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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Modernidade da Autoajuda

Existe uma indústria se alimentando da fragilidade das pessoas


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Galileu Galilei diz uma verdade que podemos demorar a entender, mas a experiência irá insistir em nos mostrar: “Não se pode ensinar nada a um homem, somente se pode ajudá-lo a encontrar a resposta dentro de si mesmo”. O típico caso do amigo que está sendo feito de trouxa em um relacionamento mas se nega a ver isso. Somos assim, acreditamos naquilo que queremos, por mais absurda que seja essa crença.

Devemos lembrar que o mundo no qual vivemos hoje é uma de geração de transição, também conhecida como geração de borda. Essa turbulência de valores que presenciamos é característica da ruptura abrupta de costumes impulsionada pelos avanços na tecnologia e comunicação. Neste processo de humanizar a antiga visão industrial e de massa, diversas variáveis surgiram, porém uma vem ganhando força e merece nossa atenção: o fenômeno da autoajuda na definição de valores e como esse tipo de filosofia oportunista acaba por influenciar o pensamento e a conduta.

A Publishnews lança a lista dos livros mais vendidos na semana nas principais livrarias do país. Na lista da primeira semana de fevereiro de 2016, dos 20 primeiros livros, 10 são de autoajuda. Isso comprova a relevância deste tema. Sua representatividade pode ser vista em sua extensão. Este estilo de escrita começou a se popularizar há alguns anos e vai além do campo pessoal, ganhando corpo com a nova visão de que as pessoas devem ser autoconfiantes. Este tipo de mensagem promete fórmulas pré-prontas para tudo, inclusive a felicidade, com títulos como “vença a depressão em dois dias”, “Você pode!” e outros nesta linha.

O mundo corporativo também se infecta com este tipo de pensamento e cada vez mais apresenta características similares com chamadas audaciosas como “10 passos para ser milionário”, “empreenda agora e alcance o sucesso”. O que vale ressaltar é que esta ideologia começa a ultrapassar a barreira da escrita para ir para o campo da atitude. A este respeito, um artigo muito interessante aborda de forma clara como a ideologia logradora da autoajuda se insere no âmbito empresarial.

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De uns tempos pra cá, a preocupação com o outro vem aumentando na sociedade de forma a torná-la mais plural e respeitosa, na qual todos possam conviver com suas diferenças em harmonia. Este é um indicativo importante na evolução social, que a lentos passos caminha para um futuro em que se possa ser sem ofender. Hoje, nossa sociedade discute ética, começa olhar de forma diferente o social, tenta ir contra sua natureza egoísta para enxergar o outro. Palavras como Bullying, direitos sociais, minorias e tantas outras deste universo léxico estão cada vez mais inseridas em nosso cotidiano e começam a se uniformizar com a cultura. Desta forma, conceitos básicos são moldados com o intuito de preparar a sociedade para uma experiência mais plena. Isso tudo é um solo fértil para o desenvolvimento nocivo da autoajuda.

Para uma geração que cresceu vivendo num mundo automático, no qual se clica e acontece, a fórmula da autoajuda se encaixa nesta mesma mecânica e por isso soa coerente, apresentando questões complexas de forma simplificada e reducionista. O historiador Leandro Karnal compara a relação da autoajuda com filosofia como a da religião e o esoterismo, enquanto a religião é um dos pilares estruturantes da filosofia o esoterismo é magia e superstição. Um dos axiomas deste tipo de discurso é que basta acreditar para alcançar. Somam isso a argumentos verossímeis, distorcem exemplos de sucesso e persuadem de que a fé é o único elemento necessário para conseguir qualquer coisa.

Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam, já dizia Henry Ford. Obviamente precisamos acreditar naquilo que desejamos, mas este é um passo prematuro do pensamento. Quando nomeamos um objetivo de sonho, classificamos ele como uma utopia. Ir atrás de seus sonhos é torná-los metas tangíveis e pôr em prática um plano de ação, caso contrário, o sonho é um desejo sem estrutura, um objetivo em seu estado imaturo. E não podemos esquecer que a realidade é dura: você não pode tudo, existem competências que você simplesmente não domina e nem sempre dará certo. Conhecer nossas limitações é um processo vital para o autoconhecimento e desenvolvimento, somente assim podemos encarar frente a frente nossos sonhos, ou melhor, objetivos, sem frustração. Este é o caminho apontado por grandes pensadores como Platão e Spinoza, sendo o autoconhecimento a chave para todas as transformações.

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Um dos homens mais rápidos do mundo, o brasileiro Cesar Cielo, tem dois recordes mundiais na piscina. Outro homem dos mais rápidos foi o venerado Ayrton Senna. Dois nomes e uma coisa em comum: ambos são os melhores. Os fatores que justificam este mérito não foi apenas a crença em ser o melhor. Como bem recorda Thomas Edison, o talento é 1% inspiração e 99% transpiração. Tanto Cielo quanto Senna aperfeiçoaram com insistência este talento. Cielo caiu na água a primeira vez aos 3 anos e mostrou uma incrível habilidade, desde então viveu nas piscinas ganhando seu primeiro campeonato aos 8 anos. Com perfil competitivo, Cielo mantém uma rotina puxada e afirma que para ser o mais rápido tem que treinar muito. Senna também era alguém muito focado, ganhou sua primeira corrida aos 13 anos, era alguém perfeccionista e dedicou toda sua juventude atrás desse objetivo.

Vale lembrar do sábio aforismo grego “Conhece-te a ti mesmo” inscrito no Templo de Apolo, esses campeões não estão lá por serem especiais ou por acreditarem na realização do sonho, eles se empenharam se autoconhecendo e dia a dia se mantiveram focados a alcançar o ideal. Esta máxima socrática significa fortalecer a inteligência emocional para manter o foco perante situações adversas. Não há fórmula mágica. Essa corrente de autoajuda que diz que aquilo que você pensa acontece é infantilizar o pensamento, cria pessoas rasas, sem poder de crítica. O pensamento pode ser poderoso apenas se ele for capaz de mudar a atitude, pois aquilo que pensamos nada muda, mas aquilo que fazemos transforma.

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A autoajuda pode ser a porta de entrada para uma reflexão, ela é importante por proporcionar um tempo dedicado à resolução de um problema, este é o ponto positivo deste tipo de leitura. Há muitos defensores deste tipo de escrita, inclusive médicos que receitam a leitura de autoajuda para pacientes com ansiedade e depressão sob a justificativa que estes pacientes vão buscar informações na internet, podendo ser pouco confiáveis. Segundo os dados do Instituto Pró-livro de 2011, são 12,3 milhões dos leitores de autoajuda no país, alguns desses títulos se transformaram em best sellers, curiosamente em um país onde a leitura está longe de ser a atividade favorita. O Monge e o Executivo, de James C. Hunter, teve 1,1 milhões de cópias vendidas só no Brasil e desde seu lançamento em 2004, ainda está entre os livros mais vendidos.

A autoajuda que podemos ter para nós é a consciência que na vida tudo é um processo que passo a passo precisa ser cumprido para ser real. É impossível aprender a correr antes de andar, e de andar antes de engatinhar. Conseguir observar essas camadas é um grande passo, é trabalhoso e árduo. Sempre que precisar dar um estímulo ao seu ideal, fique com o conselho de Rocky no discurso do filme Rocky Balboa para o seu filho: “O mundo não é um mar de rosas; é um lugar sujo, um lugar cruel, que não quer saber o quanto você é durão. Vai botar você de joelhos e você vai ficar de joelhos para sempre se você deixar. Você, eu, ninguém vai bater tão forte como a vida, mas não se trata de bater forte. Se trata de quanto você aguenta apanhar e seguir em frente, o quanto você é capaz de aguentar e continuar tentando. É assim que se consegue vencer. Agora se você sabe do teu valor, então vá atrás do que você merece, mas tem que estar preparado para apanhar. E nada de apontar dedos, dizer que você não consegue por causa dele ou dela, ou de quem quer que seja. Só covardes fazem isso e você não é covarde, você é melhor que isso”.


Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator..
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