weltschmerz

delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Macaco vê, macaco faz

Você é exemplo de quê?


capa.jpg

“Diga-me com quem andas e te direi quem és”, quem nunca ouviu esta famosa frase? Apesar das diversas controvérsias que se ocultam em suas entrelinhas, a lógica dessa sabedoria popular está no fato de servimos de referências uns aos outros e também como esta influência afeta a formação do nosso caráter. A todo o momento somos exemplos. Observados constantemente, nossa postura diz mais sobre nós do que aquilo que falamos.

Corroborando com este ponto de vista, o filósofo idealista irlandês George Berkeley vai um pouco além e afirma que “Ser é ser percebido”. Essa frase tem um quê provocador e atordoa por exibir a individualidade como um processo coletivo. Isso faz esta colocação se encaixar com harmonia neste contexto e vem a calhar com nosso tempo, no qual a grande relevância das redes sociais é justamente por esse fator de se fazer perceber nos likes e compartilhamentos. Na construção deste reconhecimento entre os seres se concentra a questão sobre o valor do exemplo na sociedade e suas profundas relações com a natureza humana.

Algumas descobertas mais recentes da neurociência no que diz respeito aos Neurônios Espelho e também apontamentos antropológicos, sociológicos e filosóficos nos ajudam a entender como o Exemplo tem impacto fundamental na contemporaneidade. Inclusive, como ele pode representar o grau de evolução de uma sociedade. A escassez ou o empobrecimento de ídolos, símbolos e pessoas em quem se inspirar é decisivo em nossa forma de pensar e na perpetuação de valores, além de ter ligação direta com a ética, sendo base vital para a boa convivência entre as pessoas. Nesta breve visão, é possível perceber a complexidade e a abrangência do tema.

insana2.jpg

Como ponto de partida, devemos entender que somos seres naturalmente corruptíveis. Tirando toda aquela divagação filosófica se nascemos bons ou maus, de Rousseau contra Hobbes, há alguns fatos importantes a se ponderar do ponto de vista biológico da coisa. O tema corrupção está em evidência nestes últimos tempos frente às barbáries políticas que o Brasil vive (essa discussão é bem positiva), sendo a maior crise ética da história do país, apesar disso, não vamos nos voltar à política para falar de corrupção, pois todas as pessoas podem ser corruptíveis. De certa forma, ela é inerente ao homem e a política, sendo reflexo do seu povo, escancara esta característica da forma mais hedionda.

Este hábito é como se fosse parte de nossos genes, tendo inclusive hipóteses para justificar a argumentação de que a corrupção é um fator genético. Sob o ponto de vista do Exemplo, podemos dizer que a corrupção também é socialmente hereditária quanto ao comportamento. Demostrar nossa pré-disposição é simples e pode ser feita de maneira prática. É possível constatar de forma menos radical o efeito corruptível em nosso dia a dia através de uma autoanálise, basta observar as pequenas desculpas que criamos para justificar a alteração de alguma atitude que usualmente não tomamos; ou o contrário, desculpas que criamos para não tomar inciativas de coisas que realmente precisamos.

“Tive um dia cansativo e por isso posso dormir até mais tarde; “Acabei de correr 10 km, mereço comer um pedaço de pizza”. Coisas deste estilo parecem familiar a você? Quem nunca se autorrecompensou com algo que foge da conduta padrão como um “prêmio”? A questão é que essa conduta pode se ampliar, casos mais avançados podem ser vistos em situações que envolvam mais pessoas. Uma pesquisa do Instituto Vox Populi e da Universidade Federal de Minas Gerais apontou, por exemplo, que 23% dos entrevistados não consideravam um ato corrupto dar dinheiro a um guarda de trânsito para evitar uma multa; e 29% não viam como infração sonegar impostos. Por mais que concordemos ou discordemos, tenha certeza que todos têm argumentos bastante convincentes (e até persuasíveis) para agir assim.

0b4f71e0dd6b1cb9d34b43bf5a166b13-d58w12p.jpg

O interessante é observar que estamos sempre considerando tais mudanças de conduta de forma racional para burlar alguma “regra pessoal”. Porém, esta é uma característica presente em todas épocas e está em todas as formas de produções humanas. Ser corruptível é histórico. Se considerarmos a cultura cristã como a mais difundida da humanidade, a corrupção tem papel de destaque. O grande pecado da bíblia não foi a percepção do ego, pois Adão e Eva sabiam quem eram, mas foi a vulnerabilidade de suas condutas frente ao pecado do fruto. Será que se Adão e Eva tivessem a companhia de pessoas que pudessem se inspirar mostrando exemplos claros e práticos de conduta, eles cederiam à tentação que condenou uma espécie?

Suposições à parte, um fato que não podemos ignorar é algo que já é de conhecimento empírico de todo o professor escolar: não há nada mais compreensível que um exemplo. Todo o exemplo é irresistível. Pois ele é a via perfeita para persuadir uma pessoa, e quando aplicado no âmbito social tem força para conduzir toda a estrutura da boa convivência. Há uma citação de um dos maiores nomes da prosa portuguesa, Manuel Bernardes, que traduz de forma bastante completa o poder do exemplo: “Não há modo de mandar, ou ensinar mais forte, e suave, do que o exemplo: persuade sem retórica, impele sem violência, reduz sem porfia, convence sem debate, todas as dúvidas desata, e corta caladamente todas as desculpas. Pelo contrário, fazer uma coisa, e mandar, ou aconselhar outra, é querer endireitar a sombra da vara torcida”.

No campo sociológico, o Exemplo também tem seu destaque. Michael Focault, em seu curso A hermenêutica do Sujeito, fala sobre os passos para o autodesenvolvimento através do conhecimento de si. Em um dos pontos está a necessidade de se conversar com um amigo, “mestre espiritual” ou um confidente, o que indica a representatividade e importância que o outro tem na construção do eu e também no quanto a visão do outro e suas percepções impactam na conduta pessoal.

surreal_03_by_miki3d.jpg

Mas a novidade mesmo é juntar tudo isso com a ciência, que está dando uma mãozinha para trazer à luz esta questão com as descobertas dos apelidados “neurônios Dalai-Lama”. Em um laboratório de Parma, na Itália, alguns pesquisadores estavam realizando o monitoramento do cérebro de macacos para registrar uma pesquisa sobre movimentos. Na correria do dia, os pesquisadores resolveram almoçar por lá mesmo e não desligaram os microelétrodos do cérebro do primata. Quando eles começaram a comer, perceberam que o cérebro do primata reagia como se estivesse fazendo movimentos motores que eles faziam enquanto comiam, apenas observando a ação, imóvel. O laboratório resolveu repetir este experimento de diversas formas e foi assim que descobriram um grupo especial de neurônios, nomeados de Neurônios Espelho.

Estes neurônios são análogos aos nossos instintos mais primatas, apesar de ter sido encontrado neles. Este é um dos pontos da evolução do nosso cérebro. A finalidade destes neurônios é detectar intensões e desejos de seus semelhantes e de tudo vivo que o cerca, porém ele faz isso de forma empática, de modo que favoreça a sociabilidade e não com o alerta de predador vs. presa, como faria nossa amígdala do centro límbico, que avalia o nível emocional daquilo que vemos. Esta espécie especial de neurônios atua no cérebro de forma distinta, pois o fato deles nos fazer “nos colocar no lugar do outro” pode ser um risco à nossa capacidade de sobrevivência. Imagine você em uma selva quando aparece um animal feroz em sua direção. O cérebro precisa de uma atitude rápida e caso dependêssemos desses neurônios para projetar as intenções do animal, provavelmente morreríamos. Por ser tão atípico, os estudos sobre estes neurônios estão bastante em voga, pois além desse comportamento “social”, eles podem ser a resposta do elo entre fatores culturais e biológicos, mostrando que estes são mais próximos que imaginamos.

Quando vemos alguém bocejando, é quase automático que também vamos ter vontade de bocejar. Esse mimetismo tem a ver com os neurônios espelho, porém ele também atua de forma mais ampla para situações morais. A capacidade de entender a consciência alheia e raciocinar analogamente a ela através de um processo de imitação já foi descrito pela primeira vez na psicologia em 1909, por Titchener, que chamou o fenômeno de Einfühlung, citado depois por Freud como a possibilidade de penetrar no psiquismo de alguém diferente de nós mesmos. O que a modernidade mostra é que o Einfühlung e os Neurônios Espelho podem convergir. Outro estudioso da relação da ética e nossos neurônios é o Dr. William D. Casebeer, que nos traz uma análise interessante que nos dá uma pista sobre essa curiosa simbiose.

assimilated__pos__2_by_anti_martyr.jpg

Segundo Casebeer, no estudo intitulado “Os mecanismos neurais da cognição moral” (tradução livre) diz que "o espelhamento de emoções pode até descrever como funciona o nosso sentimento moral, mas não necessariamente garante a existência deste, pois a moralidade só existe se for introjetada através das relações sociais". Ou seja, o exemplo é a matéria-prima para despertar atitudes socialmente mais conscientes. Não basta sentir empatia pela situação de alguém, a verdadeira ação depende do que temos como base de certo e errado, bom ou ruim, para assim decidir agir ou não. Essa característica também tem seu outro lado, podemos usar esta habilidade empática para conseguir vantagens desonestas, que é o que ocorre com os psicopatas, corruptos e outras pessoas que se mostram cheias de boas intenções, mas estão apenas usando todos a seu próprio benefício.

Frente a tudo isso, o papel do exemplo tem sua força estrutural na sociedade. Ele torna menos fértil os desvios éticos. Já viu como funciona o Metrô no Japão? Bem diferente daqui, as pessoas são mais respeitosas com o espaço do outro e agem de forma a facilitar a circulação sem nenhum tipo de sinalização. O Exemplo tem mais ou menos esta lógica. Por mais que os japoneses saibam que é possível e fácil furar a fila, que podem passar na frente, que podem entrar de qualquer forma, eles não o fazem. O exemplo educa e mostra um caminho comum para o mesmo objetivo.

Ao longo do tempo, é visível que os heróis e ídolos nacionais estão cada vez mais rasos e estamos perdidos quanto a referências de comportamento. Isso torna este ponto ainda mais crucial. Nosso compromisso frente a sociedade é ser parte deste espelho e cuidar para que aquilo que refletimos seja uma conduta ética. Ser coerente é fundamental. Não podemos exigir aquilo que nós mesmos não realizamos. Então, para qualquer queixa que você tenha sobre alguma postura, verifique se as suas atitudes não dizem o contrário, e cuide de suas referências, pois a verdade é que macaco vê, macaco faz.


Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator..
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Ahas
Site Meter