a um restaurante ou algo mais sério como defender um ponto de vista em um ambiente de trabalho. Desde que aprendemos a linguagem, exercitamos a arte da retórica, da tenra infância à velhice. Estamos habituados ao discurso, porém ele não é teorizado nas escolas, apesar de ser algo relevante na construção do pensamento, mas instintivamente exercitamos essa capacidade. Em contrapartida, se não houver uma estruturação na formação do discurso, a sociedade toda pode entrar em colapso ideológico, caso sua construção se macule com mentiras e interesses, sendo objeto de poder e não de entendimento.

Chaïm Perelman é um dos nomes mais importantes da Retórica do século passado, com extensos materiais sobre o tema. Ele vê o discurso como elemento fundamental da argumentação, sendo o fator que efetuaria a interação entre emissor e destinatário. Ele reforça a versão de Aristóteles sob uma nova visão, corroborando com Cícero e Quintiliano que diz sobre o prévio conhecimento daqueles a quem se dirige a retórica ser a condição para o desenvolvimento de uma argumentação eficaz. Ou seja, essa interação e preocupação com o outro não deve ser encarada como uma persuasão negativa, que tem como finalidade a manipulação. O discurso em sua pureza é o elemento que favorece o entendimento mútuo, quando isso se perde, entramos em um processo vicioso de adesões e agrupamentos que visam apenas interesses próprios.

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Por exemplo, esse texto foi escrito como uma forma de convencê-lo, com argumentos racionais, porém com um apelo emocional, mas não com o intuito de manipular, mas sim atingir o ápice do discurso que é fazer a própria pessoa se convencer de uma ideia proposta. Isto está além do embate, está no campo da compreensão. Por isso, é importante se atentar ao teor do discurso, pois apesar dele ser corriqueiro, não deve ser à toa. Não podemos e nem devemos controlar o que os outros devem falar, o que podemos e devemos é salientar a importância das palavras no discurso, garantindo assim, que o outro entenda a responsabilidade inerente à própria fala. Desta forma, certamente os discursos inflamados da atualidade teriam uma abundância em profundidade e sentido, pois se todo o discurso emite uma mensagem, oral ou escrita, isso significa que ele é sempre uma construção social, e não individual. Isso aumentaria o respeito, a noção de sociedade, o entendimento da diversidade e, consequentemente, nos tornaria mais plenos na coletividade. A compreensão do discurso por parte do outro é também um ato de confiança, traz um sentido igualitário. Por isso, igrejas e seitas mantêm seus fiéis, por meio do entendimento do discurso.

No entanto, aí que mora o perigo, pois muitos discursos são envenenados. Devemos exercitar a capacidade de duvidar, de entender a certeza também como uma ameaça. Pois de fato ela é, afinal, o garoto de sete anos que se explodiu no começo do texto tinha suas certezas, e por elas fez escolhas que se tornaram atitudes. Se pensarmos a realidade como linguagem, toda a afirmação é uma espécie de extinção de possibilidades. Em uma existência plural, é impossível ter apenas um ponto de vista firmado, compreender isso pode ser o primeiro passo para compreender universos diversos ao seu. Como bem coloca o poeta Fernando Pessoa, “sê plural como o universo”.

A prática da análise do discurso aprimora as próprias habilidades de compreensão. Platão tem uma visão bastante interessante que tenta encontrar a verdade pela oratória e discurso, ele por um lado repudia toda a intenção persuasiva que há no discurso, porém busca a verdade por meio da tentativa de excluir os desejos que há ocultos ou explícitos no discurso, algo que Foucault diz não ser possível separar. Porém, com este método, Platão tinha uma grande capacidade de persuadir e era bastante conhecido por isso. Seu pensamento tentava buscar sempre a verdade por meio da dúvida, inclusive das próprias impressões. Esse constante questionamento cria mais responsabilidade em nossos discursos. Assim, certamente poderemos criar uma realidade melhor, pois são os discursos que guiam a humanidade, criam guerras, paz, caminhos e esperança. Da mesma forma como Hitler conduziu uma nação inteira a atrocidades ou como Martin Luther King tentou instruir os homens à sabedoria, a ferramenta que ambos utilizaram foi a mesma, mas de formas bastante distintas.

Por fim, para testar a força do discurso, pensei em uma forma de aplicar os conceitos que aqui expus em minha realidade, algo como São Tomé que ficou conhecido pela máxima “só acredito vendo”. Resolvi ser um rato de laboratório e escolhi algo que realmente fosse um desafio para mim, o exercício era que por meio da palavra e discurso eu pudesse superá-lo. Antes de escrever esse texto, tive que vencer um vício que até então pensei que nunca me livraria, o hábito de “comer unhas”. Usei meu discurso, a palavra, para me convencer e ter força para enfrentar minha adversidade, consegui largar o vício que me acompanha desde a infância graças à autoafirmação em não fazer algo que julgava ser mais forte do que eu. Espero que essa experiência faça você também acreditar que pode realizar aquilo que lhe pareça impossível, mas nunca se esqueça de sempre confrontar suas crenças com justiça e razão.


Ahas

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