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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Efeito sem causa

A arte humana da problematização


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Não importa o quão boa é ou será sua vida, você nunca se sentirá plenamente satisfeito. Calma, isto não é uma maldição ou um julgamento pessimista, é uma boa notícia. Geneticamente, somos seres programados para sermos descontentes. Thomas Edison, importante cientista e grande inventor, afirma que “a insatisfação é a principal motivadora do progresso”. E na verdade ele tem razão.

Este sentimento move o instinto humano, é uma característica natural. A acomodação no meio ambiente é sinônimo de extinção em uma cadeia evolutiva. Quem nunca ouviu a velha tríade de nascer, se desenvolver e morrer? A insatisfação entra no desenvolvimento. Portanto, é corriqueiro ter queixas das próprias condições, por mais privilégios que elas tenham. Esse é um fator de buscar melhorias contínuas e aperfeiçoamento, e também o motivo que justifica aquela modelo linda e perfeita, cheia da grana, aparecer um belo dia com depressão. Nos últimos tempos, esta insatisfação inerente ao ser humano tem se tornado crônica, perdendo seu equilíbrio e saindo do natural.

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Se tem algo que o compartilhamento on-line nos ensinou nesta breve história de Internet é que passamos a problematizar tudo que vemos pela frente. Ou, como se diz por aí, encontrar pelo em ovo. Além disso, o status quo da sociedade potencializa algumas características nossas que podem trazer males se não forem controladas. A ansiedade é um exemplo disso. Nunca se sofreu tanto com ela como hoje. É inegável que a velocidade do mundo e sua conectividade propiciam um fomento a esta inquietação. Outro ponto, e que nos interessa muito neste assunto, é a insatisfação. Ela acaba sendo impulsionada pela voz que as redes sociais deram às pessoas. Torna-se cada vez mais frequente os famosos “textões” de todos os tipos na internet, repletos de opiniões e críticas.

Por um lado é muito positivo que este movimento aconteça, pois é necessário dar abertura à expressão e parte do papel das redes é garantir visibilidade a este tipo de coisa, por outro é notável o despreparo das pessoas para lidar com aquilo que lhes é diverso e a dificuldade em argumentar e escutar o ponto de vista do outro. Não por acaso que diversas filosofias de vida, principalmente as religiões, falam de valores como gratidão, justamente para frear este ímpeto de criticar tudo e todos a nossa volta e exercitar uma percepção mais apurada, com foco naquilo que realmente tem relevância, dando mais peso às coisas que são positivas.

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No fundo, isso é uma autossabotagem das pesadas. Muitas vezes a reclamação é uma máscara que nos impede de ver claramente o verdadeiro motivo que está por trás desta irritabilidade. É o que os budistas chamam de “Dukkha”, a sensação de impermanência e imperfeição que gera a angústia de existir. Este sentimento equivale ao “bom inimigo”, da obra Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche. Estes inimigos são aqueles cuja crítica nos transforma, nos estimulando à autocrítica e ação. Na psicologia, isso pode estar ligado ao nosso mecanismo de defesa. Se observarmos os fatores daquilo que nos incomoda, entenderemos quais são nossos próprios desequilíbrios. Evitar que este pensamento se transforme em um vício precisa da intervenção da consciência. As críticas não vão parar de surgir, mas quando entendidas elas se tornam controláveis.

Paulo Gaudêncio, psiquiatra e psicoterapeuta, conta a história de três amigos que ilustra bem este quadro: eles estão cada um em um barco no mesmo rio quando notam que estão indo de encontro a uma imensa cachoeira; o primeiro se irrita e amaldiçoa quem tinha alugado os barcos sem conhecer os perigos, o segundo se lamenta e deprime-se com sua incapacidade frente ao inevitável, já o terceiro rema o mais rápido que pode na direção da margem e consegue se salvar. Moral da história – os três tinham razão, mas somente um interferiu no destino. Assim acontece com a insatisfação e a tendência a ver somente o defeito de tudo, ela é a cachoeira que estará ali presente, mas depende da nossa atitude para ter êxito em driblar a fatalidade e encontrar saídas para não cair no desgosto. capa 2.jpg

Somos perturbadores da própria paz, uma vez comentou um amigo. Esta é uma verdade que quando percebida pode ser utilizada para mudar nossa conduta automática e começar a expandir nossas limitações, ou seja, compreender aquilo que nos incomoda. Se prontificar a encarar que parte do problema somos nós mesmos é um começo para tomar atitudes que mudem este quadro e quebre este ciclo. A crítica é sempre um ponto de vista. E todo o ponto de vista parte de um interlocutor. Logo, nossos valores também se tornam vulneráveis, pois quando se julga, colocamos eles à prova. Um depoimento muito legal tem rolado na internet sobre uma mulher que se descobriu preconceituosa mostra de forma bacana um pouco disso.

A atitude é determinante para não se deixar cair no mar de lamúrias e entender que temos de dar efeito somente àquilo que tem realmente causa. É natural problematizar, encontrar desconfortos e até estar insatisfeito do ponto de vista pessoal, porém isso deve ser uma plataforma para se autotransformar e fazer melhor. A crítica nada mais é que uma reação do contato com o diferente. Precisamos trocar o reagir pelo agir. Quando reagimos, a ação torna-se uma atitude involuntária, já quando agimos, é nosso desejo quem comanda. A escritora Genevieve Valentine dá a dica: “Isso que acontece quando se dá um passo: você se aproxima daquilo que quer”, então caminhe longe dos extremos e lembre-se de estar atento às cachoeiras inevitáveis que aparecer pelo trajeto.


Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator..
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